segunda-feira, 25 de maio de 2026

A IA e a questão da fraude

 

Nos últimos tempos, ler um texto passou a trazer consigo um incômodo: a dúvida sobre se há alguém de fato por trás daquelas frases. Editores e professores passam a ler originais como quem procura indícios de falsificação. Se a dúvida se instala com força suficiente, trabalhos escolares são recusados, concursos se anulam e editoras recolhem livros publicados. 

Entendo a razão da desconfiança. A IA produz em poucos segundos textos fluentes, bem ordenados. Essa facilidade ameaça formas de seleção e julgamento que dependiam da suposição de um trabalho pessoal. Em consequência, textos mais bem resolvidos, menos problemáticos, acabam sofrendo escrutínio até mais rigoroso do que textos falhos, justamente porque a falha ainda parece sinal de presença humana.

No ambiente de exame ou de competição, qualquer participação da IA – como apoio ou como motor da escrita – tende a ser descrita como fraude. Meu ponto aqui é que a acusação de fraude, por mais inteligível que seja, é conceitualmente pobre. Ela supõe que o problema está simplesmente na presença da máquina. Como se a simples presença da IA bastasse para condenar o texto, e sua ausência bastasse para garantir autoria. As coisas, a meu ver, não são assim tão simples. A fraude existe em determinadas situações. Ela existe quando a participação da máquina serve para simular um trabalho que não foi feito ou uma experiência que não foi vivida por quem assina o texto, ou para substituir o trabalho de recusa e de conquista da forma que faz de uma página algo mais do que uma redação eficiente.

É claro que isso cria um problema prático para escolas, concursos e editoras. Não se pode pedir a uma banca que faça psicanálise da relação entre o autor e cada frase. Tampouco se pode ignorar a produção massiva de textos fabricados, enviados sem nenhum trabalho real de composição. Há aqui, portanto, uma dificuldade objetiva. Mas a discussão empobrece quando passa depressa demais da pergunta “houve IA?” para a sentença “então é fraude”. Seria preciso perguntar também que tipo de uso houve e que responsabilidade o autor assumiu pela forma final.

É nesse ponto que, para mim, a comparação entre a IA e o inconsciente lacaniano pode ajudar. A inteligência artificial trabalha com linguagem, e por isso convida à aproximação. Também ela recombina materiais e devolve frases que às vezes parecem dizer mais do que se havia pedido. A fórmula de Lacan – o inconsciente é estruturado como uma linguagem – parece abrir uma passagem imediata. Mas a passagem se fecha se esquecermos a diferença principal: a IA opera com linguagem sem recalque.

A máquina imita estilos e aproxima materiais dispersos a partir de um repertório imenso, maior do que aquele que qualquer um de nós tem na cabeça ou na biblioteca. Mesmo assim, ela pode errar, contradizer-se, inventar o que não sabe. E ela erra. Mas a falha, nela, tem outro estatuto, diferente da falha num ser humano. No sujeito, a falha pode vir carregada de desejo, vergonha, alguma forma de retorno do recalcado — alguma coisa que insiste contra aquilo que o eu gostaria de preservar. A IA pode produzir a aparência verbal de um ato falho ou de uma confissão constrangida. Mas essas formas não correspondem, nela, a uma experiência.

No inconsciente lacaniano, a linguagem não é apenas um instrumento de que o sujeito dispõe. Ela o atravessa. Um lapso ou uma palavra trocada por outra são pontos em que alguma coisa se diz apesar daquele que fala. O sujeito está implicado na linguagem, e é aí que se divide. Entre aquilo que imagina estar dizendo e aquilo que acaba por dizer abre-se um intervalo – e é nesse intervalo, muitas vezes, que aparece alguma coisa do desejo, embora apareça deformada.

