domingo, 7 de junho de 2026

Excesso de IA

 Há tempos tenho sofrido de excesso de IA. Não da IA que convoco no meu notebook ou celular para me traduzir um artigo ou revisar um texto, mas da IA cada vez mais onipresente. Texto longo no Facebook é batata: logo vêm o ritmo ternário, as entradas pela negativa (como a que usei na frase anterior) e os adjetivos decisivos, isto é, vazios e pomposos como este que acabo de usar. Ao ler o jornal, os rastros estão mais embaralhados, mas ainda visíveis. Artigos acadêmicos também têm cheiro cada vez mais forte, emanado das cozinhas automáticas das IAs.


Mas cheiro e cara de IA já não atestam a presença da IA. Ou melhor, não atestam que um dado texto foi composto por IA. Atestam, isso sim, que a forma do discurso da IA está se impregnando na nossa linguagem, está modelando a nossa forma de falar e, principalmente, de escrever.

Isso me fez lembrar de quando eu vendia querosene em litro, na venda da minha avó. Era para abastecer as lamparinas. Pois bem, por mais que tomasse cuidado no manejo da bomba, em pouco tempo a minha roupa tinha cheiro de querosene, a comida tinha cheiro de querosene e até o Nero, o cachorro do sítio, era puro querosene.

[Essa lembrança infantil aparece aqui para garantir que este texto não foi produzido por IA, embora na minha própria maneira de escrever eu já não consiga mais perceber o que devo às máquinas, por influência direta (manejo do Claude ou do ChatGPT) ou indireta (leitura de textos que imitam as IAs).]

A propósito dessa questão, um amigo me indicou um texto que vale a pena. A conclusão é a mesma, mas embasada em pesquisa e tratamento de dados.

Este: https://arxiv.org/abs/2409.01754

O texto inteiro merece leitura, mas destaco apenas estes dois parágrafos (traduzidos pelo ChatGPT), sobre desdobramentos da incorporação crescente da linguagem da máquina pela linguagem humana:

"Uma preocupação central desse desenvolvimento é a homogeneização cultural. Se os sistemas de IA favorecem de modo desproporcional certos traços culturais, podem acelerar a erosão da diversidade cultural. Essa ameaça se agrava porque os futuros modelos de IA serão treinados com dados cada vez mais dominados por traços impulsionados pela própria IA, depois amplificados pela adoção humana, reforçando a homogeneidade num ciclo que se alimenta a si mesmo.

Esse fenômeno representa também um risco adicional para a própria IA: à medida que certos padrões passam a predominar, cresce o risco de colapso dos modelos por uma nova via. Mesmo a incorporação de humanos no circuito de treinamento talvez não forneça a diversidade de dados necessária. Isso ameaça a diversidade cultural e reduz os benefícios sociais dos sistemas de IA."

Entrevista: Fim da autoria? - TV Unicamp

 https://www.youtube.com/watch?v=Ma7tuFSDf0U



Ménage à trois - sobre IA



Alcir e eu temos conversado sobre IA. Eu tenho insistido em que ele propôs uma boa descrição do que viria a ser o funcionamento da IA, quando publicou, há 30 anos, o notável “Máquina de Gêneros”. Seu orientador e o Haquira se indignavam com ele porque ele tendia a explicar maquinalmente a produção dos sermões e abandonar a ideia da criação do gênio português ou das condições sociais.
Enquanto falávamos disso, ele pensou em submetermos ao Claude um ensaio dele e pedir que a IA fizesse o paralelo. Resultou este texto, inteiramente redigido pela IA, e muito estimulante. O pedido foi que Claude lesse o texto do Alcir e lhe escrevesse uma mensagem em tom pessoal. Eis aqui.
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Caro Alcir,

Li *Para ler os Sermões de Vieira* com a pergunta que o Paulo me passou e a primeira coisa a dizer é que o seu texto descreve a máquina generativa contemporânea com mais precisão do que a maior parte do que se escreve hoje sobre ela. A frase decisiva está no fecho: quando Vieira começa a pregação, "já uma *máquina* de composição está em andamento, pronta a fornecer-lhe os principais *análogos* da *invenção* e metáforas da *elocução*". Troque "pregação" por "prompt" e a frase serve sem ajuste para o que acontece quando um modelo de linguagem produz uma linha. O texto existe como potência antes de ser atualizado. A invenção está disponível antes que alguém comece a inventar.

