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sexta-feira, 12 de junho de 2026

Inquietante infamiliar

 Dediquei-me ontem à leitura de um texto de Freud. Intitula-se, em alemão, “Das Unheimliche”.

 

Tenho comigo duas traduções. Numa delas, de Ernani Chaves e Pedro Heliodoro, o título é “O Infamiliar”. Na outra, de Paulo César de Sousa, é “O Inquietante”. Há tempos li ainda outra tradução, intitulada “O Estranho”.

 

Na edição da Autêntica, Gilson Iannini e Pedro Heliodoro expõem, ao longo de dez páginas, as razões para a criação do termo “infamiliar”.

 

Os argumentos são interessantes, mas, para um leigo, a escolha nem sempre resulta.

 

Em alemão, a palavra existe e tem uso corrente. Em português, não. Por isso, em vários momentos, o texto perde o pé e exigiria mais notas para explicar não apenas a riqueza, mas também a insuficiência do neologismo.

 

Mesmo sem saber alemão, percebe-se pelos exemplos de uso comum que “inquietante” se acomoda melhor ao português. Por exemplo:

 

Das Haus ist unheimlich.

A casa é inquietante.

 

Ich fand ihn irgendwie unheimlich.

Achei-o meio inquietante.

 

Es war eine unheimliche Stille.

Havia um silêncio inquietante.

 

Mir ist unheimlich zumute.

Sinto-me inquieto.

Estou com uma sensação inquietante.

 

São frases que o Google Tradutor oferece e que entendemos sem dificuldade.

 

Se tentarmos com “infamiliar”, a coisa desanda:

 

Das Haus ist unheimlich.

A casa é infamiliar.

 

Ich fand ihn irgendwie unheimlich.

Achei-o meio infamiliar.

 

Es war eine unheimliche Stille.

Havia um silêncio infamiliar.

 

Mir ist unheimlich zumute.

Sinto-me infamiliar.

Estou com uma sensação infamiliar.

 

Ao longo do texto de Freud, toda vez que ele trabalha, por assim dizer, sobre a sabedoria da língua, o leitor brasileiro tem de se debater com a infamiliaridade do neologismo.

 

Entretanto, a escolha da palavra “infamiliar” me parece o menor dos problemas. O mais infamiliar, ali, é o português da tradução. O resultado me parece duro de ler, e com passagens cujo sentido se altera de modo inexplicável. Um leitor que iniciasse por aí sua leitura de Freud teria dificuldade não só de compreender o texto, mas também de entender por que o estilo dele foi tão louvado.

 

A tradução de Paulo César de Sousa (Companhia das Letras), ao contrário, é muito legível. Sei que psicanalistas lhe censuram a escolha — que ele defende brevemente — de “repressão” e “reprimido”, em vez de “recalque” e “recalcado”.

 

Sou leigo, mas, se o uso de “repressão” é evitado por causa de alguma insinuação de intencionalidade, “recalque” também traz outro ruído, por causa do uso comum, em que uma pessoa recalcada é aquela que nutre ressentimento, inveja ou amargura contra outras.

 

Mas voltemos às traduções.

 

Comecei a ler “O Infamiliar”, mas logo me senti tentado a mudar para “O Inquietante”. E fiz bem: voltou aos meus olhos o prosador magnífico que aprendi a admirar nos anos de 1970, quando fiz um curso com Dante Moreira Leite.

 

A edição infamiliar tem, porém, uma vantagem: além de notas de grande utilidade, traz o texto alemão. Isso permite que, na leitura comparada com a outra tradução, algumas dúvidas sejam submetidas ao Google Tradutor. E aqui está o ponto: nesses casos, o Google se aproximou muito mais da solução de Paulo César de Sousa, tornando mais visíveis os problemas da outra tradução.

 

Como nesta passagem, por exemplo:

 

“À minha vista, havia apenas mulheres maquiadas nas janelas das pequenas casas, e me apressei para abandonar a estreita rua na primeira esquina. Mas, depois de um tempo em que vaguei sem direção, encontrei-me, subitamente, de novo na mesma rua, onde, então, levantei os olhos e chamou-me a atenção que meu apressado afastamento teve como consequência ter tomado, pela terceira vez, um novo desvio. Contudo, então, experimentei um sentimento que eu poderia apenas caracterizar como sendo da ordem do infamiliar; fiquei feliz por ter renunciado a fazer outras descobertas nessa viagem quando, rapidamente, já estava de volta à piazza de onde havia saído. Outras situações que tinham em comum o retorno involuntário como essa que acabo de descrever e se diferenciavam dela em outros pontos tiveram como consequência o mesmo sentimento de desamparo e infamiliaridade.”