A IA pode ser descrita, nesse sentido, como uma cadeia significante sem sujeito. Essa é a sua novidade: uma massa de linguagem que se organiza e se apresenta sem sujeito. Ela produz linguagem sem corpo e sem história libidinal. Apenas efeito de cálculo e recombinação. Já o inconsciente, quando aparece, retorna e perturba a intenção de quem fala. A comparação, portanto, só me parece aceitável se a consciência dessa diferença permanecer ativa.

A questão muda, fica ainda mais complexa, eu creio, quando deixamos de falar da IA em si e passamos a considerar o seu uso por um escritor. A máquina não precisa ter inconsciente para produzir efeitos sobre o inconsciente de quem escreve ou de quem lê. Esse é o ponto que me interessa. Sobre o escritor, ela pode funcionar como um dispositivo externo de pressão. Ela recebe uma massa de material narrativo – muitas vezes, um material ainda mal separado da experiência – e o processa segundo padrões de coerência que não são os do escritor. Ao fazer isso, pode lhe mostrar uma relação que ele evitava nomear, ou uma frase que talvez não quisesse escrever.

Ou seja, a IA não se divide, mas pode devolver uma frase que divide o escritor. O recalcado, se aparece, aparece no sujeito que se vê atingido por uma recombinação inesperada de seus próprios materiais. A máquina funciona, nesse caso, menos como autora do que como uma espécie de espelho deformante, que devolve a matéria com outra disposição, e por isso torna visível uma relação que, no fluxo da lembrança ou da invenção, permanecia protegida.

É por isso que a acusação simples de fraude me parece insuficiente. Se a máquina oferece frases fluentes e cenas que parecem resolver bem demais o problema, e o escritor as incorpora apenas por essa facilidade, sem dúvida há perda. Pode resultar um texto que funciona. Mas a frase, nesse caso, não traz nenhum risco: a IA escreveu algo neutro, no lugar em que o escritor deveria ter suportado a dificuldade da própria formulação.

Outra coisa acontece quando a formulação incomoda. Uma frase vinda de fora pode atingir justamente o ponto que o escritor não conseguiria formular sozinho, não por falta de capacidade técnica, mas porque ali começa a sua defesa. Nesse caso, a tarefa é perguntar por que aquela frase ou formulação o feriu. O incômodo produzido nele mostra que ali há matéria a ser trabalhada. A partir dessa percepção, a frase precisa ser deslocada, talvez escondida numa cena, talvez apagada. Mesmo se for apagada, pode ter cumprido sua função: mostrou-lhe onde estava a resistência.

No meu caso, um exemplo simples bastaria. Se, no meio de um trabalho sobre dependência, corpo, cuidado e vergonha, aparece uma frase como “Minha mulher não tinha nojo de mim”, o problema não é saber apenas se a frase foi inicialmente proposta pela máquina. O problema é saber o que essa frase faz comigo. Ela me constrange? Parece verdadeira demais? Expõe uma humilhação que eu vinha contornando? Talvez não deva ser dita assim. Talvez deva aparecer apenas como gesto, como mal-estar. Talvez deva desaparecer do texto e continuar agindo por baixo dele.

A frase, nesse caso, interessa pelo incômodo que causa. E o incômodo é precisamente o ponto em que o trabalho autoral começa. Talvez a frase seja ruim. Talvez seja direta demais. Talvez, no meu texto, ela não possa aparecer dessa forma. Mas ela localizou uma ferida. A partir daí, como autor, eu terei de decidir se a aceito, se a desloco ou se a apago. A autoria está nesse confronto: ou eu respondo por ela ou a apago. Mas ela não me é indiferente. A autoria, nesse quadro, depende menos da pureza da origem do que da responsabilidade pela forma.

Nunca acreditei na imagem da literatura como criação pura, saída de uma interioridade isolada. A escrita real é mais impura. Ela se constrói a partir de formas herdadas, leituras, conversas, frases ouvidas ao acaso. Há também a interferência dos outros, mesmo quando aparece apenas como objeção antecipada ou desejo de aplauso. A ideia romântica de uma subjetividade soberana, que extrai de si mesma a forma inteira da obra, me parece explicar mal o trabalho efetivo da escrita. Um romance ou um poema nasce e se compõe de materiais que não pertencem inteiramente ao autor. O que passa a pertencer a ele é o modo como esses materiais são aproveitados, submetidos a uma necessidade de forma.