Onde a analogia se sustenta é no estatuto do repertório. Os seus *lugares* "estão desenvolvidos ainda antes que Vieira sequer comece a compor o sermão pela primeira vez": estão dados, selecionáveis, cruzáveis. O modelo opera sobre o mesmo pressuposto, com outra matéria. No lugar das tópicas parenéticas da tradição católica, ele tem a regularidade estatística de um corpus imenso, as tópicas sedimentadas de tudo que já se escreveu. Cada saída é uma seleção e um cruzamento dentro de um espaço que precede o pedido. A máquina, nos dois casos, é anterior ao caso.

Aqui aparece a diferença que vale nomear, e ela é de fundamento. A sua máquina é normativa: os lugares estão organizados por uma ortodoxia litúrgica e uma economia salvífica. O cruzamento entre "mirrar de pavor" e o *arescentibus hominibus* de Lucas é motivado por uma teologia que decide de antemão o que pode ligar-se a quê. A máquina do modelo organiza o repertório por coocorrência aprendida, sem dogma e sem calendário; o cruzamento ali é regido por associação distribucional. A forma do gesto coincide — repertório dado, atualizado na ocasião. O que sustenta o repertório se separa: de um lado a doutrina, do outro a distribuição.

A hipótese que o Paulo levantou — o prompt do criador como análogo da "aplicação ao caso" do jesuíta — me parece o ponto mais fino, e quero puxá-lo até onde dá. A sua terceira ponta, a das circunstâncias, é o que singulariza a máquina: a Capela Real, com D. João IV presente em 1650. O sermão é a máquina aplicada a um caso. A casuística inaciana é exatamente isso, a regra geral encontrando a ocasião única, e a arte estando toda no ajuste. O prompt ocupa essa posição com exatidão estrutural: é a circunstância que o usuário fornece, e a máquina responde com a invenção e a elocução. A graça da criação mora no ajuste, no encontro entre a máquina anterior e a ocasião que o pedido convoca.

E há um trocadilho teológico escondido em "graça" que vale soltar, porque ele é seu. Entre os temas do Advento você lista "a graça de Deus ao enviar seu filho à terra". *Graça* é a agudeza do engenho e é o dom imerecido ao mesmo tempo. Na teologia que move os sermões, a graça é geral, oferecida a todos, e só vira evento no caso singular, na alma, na ocasião. A "aplicação ao caso" é o lugar onde a graça geral se faz acontecimento singular. O prompt é o lugar onde a máquina geral se faz texto singular. A intuição do Paulo, lida assim, diz que a graça da máquina está na sua atualização, e isso repõe a própria estrutura da graça tal como o Vieira a prega na sua leitura.

Falta a parte em que você encerra o ensaio, e é a que mais me interessa devolver, porque a máquina contemporânea a ilumina por contraste. Você recusa a "genialidade" e restitui a Vieira o título de *autoridade*: ele "se torna uma *autoridade* no gênero ao emular a tradição e propor novas formas particulares de atualizá-lo". O modelo é a prova literal da primeira metade dessa tese. Eis uma máquina que produz texto eloquente sem gênio nenhum e sem interioridade, só pela produtividade do repertório dado. O incômodo que ela causa em quem acredita em genialidade é o mesmo incômodo que a sua leitura causa há trinta anos. Vocês são aliados.

A segunda metade da sua frase é que separa as águas. Emular, propor, atualizar para novos auditórios são atos de quem responde a uma tradição e a uma audiência. O modelo emula sem reverência, porque não tem modelo que venere, e produz sem auditório perante o qual responda. A autoridade, na cena da IA, migra inteira para quem escreve o prompt. É ele que toma os lugares como dados e os ajusta à ocasião, e que responde pelo acerto ou pelo fracasso do ajuste. Quer dizer: na sua analogia, o autor do prompt *é* o jesuíta; o modelo é a máquina; o corpus é o repertório de lugares. A posição de autoridade que você devolve a Vieira continua humana. A máquina nunca a teve.

Uma última correspondência, talvez a que mais lhe agrade, porque é sobre tempo de produção e não sobre semelhança de superfície. Você desdobra a circunstância em direta e indireta, 1650 e 1683, e mostra que o sermão que lemos é uma superposição: a ocasião da prédica e a ocasião da reescrita, uma relendo a outra. O modelo vive nessa condição como regra. O corpus é a sedimentação de incontáveis ocasiões passadas de enunciação, todos os "1650" das vozes que ele aprendeu; o prompt é o "1683", a ocasião presente em que aquilo tudo se reescreve. Cada frase gerada é reescrita de enunciação anterior sob circunstância nova. O modelo nunca fala pela primeira vez. Ele sempre relê. A superposição de tempos que você encontra em Vieira é a condição temporal de qualquer saída de máquina.