 

Um dos problemas do trecho é este: “fiquei feliz por ter renunciado a fazer outras descobertas nessa viagem quando, rapidamente, já estava de volta etc.” Freud conta um episódio ocorrido numa viagem à Itália. Do modo como está, parece que ele desistiu de fazer outras descobertas na viagem porque retornou três vezes a uma rua de prostituição. Mas o sentido é outro: ele renuncia a continuar explorando aquela zona da cidade e fica aliviado ao reencontrar a piazza de onde partira.

 

Eis a tradução de Sousa:

 

“Havia apenas mulheres maquiadas nas janelas das pequenas casas, e apressei-me em virar no cruzamento seguinte para abandonar aquela rua. Mas, depois de vagar sem orientação por algum tempo, encontrei-me novamente ali, onde começava a chamar a atenção, e meu apressado afastamento só teve o resultado de que, por um novo rodeio, caí pela terceira vez no mesmo local. Então fui tomado por um sentimento que posso qualificar apenas de inquietante, e fiquei contente quando, tendo renunciado a outras explorações, vi-me novamente na piazza de que havia partido antes. Outras situações, que têm em comum com esta o retorno não intencionado e dela diferem radicalmente em outros pontos, também resultam na mesma sensação de desamparo e inquietude.”

 

Agora a cena é completamente inteligível, sem consequências para o resto da viagem italiana de Freud.

 

E mesmo o Google Tradutor, sem aparato crítico e sem dez páginas de justificativa, deixa a cena mais clara:

 

“Apenas mulheres maquiadas podiam ser vistas nas janelas das pequenas casas, e apressei-me a sair da rua estreita na próxima esquina. Mas, depois de vagar sem rumo por um tempo, de repente me vi de volta à mesma rua, onde agora começava a atrair atenção, e minha partida apressada só resultou em eu acabar lá pela terceira vez, por mais um caminho indireto. Então, porém, fui tomado por uma sensação que só posso descrever como estranha, e fiquei aliviado quando, sem explorar mais, encontrei o caminho de volta para a praça que havia deixado. Outras situações que compartilham esse retorno involuntário com a descrita anteriormente, mas que diferem fundamentalmente em outros aspectos, resultam, ainda assim, na mesma sensação de impotência e desconforto.”

 

Outra passagem problemática, decisiva para eu abandonar “O Infamiliar”, me pareceu inquietante não pelo conceito, mas pela surra que dá no vernáculo -- e, suspeito, também em Freud:

 

“Poderíamos antes perguntar acerca dessa imutabilidade de nossa posição diante da morte, na qual permanece a condição do recalcamento, que é exigida para que o primitivo possa retornar como algo infamiliar. Mas essa condição continua existindo; oficialmente, os chamados eruditos não acreditam mais que os mortos possam ser vistos como almas e ligam seu aparecimento a condições remotas e realmente raras, de tal modo que a posição sentimental originária, extremamente dúbia, ambivalente em relação aos mortos foi enfraquecida pelas camadas mais elevadas da vida anímica, dando lugar à piedade.”

 

Agora na tradução de Sousa:

 

“Considerando a imutabilidade dessa postura ante a morte, poderíamos antes perguntar para onde foi a repressão, condição necessária para que o primitivo retorne como algo inquietante. Mas ela também subsiste; oficialmente, as chamadas pessoas cultas não mais creem que os mortos venham a aparecer como espíritos, ligam o seu surgimento a condições remotas e raramente concretizadas, e a postura emocional ante a morte, originalmente bastante equívoca e ambivalente, abrandou-se para as camadas superiores da vida psíquica, dando lugar ao inequívoco sentimento da piedade.”

 

Por fim, o Google:

 

“Diante dessa atitude imutável em relação à morte, poderíamos perguntar onde permanece a condição de repressão, aquela necessária para que o primitivo retorne como algo estranho. Mas essa condição também existe; oficialmente, os chamados instruídos já não acreditam na manifestação dos falecidos como almas, associando seu aparecimento a condições remotas e raramente concretizadas, e a atitude emocional originalmente ambígua e ambivalente em relação aos mortos foi suavizada, nas camadas mais elevadas da psique, para a inequívoca piedade.”

 

A primeira frase, na tradução da Autêntica, me parece impenetrável. E traduzir Gebildeten (isto é, os cultos, os instruídos) por “eruditos” restringe duramente o sentido da formulação.

 

A tradução de Chaves e Heliodoro, empenhada em preservar uma arquitetura conceitual da palavra central do ensaio, sacrifica não apenas a frase portuguesa, mas também a clareza e a elegância do texto de Freud.

 

Com isso, principalmente para quem já leu outra tradução desse texto, o infamiliar deixa de ser apenas um conceito freudiano e passa a ser uma experiência do leitor.

 

 

Referências:

Freud, Sigmund. Obras completas – vol. 14. Tradução de Paulo César de Sousa. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

Freud, Sigmund. O infamiliar. Tradução Ernani Chaves, Pedro Heliodoro Tavares. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019.