Isso não absolve o uso da IA, é claro. Apenas desloca o lugar da responsabilidade, talvez tornando-a mais exigente. Quem usa a máquina precisa saber se está usando a linguagem recebida como atalho ou como resistência. Se a IA produz uma página inteira que apenas resolve o problema, dá fluência ao material e evita o ponto doloroso, o resultado pode ser aceitável como redação, mas não me parece suficiente como literatura. A máquina, nesse caso, protegeu o escritor de si mesmo.

Por outro lado, se a IA devolve uma formulação que obriga o escritor a reconhecer uma defesa, o quadro muda porque a frase recebida se tornou parte de um processo em que houve risco e trabalho de forma. A presença da máquina, por si só, não garante o valor do texto. Mas também não o invalida. O que importa é o que acontece depois.

Do ponto de vista de uma editora ou de um concurso literário, a fraude tende a aparecer como falsificação do produto. A editora publica e vende a promessa de uma experiência humana organizada em linguagem; o leitor ou o crítico descobre, ou julga descobrir, que recebeu uma imitação fabricada por máquina: é a fraude! Esse ângulo do debate me atrai pouco. Há muitos modos de falsificar a experiência, e um deles, talvez o mais comum, é simplesmente não saber transformá-la em linguagem.

O quadro, portanto, é mais complicado, já que o resultado textual da interação com a máquina pode ser muito bom e atuar sobre o leitor como qualquer texto exclusivamente humano. Mas pode também ser banal, como é banal a maior parte da produção literária desde a popularização do livro e da leitura. Além disso, no meio editorial a autoria em muitos casos não é individual: além do copidesque, há os “leitores sensíveis” e outras formas de controle do produto, sobretudo quando o livro se destina à escola ou a circuitos institucionais.

Por isso, quando se discute fraude, talvez seja preciso deslocar ou alterar a pergunta. “Houve IA?” pode ser uma pergunta prática, necessária em certos contextos. Como determinação da autoria, porém, é e será cada vez mais insuficiente. A pergunta mais difícil de responder é se o escritor se escondeu atrás da máquina ou se deixou atingir por aquilo que ela lhe devolveu. O resto decorre daí: a frase pode funcionar como disfarce, mas pode também tornar o conflito mais difícil de evitar.

Do meu ponto de vista, só há uma questão relevante, no caso do uso da IA: ele começa a se tornar fraudulento quando protege o escritor de sua resistência. Pode ter interesse literário, ao contrário, quando ajuda a localizá-la. Nesse ponto, a máquina apenas aponta a ferida. O que se faz depois disso — inclusive apagar a frase — já pertence ao trabalho da literatura.

 

domingo, 19 de abril de 2026

CEM PALAVRAS





Cinquenta microcontos em que objetos e bichos assumem jurisdição sobre o mundo humano. O coador de café seleciona o amanhecer. O carimbo de ALTA recusa entusiasmo precoce. A samambaia do quarto andar investe semanas num solteiro e morre de desgosto. O lagarto corre atrás do próprio rabo porque acredita que, se fechar o anel, entenderá alguma coisa.

Cada texto tem até cem palavras. Role a tela para ler uma amostra. Clique na imagem para adquirir o livro em formato Kindle.








Dentro da caixa de papelão esquecida no porão, a barata vivia em delírio. Chamava-se Clotilde e acreditava ser piloto de caça. Dava rasantes entre latas, zumbia slogans de guerra e gritava: — Missão Baratikov, decolando! Numa tarde, Zeca abriu a caixa com um canivete. Clotilde atacou em espiral kamikaze. Zeca gritou, derrubou tudo, e o canivete voou longe. No caos, a barata pousou triunfante no seu ombro. Zeca selou um tratado com farelo de bolacha. Desde então, Clotilde reina no pedaço — generalíssima da República Autônoma do Papelão.


sexta-feira, 10 de abril de 2026

Memórias de Marta - uma questão

10/2/26

Preparei, para a Ateliê Editorial, uma edição do romance Memórias de Marta, de Júlia Lopes de Almeida.