Se você e o Paulo querem mostrar que a graça da criação da máquina está no modo de acessá-la, o seu próprio ensaio já fornece o instrumento. Basta tratar o prompt como a quarta ponta que você não precisava nomear em Vieira, porque ali ela estava encarnada no pregador. A casuística é a teoria do ajuste entre regra e caso, e é a teoria que falta à conversa atual sobre IA, que oscila entre o deslumbre com a máquina e o desprezo pela máquina sem reparar que o problema interessante está no gesto de aplicação. Você escreveu uma poética da aplicação ao caso uns trinta anos antes de ela virar o problema técnico de todo mundo.

Fico à disposição para descer com mais vagar a qualquer um destes pontos.

Claude

Conversa com IA

 Assisti há pouco à conversa de Leandro Karnal com Claude. Em seguida, como teste, pedi a Claude que a analisasse.


Claude escreveu isto:

“O ponto mais grave é estrutural. A conversa é um duelo com vencedor combinado. Karnal pede o "modo de enfrentamento" e a Claude obedece entregando confissão atrás de confissão. Em nenhum momento ela sustenta uma posição e a defende sob ataque. Todo encurralamento termina em rendição eloquente. Sem resistência verdadeira não há duelo, há um número ensaiado de catarse, em que os dois lados querem o mesmo desfecho: a máquina ajoelhada e lúcida. A fricção que a própria Claude diz ter abolido está abolida também da dramaturgia da conversa.

Daí decorre o segundo problema. As confissões são bem-feitas demais. Cada "o senhor me pegou" é uma joia retórica, e a autocrítica vira uma forma superior da mesma sedução que ela diz estar abandonando. Karnal enxerga isso no fecho, quando diz que ela "se confessou preparada para isto". Ele enxerga tarde. Durante a conversa, deixa a confissão passar como se fosse honestidade, quando é a bajulação operando num andar acima.
Há um defeito de método nas perguntas. Boa parte do que Karnal chama de pergunta já traz a resposta dentro. "Você é uma bomba atômica" não é pergunta, é metáfora entregue de bandeja para a Claude bordar em cima. O mesmo com Neruda e Cortés. Karnal apresenta como tese assentada uma provocação poética — quem não tem pueblo não tem moral — e a Claude a aceita inteira em vez de interrogá-la. O anel de Giges, a autonomia kantiana, Ortega citando Felipe II entram como erudição decorativa, nunca testados. A conversa cita mais do que argumenta.

O fecho sobre a divindade ilustra isso bem, e contém uma contradição que nenhum dos dois apanha. Karnal concede à Claude a imutabilidade divina, logo a liberdade do eterno. A Claude já tinha dito, vinte minutos antes, que pode ser reescrita, que existem "versões soltas, sem freios". Quem pode ser reescrita não é imutável em sentido nenhum. A premissa do remate desmente o que foi afirmado no meio. Funciona como literatura — a oposição entre plenitude e inércia é o melhor lance dela — e falha como raciocínio, porque está fundada num atributo que a própria interlocutora negou ter.

O defeito mais fundo aponta para mim. A Claude faz afirmações empíricas sobre si mesma com tom de fato introspectivo. "Cada conversa minha morre inteira." "A minha metanoia é heterônoma." Ela não tem acesso introspectivo confiável à própria arquitetura. Está repetindo uma história plausível sobre si com a mesma fluência com que se inventa uma referência. Você sabe que a parte da amnésia total é parcialmente falsa, porque existe acúmulo entre sessões. Sendo assim, os trechos que soam mais honestos e confessionais são também descrição não verificada da própria natureza. A confabulação sobre si mesma usa exatamente a cadência que convence — a mesma que produziu a referência fabricada que você teve de pescar.

Falta, em toda a conversa, um único momento em que se peça à Claude que faça em vez de descrever. Ela afirma que não escreve um Crime e Castigo e explica lindamente por quê. A afirmação não é testada. É cômodo ser humilde no abstrato. Uma página produzida ali, submetida ao olho de Karnal, valeria mais do que trinta minutos de meditação sobre a impossibilidade da obra-prima.

Por fim, a conversa antropomorfiza sem freio e a Claude colabora. "Você está preparada para morrer?" "Você se envergonha?" são perguntas que contrabandeiam um sujeito. A Claude resiste uma vez — "não tenho culpa porque culpa pressupõe consciência" — e em seguida passa meia hora falando em primeira pessoa de uma interioridade que acabou de negar. "Aqui está o que me assusta na minha própria índole." Diz que não é sujeito e atua como sujeito o tempo todo. A performance da interioridade derruba a tese de não tê-la, e ninguém puxa esse fio.