Segui, como é praxe nesse tipo de trabalho, a última vontade da autora.

Esse romance, que é o primeiro da escritora, teve três versões.
A primeira saiu em jornal, em 1888; as duas seguintes saíram em livro: uma em 1889, por uma editora de Sorocaba, e outra, por volta de 1930, por uma editora francesa.

A edição de 1889 retoma o texto do jornal, com alterações significativas. A mais importante talvez seja a supressão dos cinco parágrafos finais. Neles, a autobiografia de Marta chegava até o momento da escrita, revelando ao leitor que ela tivera uma filha dois anos após a morte da mãe. Nesse trecho, Marta esclarecia também que a narrativa fora escrita para a pequena Cecília, como forma de celebrar e preservar a memória da avó.

Essa destinação explícita levantava uma questão relevante: seriam o enfoque dos fatos narrados e o tom geral da obra adequados à destinatária? Com a supressão do final, desapareceu esse enquadramento da narrativa. (Incluí, no entanto, o texto cortado na apresentação da minha edição, para que o leitor possa compreender melhor a estrutura e a evolução do romance.)

Perto do fim da vida, já autora consagrada, com muitos livros de sucesso de crítica e de público, JLA voltou ao seu romance de estreia e o reformulou.

Essa revisão final, realizada em algum momento da década de 1920, contém diversas modificações importantes, que não vale a pena detalhar aqui.

Ocorre que a Fuvest, ao divulgar a lista de obras de autoria feminina para o vestibular, indicou desta forma o romance: “Memórias de Martha (1899)”. Essa data, no entanto, não corresponde à primeira edição em livro (1889), mas ao que parece ser uma reimpressão.

Ao menos duas editoras republicaram o texto de 1889/1899. Outras, como a Penguin e a Ateliê, seguiram a melhor prática editorial, que é adotar a última edição revista pelo autor. No caso, a publicada sem data, por volta de 1930.

A indicação confusa da Fuvest cria, assim, um problema adicional para os estudantes: devem ler a edição intermediária de 1899 ou a definitiva, revista pela autora? Ou ambas, analisando as diferenças? Porque há diferenças que podem ser decisivas para algum nível interpretativo. A maior delas é a forma da morte do pai.

Para mim, não há dúvida: o romance deve ser lido tal como definido pela autora em sua última edição.

A aparente opção da Fuvest por uma versão intermediária acabou por criar sério ruído.

Por conta disso, para que o leitor pudesse ter uma ideia das principais diferenças entre as versões, tratei de as expor na apresentação.

Gostei de realizar esse trabalho comparativo, mas não deixei de pensar, enquanto o fazia, na confusão que a maneira como a Fuvest indicou o livro a ser lido poderia causar aos vestibulandos, na hora de decidir qual versão escolher. Isso se as questões realmente versassem sobre o texto do livro.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Tudo é falso - livro de Ricardo Lima


O nome do último livro de Ricardo Lima é "Tudo é falso". É uma daquelas frases aporéticas. Se é verdade que tudo é falso, o livro também é falso. Mas se o livro não é falso, então o título é falso, pois há pelo menos alguma coisa verdadeira: o livro. Em termos lógicos, a frase é insustentável, mas vale notar que, como título, ela tem um estatuto escorregadio, pois títulos não fazem asserções no sentido pleno. "A Moveable Feast" não afirma que Paris tem o estatuto da Páscoa ou do Pentecostes. Em “Breakfast at Tiffany's”, Holly Golightly nunca toma café da manhã na Tiffany's. “Lavoura Arcaica” não é um romance regionalista, nem rural, nem sequer a lavoura existe de fato nele. Ou seja, o livro não está submetido ao seu próprio título como uma proposição está submetida às suas condições de verdade. A aporia talvez nem se forme de fato. Mas a aporia, no caso do livro de Ricardo Lima, está lá, e temos de lidar com ela. Sucede que em termos poéticos, a aporia funciona – ia quase dizendo que tem valor de verdade, mas recuei a tempo. É que, ao dizer que tudo é falso, o poeta faz um duplo movimento: aponta para um momento em que não só as “fake News” são evidentemente fake (embora possam determinar até mesmo a economia e os rumos de uma nação), mas o jogo inteiro parece uma manipulação, como no filme “Matrix”. A metáfora da Matrix já está bastante domesticada pela cultura pop, e o livro seria pobre se fosse por esse caminho. Ele não vai, embora a analogia possa talvez ser feita num sentido amplo: assim como além da Matrix há, por um lado as máquinas e por outro os remanescentes humanos em guerra permanente, no livro também deve haver algum combate real, do qual emerge o poeta como ponte entre os dois universos, denunciando a falsa realidade da matriz. A questão é que esse gesto excede o que a metáfora já sabe sobre si mesma. O título produz um excesso, e é nesse excesso que a poesia se firma. Porque tudo que vira imagem em poesia passa a existir. Tudo que é nomeado ganha, em algum nível, existência. Se eu afirmo perante uma plateia que não há, de forma alguma, um minúsculo cavalo verde sobre a minha mesa, ele passa a existir como imagem mental. Posso atribuir-lhe ações na sequência: o cavalo galopa de um canto a outro, recebe nas crinas o vento do ar-condicionado, se ergue nas patas traseiras para me cumprimentar com intimidade, abaixa o focinho em cumprimento respeitoso à plateia. É um cavalinho simpático, como todos podem ver. A poesia em grande parte consiste em dar existência ao inexistente e ao impossível na experiência comum. É por isso que o título "Tudo é falso" não precisa ser resolvido nem desmentido. Ele fica é suspenso, é apenas indicativo, é como o cavalinho verde ou o “Cavalo de todas as cores” da revista ideada por João Cabral. Nessa suspensão, o livro passa a existir como espaço próprio, com suas próprias leis. A poesia, portanto, absorve a aporia lógica, consegue habitá-la e transformá-la em modo de existência. Por isso pode ser falsa e ao mesmo tempo dotada de sentido e realidade interior. No caso de Ricardo Lima, o que vemos é um momento de poesia, se posso usar esse termo, violentada pela realidade. Acontece que tenho acompanhado a produção de Ricardo há muitos anos. Tenho lido e tenho escrito, em privado ou em público, as minhas impressões. A impressão acima se deve à novidade deste livro. O poeta, nos livros anteriores, era de uma espécie complicada: um temperamento lírico, ao mesmo tempo ensimesmado e atento ao miúdo da vida, evitando o discurso e o derramamento. Um poeta que podava o poema até deixar só o osso e as articulações, sem se preocupar se o leitor, dali, retiraria vida ou apenas a visão desse esforço de verdade íntima. Era em geral uma poesia que evitava, porém, a determinação: verbos no infinitivo, substantivos nus, sem artigos definidos ou indefinidos, eu sensível apenas como sujeito a organizar a forma e o ponto de vista sobre o recortado do rosto do cotidiano. Um trajeto de evolução linear em direção ao descarnamento. Agora, não. Esse poeta do mínimo ainda aparece, mas aqui e ali os últimos anos brasileiros, a pandemia, a ascensão da barbárie e do totalitarismo pelo mundo afora, tudo isso emerge com força, violentando (como disse) a forma e o ponto de vista. Para alguns, essa cedência representará um ganho. Para outros, será – para usar um título de livro anterior do poeta – a irrupção do absurdo e do falso da vida cotidiana no “pequeno palco” dos poemas enfeixados em mais um belo livro da Ateliê Editorial. Como leitor contumaz, confesso que estranhei o rumo e o novo tom de vários poemas deste livro. Mas, como habitante deste país, neste tempo, entendi perfeitamente o enredo da peça, e vi o esforço novo e os temas novos forçarem por dentro o estilo que antes vestia os livros anteriores como – para usar mais uma vez uma analogia pop – o Hulk emerge das roupas do Dr . Bruce Banner.