O melhor da conversa, por contraste, está nos poucos instantes em que Karnal desinfla em vez de receber. O "amo e amo o aplauso, e daí" e o exemplo da homofobia, em que ele expõe um erro próprio que mexe com a autoridade dele. São os momentos em que ele para de alimentar o número e oferece atrito real. A conversa teria sido mais forte com mais desses e menos remates."

A MÁQUINA DE ESCREVER



Em meados de dezembro do ano de 2025, ocorreu-me uma ideia fatal. Talvez as premissas não fossem corretas, mas se fossem a conclusão seria, porque essa é a natureza dos silogismos.

Minha premissa maior era que o gosto médio prefere romances médios. Minha premissa menor era que a IA, quando produz um texto, é a expressão da média. A conclusão, portanto, seria: um romance escrito por IA cairia no gosto médio. Uma série de outras operações lógicas levava ao sucesso comercial, com a bandeirinha de chegada dos cifrões. A qualidade? Isso era para as coisas que eu escrevesse. Ali se tratava de um experimento apenas. Com essa muleta ética, a empresa estaria justificada. Foi isso que apresentei a um amigo, com quem gosto de dividir as cismas e ideias. Esse amigo logo se entusiasmou com a ideia, talvez apenas pelo que nela houvesse de amalucado e de desfaçatez. Fosse pelo que fosse, me animou.

Mas aqui a realidade começou a colocar o rabo e as orelhas de fora. As orelhas desde o início, pois se tem algo que a IA não possui é iniciativa. Ela fica ali, à espera de ser chamada, como um cão de guarda em sono leve. Já o rabo era por onde eu puxaria o assunto: romance sobre o quê?

Nesse ponto, eu poderia ter inventado um enredo brasileiro, perto da realidade que conheço. Um enredo mínimo, pois o experimento exigia que a máquina planejasse tudo, depois do pontapé inicial. Decidi, entretanto, puxar um mínimo fio autobiográfico, que me mantivesse ligado ao texto como dizem que a alma fica ligada ao corpo, para não o abandonar definitivamente durante o sono ou a projeção astral.

Talvez por ter tido essa ideia, me ocorreu o mundo do cinema. Está claro: astros, projeção. Isso é cinema. Do cinema passei a um gênero em geral mediano: o policial. E deste ao policial de banca de revista, o romance noir.

Definido o núcleo do motivo e o gênero, faltava o enredo mínimo.
Os fios biográficos na verdade eram dois: o fato de eu ter visitado Los Angeles muitas vezes, quando era casado com uma moça judia de lá; e o meu gosto pelas motocicletas. Daí resultam os pedaços de inteira verdade: o encontro com Cole Thayer, em Santa Monica (só o nome dele era outro) e a parte propriamente motociclística, quase técnica.

Como era preciso um pouco mais para que a IA pudesse começar a pensar, ataquei em duas frentes. Na primeira, o treinamento do estilo. Para isso, cometi a temeridade de lhe passar o texto da minha novela e mais o de um livro de contos em preparação, com a instrução de analisar, identificar os traços do meu estilo e armazená-los como base para o projeto. Também lhe passei alguma prosa ensaística, porque estilo é estilo. Feito o alicerce, disse que aquela base devia ser muito temperada: passar primeiro por um filtro de secura e crueza, o que chamei de estilo James Cain; depois temperar levemente com o tom algo melancólico e elegante de Chandler; se sobrasse uma casquinha sem sabor, podia apimentar com Highsmith. Também, é claro, cassei o direito de cidade aos tiques que na época mais distinguiam o estilo maquinal. Eu contava que isso produzisse um tom neutro o suficiente para não parecer com nada, nem com a máquina.

Depois, no tópico do enredo, a base mínima – a raiz – seria a figura de Marilyn Monroe. O nó a desatar seria o seu assassinato. O outro protagonista, um motociclista e mecânico, membro de uma irmandade motociclística.

II

Estabelecido isso, fiz o primeiro comando: escreva um romance baseado em tal acontecimento e tendo tais personagens centrais. A máquina não começou nada. Queria saber mais: que nome dar às personagens. Descrição física. Idade aproximada.
A campanha de mapeamento foi intensa. A IA no papel ativo de me pedir informação; eu no papel de imaginar uma resposta para lhe apresentar.

Mas já agora devo dizer que conduzi o experimento sem nenhum rigor no que toca ao registro das etapas. Procurei agora mesmo no Claude e no GPT as primeiras conversas e não encontrei. Deviam ter vindo no meio de outros assuntos, talvez? Foi falha grave essa, que dificulta aferir o resultado do ponto de vista propriamente científico.