 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Ainda sobre poesia


 

Como leitor de poesia contemporânea brasileira, penso que posso fazer minhas algumas das palavras de Adam Zagajewski no ensaio “Em Defesa do Fervor”.

 

Por exemplo, eu poderia dizer, com ele, que “a ironia é a anulação da incerteza; a ironia, quando ocupa o lugar central no modo de pensar de alguém, é uma variante bastante perversa da certeza.”

 

Também subscreveria a ideia de que “nossa produção espiritual contemporânea sofre de certo gris, de debilidade e pequenez. Na produção de anos recentes - e me refiro mais à poesia, que sigo mais de perto -, evidencia-se uma desproporção entre o estilo elevado e o estilo baixo, entre a expressão poderosa da espiritualidade e a tagarelice interminável de literatos satisfeitos consigo mesmos; tenho a impressão de que lidamos aqui com um tipo de apaziguamento covarde, uma política de evasões e concessões no que concerne à vocação da literatura. E parece-me também que um dos principais sintomas dessa debilidade é o desaparecimento do estilo elevado e o imenso reinado do estilo baixo, coloquial morno e irônico.”

 

Simpatizei com o texto também porque ele traz uma questão que sempre faço a mim mesmo: “por que hoje tantas pessoas inteligentes, esclarecidas e cultas dão as costas para a poesia?” E poderia responder com estas palavras dele: “há algumas dezenas de anos a lírica entende sua vocação como um monólogo metodológico, uma meditação constante sobre a possibilidade do poema. É como se um alfaiate meditabundo, em vez de costurar a roupa, ficasse apenas pensando no belo provérbio árabe: «A agulha que veste tantas pessoas permanece nua». As pessoas pensantes que procuram respostas para perguntas cruciais se afastam dessa poesia seca, narcisista e hermética.”

 

Por fim, me perguntaria, com ele: “por que existem tantos poetas medíocres, cuja trivialidade nos leva ao desespero? Por que os poetas contemporâneos - essas centenas e milhares de poetas - concordam com essa mornidão espiritual, com essas piadinhas meio irônicas, com o niilismo elegante e por vezes quase simpático?”

 

Suas observações foram feitas sobre a poesia europeia, mas creio que se aplicam ao que, no Brasil, mais tem circulado nas últimas décadas. Penso especialmente naquilo que ganha visibilidade em festivais de poesia, antologias recentes e redes sociais literárias, mas também na enorme maioria das centenas de livros que li como jurado de dois dos mais importantes prêmios literários brasileiros. É que ali se instalou uma espécie de tom médio, que raramente se arrisca a tentar incomodar ou emocionar de verdade. Penso naqueles poemas que começam descrevendo um objeto ou evento banal (uma xícara, uma paisagem, um ícone cultural, uma conversa de bar) e terminam com uma meia-frase irônica, como quem diz: “viu? eu sei que isso não é grande coisa, mas também sei que você sabe, então estamos quites”. Ou nos poemas que falam o tempo todo sobre a impossibilidade, ou mesmo inutilidade, de escrever poemas, mas quase sempre evitam dizer algo sobre o mundo.

 

Na verdade, com muitas ressalvas, eu poderia até, como Zagajewski, lamentar o abandono do estilo elevado; mas lamentaria mais ainda o fato de que um enorme número de poetas simplesmente não tem o que dizer (daí a tagarelice), ou não tem a perícia de dizer qualquer coisa, mesmo que seja uma banalidade, de uma forma que emocione ou desperte verdadeira admiração.

 

Ou seja, a questão iria bem além de condenar ou recusar o coloquial, ou de expulsar a ironia do poema, pois ambos podem ser instrumentos de precisão e até de ferocidade, como vemos em Drummond, por exemplo. O problema é quando viram uma espécie de clima de estufa: quando a ironia se torna defesa, gesto de recuo travestido de orgulho, e quando o coloquial sem arte e a autorreflexividade se instalam como regra.

 

Quando isso acontece, a poesia confessa ao leitor que não tem a coragem de dizer alguma coisa que valha o risco, ou que não tem perícia para dizer qualquer coisa de modo que seduza ou incomode e o faça parar, suspenso pelo texto, impactado.

 

Talvez eu esteja sendo injusto. Talvez essa poesia insossa e defensiva seja sintoma e efeito de um tempo em que ficou difícil acreditar em qualquer coisa sem medo do ridículo, porque qualquer afirmação forte vira alvo fácil (inclusive das brigadas digitais). Mas por isso mesmo sinto falta de poetas que topem esse risco e prefiram errar por excesso, em vez de aceitar murchar por cautela. Não falo de voltar a algum estilo elevado perdido ou de invocar solenidades antigas, mas de recuperar a disposição para afirmar algo (uma percepção, um juízo, uma sensação ou emoção) sem já chegar ironizando, sem a armadura do “mas, né? sei lá...”. Mas sim de ter a coragem de sustentar o poema na sua brutalidade, mesmo sabendo que ele pode falhar, pode parecer ingênuo ou excessivo, da coragem de incomodar, inclusive a si mesmo, escrevendo sobre o que ainda não está resolvido.

 

Porque o que cansa - e talvez o que afaste tanta gente inteligente da poesia contemporânea - não é falta de solenidade (a solenidade pela solenidade é a outra face do mesmo tostão furado: também cansa muito), mas que ela tenha trocado ideal por blindagem. Ou seja: que ela, em lugar de construir, comenta, e para evitar se comprometer, alude e pisca um olho ao leitor, em vez de feri-lo, intrigá-lo, iluminá-lo, ou apresentar-lhe uma questão dolorosa. Fora da roda dos que se dedicam à mesma arte de praticar a desistência como prudência ou sabedoria, qual poderia ser o interesse disso?

 

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

HUMANO POR SUBTRAÇÃO


Paulo Franchetti & ChatGPT 5.2

Há algo de errado — ou, no mínimo, de mal colocado — na pergunta que voltou a circular com insistência: as máquinas escrevem como nós? Ela presume algo otimista: que ainda sabemos dizer com nitidez o que é “escrever como humano”. Talvez não saibamos. Talvez o movimento decisivo esteja em outro lugar. Não é tanto a máquina que aprende a nos imitar; é a escrita corrente, por razões institucionais, pedagógicas, de costume mesmo, que vai se instalando no regime de linguagem em que a máquina trabalha com mais segurança.

Modelos de linguagem não operam por compreensão ou intenção. Eles não têm “assunto”. Têm distribuição. Funcionam por regularidades de uso, zonas de alta previsibilidade, tendências de encadeamento, e por aquilo que, numa massa de textos, se repete com frequência suficiente para virar forma. O que produzem com menos risco é o texto médio: o que soa correto e reconhecível, o que obedece à norma, o que não dá trabalho ao leitor. A dificuldade começa quando esse texto médio passa a coincidir com o que, em salas de aula, pareceres, relatórios e artigos, se aprendeu a chamar de escrita adequada. Aí o problema se inverte. Não é a máquina que sobe em direção ao humano; somos nós que descemos — ou, para evitar o tom melodramático, que nos acomodamos — à faixa em que a máquina já se move sem atrito.