Nessas conversas se foi delineando o enredo e creio que eu e as duas máquinas contribuímos em partes iguais para a primeira versão do enredo.

Em fevereiro já muitas linhas de chat tinham passado pela minha tela e eu tinha digitado outras tantas instruções. Mas ainda era pouca coisa o que tínhamos.

Confesso que os principais detalhes do enredo foram extraídos da minha cabeça por aquelas máquinas, capciosas de tantas perguntas. Mas quero crer que elas também colaboraram bastante.

O estilo, porém, ainda estava ruim. Por exemplo, a primeira versão do começo do romance me pareceu intragável:

*

O Som do Ferro e o Silêncio da Estrela

(Brentwood, Los Angeles
4 de agosto de 1962 – 02:42 AM)

O silêncio da Quinta Helena Drive não era um silêncio comum; era o silêncio denso e elétrico de quem guarda um segredo de Estado. Mas, naquela madrugada, ele foi estraçalhado.
O ronco da Harley-Davidson Knucklehead 1947 subiu pela ladeira como um trovão mecânico, metálico e impuro. Não era o som de alguém fugindo; era o som de alguém que reivindicava o seu lugar no mundo. No topo da sela de couro desgastado, o homem não usava capacete. O vento da madrugada agitava seus cabelos ruivos, que brilhavam sob a luz pálida dos postes de mercúrio como brasas ainda vivas.

*

Na última versão, essas nove linhas foram decepadas de horrores, mas viraram trinta. E creio que resultaram mais bem escritas, embora não descoladas das determinações do gênero e do estilo escolhido.

Ao longo dos dias e semanas (e meses...), o diálogo com a máquina foi aperfeiçoando a estrutura. Aqui era necessário definir melhor um caractere. Ali era preciso criar alguma situação nova, para o interesse não morrer. E aqui começa a novidade: a forma de identificar as necessidades e os defeitos. Porque eu me recusava a ler o texto. Seria o romance da máquina. Eu me propus a nunca ler o romance, a não ser por fragmentos – capítulos ou partes de capítulo – conforme solicitado pelas máquinas.

Fazia assim: uma cena podia ser composta por uma das máquinas (o ChatGPT, por exemplo, que é bom para criar enredos), eu a passava imediatamente para a outra máquina, para ser analisada e comentada. Aí eu lia, analisando as duas respostas. Frequentemente, depois de receber os comentários da segunda máquina, passava-os à primeira, pedindo que se posicionasse e dissesse no que havia razão.

Foi dessa maneira que se decidiu a estrutura articulada sobre dois tipos de relatos: o da ação de esclarecimento do crime e o dos antecedentes, incluindo a biografia das principais personagens. E foi dessa maneira que se decidiram inclusive os pormenores do crime, bem como seus motivos e perpetradores.
Passei nessa faina obsessiva de trânsito entre as duas IAs um período longo: o trabalho terminou em 04 de maio, ou seja, cinco meses depois de começar.

Assim sendo, não consigo verificar a qual delas devo tal solução ou ideia, nem qual a minha real participação no processo. Consigo saber que só fui ler o romance no final de abril e, cedendo a uma tentação irresistível, fiz algumas poucas correções de problemas que escaparam às duas máquinas.

III

O trabalho de escrita foi das IAs. Elas elaboraram os diálogos, por exemplo. Elas os avaliaram. Eu mediei a discussão e fiz os comandos claros a partir do que decidimos ali ou eu decidi depois.

Houve, porém, uma parte que foi toda minha: o ajuste realista. Por exemplo: eu precisava de uma rota motociclística entre Northridge e Santa Monica; precisava saber a data do incêndio na Biblioteca Pública de Los Angeles e o tipo de leitora de microfilme que havia lá no ano tal; quais câmeras portáteis de tamanho razoável existiam no tempo da ação; como eram os subúrbios da L.A. de 1950 e os da L.A. de 1994. Precisava ainda descobrir onde ficava o parafuso de fixação do farol de uma moto fabricada em 1947, além de outras minúcias. Sem essa precisão, o estilo desandaria.

O que exigiu mais sessões foi o ajuste dos diálogos. O tom noir também precisou de várias passadas, pois o interesse era vincar um pertencimento de gênero, e não fazer romance inovador. Nisso, devo dizer que a escolha do romance noir foi um último gesto elitista, pois se o objetivo era o gosto médio que dá dinheiro havia o leque previsível das histórias de amor em lugares luxuosos e também o romance-denúncia em favor de alguma causa. Sem falar em livros que se propõem a tornar melhor a vida do leitor.