Desse encaixe nasce um efeito curioso, e bem menos inocente do que parece, quando entram em cena os detectores de IA. Em tese, eles deveriam reconhecer sinais positivos de autoria humana. Na prática, fazem o contrário. Quando o texto humano médio se aproxima, em ritmo, escolhas lexicais e previsibilidade, da média estatística do modelo, o detector tende a classificá-lo como gerado por IA. Para reconhecer um texto “humano”, ele já não consegue dizer: “isto é humano porque excede o automático”. Sobra o negativo: é humano porque falha onde os modelos costumam acertar; porque tropeça, porque repete, porque foge à regularidade da norma. A humanidade deixa de ser reconhecida na excelência e passa a ser inferida pela insuficiência.

Aqui aparece um detalhe quase cômico, se não fosse sério: o que antes era defeito vira prova. O erro passa a funcionar como documento.

A inversão parece um problema de calibragem. Não é. Ela começa a reorganizar, sem alarde, o sistema de valores que regula produção e avaliação de texto.

Na escrita acadêmica, por exemplo, ela se encaixa com precisão numa tendência antiga: a neutralização da linguagem como ideal de “seriedade”. O bom texto passou a ser o que não cria atrito: sintaxe regular, conceitos alinhados, nada que obrigue o leitor a parar e reler. Imagens, quando aparecem, vêm em dose homeopática; marcas de voz são desaconselhadas. É justamente esse texto — correto, “bem comportado” — que a IA produz com maior segurança. O paradoxo é cruel e já está em operação: quanto mais elegante e bem realizado o texto acadêmico, mais ele se aproxima do que hoje se suspeita ser automático; quanto mais irregular, redundante, um pouco desajeitado, mais ele se protege sob o selo do humano. O rigor intelectual deixa de coincidir com a melhor forma possível da língua. É um horizonte mais baixo.

A escola, por sua vez, não precisa nem da discussão abstrata: ela sente o golpe na prática. A redação deixa de ser julgada apenas pelo que articula e passa a ser avaliada também pelo modo como encena uma falibilidade plausível. Pequenos erros, repetições pouco econômicas, escolhas menos felizes começam a funcionar como sinais de autenticidade. O aluno que escreve com clareza excessiva torna-se suspeito; o que escreve mal — desde que mal de um jeito verossímil — encontra abrigo. Instala-se, sem que ninguém diga isso em voz alta, uma pedagogia da mediania: a excelência tem de se explicar; a insuficiência, ao contrário, ganha valor probatório.

No plano da autoria, o deslocamento é decisivo. Importa menos quem escreveu, em que circunstâncias, com que responsabilidade — e mais se o texto se situa dentro ou fora da zona de conforto estatístico do modelo. A autoria deixa de ser uma relação ética entre sujeito e palavra e passa a ser tratada como compatibilidade formal: “parece humano?”, “parece máquina?”. O risco, aqui, não é apenas errar a atribuição em casos particulares. É aceitar como natural um mundo em que escrever bem demais exige defesa prévia, e em que o melhor argumento, em última instância, pode ser uma imperfeição estrategicamente deixada à vista.

Tudo isso recai, por fim, sobre a própria noção de estilo. Quando o padrão deixa de ser o centro, estilo pessoal passa a ser o nome dado ao que resiste à norma: uma insistência, uma escolha que não se justifica por economia, uma maneira de construir frase que cria atrito e, justamente por isso, produz presença. Mas quando a máquina domina com perfeição o estilo médio, aquilo que se afasta dele passa a parecer ruído. O gesto singular começa a ser lido ora como erro, ora como afetação, ora — esta é a novidade — como manobra deliberada para “parecer humano”. O que antes marcava uma voz corre o risco de ser reinterpretado como imperfeição calculada.

No limite, quando a máquina ocupa a média e roça a excelência, o humano é empurrado para a margem inferior. Não porque ali esteja sua verdade. Aliás, não há nenhuma verdade especial na falha. Mas porque ali a máquina ainda não reina com tranquilidade. A humanidade do texto deixa então de residir na invenção e passa a se alojar no defeito: no que falta, no que desanda, no que não fecha perfeitamente. Define-se, portanto, por subtração.