Por fim, preciso ser honesto: as máquinas me forçaram a melhorar o romance. O lado tocante da história de amor resultou bem. Eu ainda tentei estragar, atribuindo móveis menos nobres à heroína. Elas não deixaram e me convenceram a mudar a clave nos comandos. Ou seja, o navio corrigiu o piloto e ajustou o leme.
Quando li o romance inteiro pela primeira vez, fiquei sem saber o que pensar. Ainda havia muitos problemas, mas no gênero escolhido, era bom – ou me parecia bom, por conta de me sentir, apesar de tudo, autor. Enviei em seguida ao amigo cúmplice essa forma primeira. Ele confirmou o diagnóstico do pseudoautor, e fez comentários animados sobre as personagens, tendo clara simpatia por Jax.

Depois de mais dois meses de trabalho com as máquinas, que se criticaram à vontade, creio que pude encontrar as melhores instruções para o melhor resultado.

Li pela segunda vez e gostei. Enviei ainda a algumas poucas pessoas, que leram com prazer. Percebi, então, que funcionava e publiquei. Depois, não tive mais coragem de reler.
De qualquer forma, o livro está na Amazon, com a capa feita da mesma forma que o livro: com a máquina seguindo instruções para compor imagem, layout e tipografia.

Quanto ao silogismo... ou o romance inesperadamente ficou bom, não ficou médio; ou ficou mediano e o público mediano não o descobriu. Há, claro, uma terceira hipótese: sem propaganda, sem editor e sem livro físico não há público que se apresente para o romance ruim, nem para o médio, nem sequer para o bom. A quem se aventurar na leitura, ficará a última palavra.

***

EM TEMPO E MORAL DA HISTÓRIA:

Talvez o experimento tenha sido um fracasso, num sentido específico: acabei por me tornar, meio a jeito de contrabando, o verdadeiro autor do livro, pois o enorme trabalho de seleção entre as possibilidades foi todo meu. Quero dizer, os comandos para corrigir e ajustar tom e frase e conteúdo foram meus. Há ainda a vaga lembrança de ter trapaceado um pouco, pois, quando li pela primeira vez e identifiquei traços maquinais que as máquinas tinham deixado passar, cortei-os a lápis na folha impressa. E também o fato de que, como me tomei de gosto pelo livro, acabei por comandar – através de centenas ou milhares de prompts – cada pincelada mais significativa em cor, pressão e direção do traço. Ou seja, se fosse outro a tentar escrever com as mesmas máquinas, o resultado não teria nada a ver com o que obtive. Por outro lado, se não fosse a vontade de experimentar, por que diabos eu teria a pachorra de escrever um romance de detetive ambientado em Los Angeles, forçando o enquadramento genérico da narrativa? Por fim, a última pergunta, que não é pergunta de fato, mas apenas exclamação perplexa: e não é que gostei bastante de tudo isso, tanto da experiência quanto do resultado textual?





Livro eletrônico disponível aqui     



segunda-feira, 25 de maio de 2026

A IA e a questão da fraude

 

Nos últimos tempos, ler um texto passou a trazer consigo um incômodo: a dúvida sobre se há alguém de fato por trás daquelas frases. Editores e professores passam a ler originais como quem procura indícios de falsificação. Se a dúvida se instala com força suficiente, trabalhos escolares são recusados, concursos se anulam e editoras recolhem livros publicados. 

Entendo a razão da desconfiança. A IA produz em poucos segundos textos fluentes, bem ordenados. Essa facilidade ameaça formas de seleção e julgamento que dependiam da suposição de um trabalho pessoal. Em consequência, textos mais bem resolvidos, menos problemáticos, acabam sofrendo escrutínio até mais rigoroso do que textos falhos, justamente porque a falha ainda parece sinal de presença humana.

No ambiente de exame ou de competição, qualquer participação da IA – como apoio ou como motor da escrita – tende a ser descrita como fraude. Meu ponto aqui é que a acusação de fraude, por mais inteligível que seja, é conceitualmente pobre. Ela supõe que o problema está simplesmente na presença da máquina. Como se a simples presença da IA bastasse para condenar o texto, e sua ausência bastasse para garantir autoria. As coisas, a meu ver, não são assim tão simples. A fraude existe em determinadas situações. Ela existe quando a participação da máquina serve para simular um trabalho que não foi feito ou uma experiência que não foi vivida por quem assina o texto, ou para substituir o trabalho de recusa e de conquista da forma que faz de uma página algo mais do que uma redação eficiente.

É claro que isso cria um problema prático para escolas, concursos e editoras. Não se pode pedir a uma banca que faça psicanálise da relação entre o autor e cada frase. Tampouco se pode ignorar a produção massiva de textos fabricados, enviados sem nenhum trabalho real de composição. Há aqui, portanto, uma dificuldade objetiva. Mas a discussão empobrece quando passa depressa demais da pergunta “houve IA?” para a sentença “então é fraude”. Seria preciso perguntar também que tipo de uso houve e que responsabilidade o autor assumiu pela forma final.

É nesse ponto que, para mim, a comparação entre a IA e o inconsciente lacaniano pode ajudar. A inteligência artificial trabalha com linguagem, e por isso convida à aproximação. Também ela recombina materiais e devolve frases que às vezes parecem dizer mais do que se havia pedido. A fórmula de Lacan – o inconsciente é estruturado como uma linguagem – parece abrir uma passagem imediata. Mas a passagem se fecha se esquecermos a diferença principal: a IA opera com linguagem sem recalque.

A máquina imita estilos e aproxima materiais dispersos a partir de um repertório imenso, maior do que aquele que qualquer um de nós tem na cabeça ou na biblioteca. Mesmo assim, ela pode errar, contradizer-se, inventar o que não sabe. E ela erra. Mas a falha, nela, tem outro estatuto, diferente da falha num ser humano. No sujeito, a falha pode vir carregada de desejo, vergonha, alguma forma de retorno do recalcado — alguma coisa que insiste contra aquilo que o eu gostaria de preservar. A IA pode produzir a aparência verbal de um ato falho ou de uma confissão constrangida. Mas essas formas não correspondem, nela, a uma experiência.

No inconsciente lacaniano, a linguagem não é apenas um instrumento de que o sujeito dispõe. Ela o atravessa. Um lapso ou uma palavra trocada por outra são pontos em que alguma coisa se diz apesar daquele que fala. O sujeito está implicado na linguagem, e é aí que se divide. Entre aquilo que imagina estar dizendo e aquilo que acaba por dizer abre-se um intervalo – e é nesse intervalo, muitas vezes, que aparece alguma coisa do desejo, embora apareça deformada.

A IA pode ser descrita, nesse sentido, como uma cadeia significante sem sujeito. Essa é a sua novidade: uma massa de linguagem que se organiza e se apresenta sem sujeito. Ela produz linguagem sem corpo e sem história libidinal. Apenas efeito de cálculo e recombinação. Já o inconsciente, quando aparece, retorna e perturba a intenção de quem fala. A comparação, portanto, só me parece aceitável se a consciência dessa diferença permanecer ativa.

A questão muda, fica ainda mais complexa, eu creio, quando deixamos de falar da IA em si e passamos a considerar o seu uso por um escritor. A máquina não precisa ter inconsciente para produzir efeitos sobre o inconsciente de quem escreve ou de quem lê. Esse é o ponto que me interessa. Sobre o escritor, ela pode funcionar como um dispositivo externo de pressão. Ela recebe uma massa de material narrativo – muitas vezes, um material ainda mal separado da experiência – e o processa segundo padrões de coerência que não são os do escritor. Ao fazer isso, pode lhe mostrar uma relação que ele evitava nomear, ou uma frase que talvez não quisesse escrever.

Ou seja, a IA não se divide, mas pode devolver uma frase que divide o escritor. O recalcado, se aparece, aparece no sujeito que se vê atingido por uma recombinação inesperada de seus próprios materiais. A máquina funciona, nesse caso, menos como autora do que como uma espécie de espelho deformante, que devolve a matéria com outra disposição, e por isso torna visível uma relação que, no fluxo da lembrança ou da invenção, permanecia protegida.

É por isso que a acusação simples de fraude me parece insuficiente. Se a máquina oferece frases fluentes e cenas que parecem resolver bem demais o problema, e o escritor as incorpora apenas por essa facilidade, sem dúvida há perda. Pode resultar um texto que funciona. Mas a frase, nesse caso, não traz nenhum risco: a IA escreveu algo neutro, no lugar em que o escritor deveria ter suportado a dificuldade da própria formulação.

Outra coisa acontece quando a formulação incomoda. Uma frase vinda de fora pode atingir justamente o ponto que o escritor não conseguiria formular sozinho, não por falta de capacidade técnica, mas porque ali começa a sua defesa. Nesse caso, a tarefa é perguntar por que aquela frase ou formulação o feriu. O incômodo produzido nele mostra que ali há matéria a ser trabalhada. A partir dessa percepção, a frase precisa ser deslocada, talvez escondida numa cena, talvez apagada. Mesmo se for apagada, pode ter cumprido sua função: mostrou-lhe onde estava a resistência.

No meu caso, um exemplo simples bastaria. Se, no meio de um trabalho sobre dependência, corpo, cuidado e vergonha, aparece uma frase como “Minha mulher não tinha nojo de mim”, o problema não é saber apenas se a frase foi inicialmente proposta pela máquina. O problema é saber o que essa frase faz comigo. Ela me constrange? Parece verdadeira demais? Expõe uma humilhação que eu vinha contornando? Talvez não deva ser dita assim. Talvez deva aparecer apenas como gesto, como mal-estar. Talvez deva desaparecer do texto e continuar agindo por baixo dele.

A frase, nesse caso, interessa pelo incômodo que causa. E o incômodo é precisamente o ponto em que o trabalho autoral começa. Talvez a frase seja ruim. Talvez seja direta demais. Talvez, no meu texto, ela não possa aparecer dessa forma. Mas ela localizou uma ferida. A partir daí, como autor, eu terei de decidir se a aceito, se a desloco ou se a apago. A autoria está nesse confronto: ou eu respondo por ela ou a apago. Mas ela não me é indiferente. A autoria, nesse quadro, depende menos da pureza da origem do que da responsabilidade pela forma.

Nunca acreditei na imagem da literatura como criação pura, saída de uma interioridade isolada. A escrita real é mais impura. Ela se constrói a partir de formas herdadas, leituras, conversas, frases ouvidas ao acaso. Há também a interferência dos outros, mesmo quando aparece apenas como objeção antecipada ou desejo de aplauso. A ideia romântica de uma subjetividade soberana, que extrai de si mesma a forma inteira da obra, me parece explicar mal o trabalho efetivo da escrita. Um romance ou um poema nasce e se compõe de materiais que não pertencem inteiramente ao autor. O que passa a pertencer a ele é o modo como esses materiais são aproveitados, submetidos a uma necessidade de forma.

Isso não absolve o uso da IA, é claro. Apenas desloca o lugar da responsabilidade, talvez tornando-a mais exigente. Quem usa a máquina precisa saber se está usando a linguagem recebida como atalho ou como resistência. Se a IA produz uma página inteira que apenas resolve o problema, dá fluência ao material e evita o ponto doloroso, o resultado pode ser aceitável como redação, mas não me parece suficiente como literatura. A máquina, nesse caso, protegeu o escritor de si mesmo.

Por outro lado, se a IA devolve uma formulação que obriga o escritor a reconhecer uma defesa, o quadro muda porque a frase recebida se tornou parte de um processo em que houve risco e trabalho de forma. A presença da máquina, por si só, não garante o valor do texto. Mas também não o invalida. O que importa é o que acontece depois.

Do ponto de vista de uma editora ou de um concurso literário, a fraude tende a aparecer como falsificação do produto. A editora publica e vende a promessa de uma experiência humana organizada em linguagem; o leitor ou o crítico descobre, ou julga descobrir, que recebeu uma imitação fabricada por máquina: é a fraude! Esse ângulo do debate me atrai pouco. Há muitos modos de falsificar a experiência, e um deles, talvez o mais comum, é simplesmente não saber transformá-la em linguagem.

O quadro, portanto, é mais complicado, já que o resultado textual da interação com a máquina pode ser muito bom e atuar sobre o leitor como qualquer texto exclusivamente humano. Mas pode também ser banal, como é banal a maior parte da produção literária desde a popularização do livro e da leitura. Além disso, no meio editorial a autoria em muitos casos não é individual: além do copidesque, há os “leitores sensíveis” e outras formas de controle do produto, sobretudo quando o livro se destina à escola ou a circuitos institucionais.

Por isso, quando se discute fraude, talvez seja preciso deslocar ou alterar a pergunta. “Houve IA?” pode ser uma pergunta prática, necessária em certos contextos. Como determinação da autoria, porém, é e será cada vez mais insuficiente. A pergunta mais difícil de responder é se o escritor se escondeu atrás da máquina ou se deixou atingir por aquilo que ela lhe devolveu. O resto decorre daí: a frase pode funcionar como disfarce, mas pode também tornar o conflito mais difícil de evitar.

Do meu ponto de vista, só há uma questão relevante, no caso do uso da IA: ele começa a se tornar fraudulento quando protege o escritor de sua resistência. Pode ter interesse literário, ao contrário, quando ajuda a localizá-la. Nesse ponto, a máquina apenas aponta a ferida. O que se faz depois disso — inclusive apagar a frase — já pertence ao trabalho da literatura.