domingo, 1 de março de 2026

Como se domestica um poeta difícil


  


(algumas considerações, ao correr da pena, no centenário de morte de Camilo Pessanha)

 

Num trabalho de final dos anos de 1990, refleti sobre a fortuna crítica de Camilo Pessanha observando que ela tende a organizar-se por dois eixos complementares: a atualização de “dados biográficos” e de uma “psicologia do autor”; e a sua inserção no quadro dos “movimentos literários” e do “contexto histórico-cultural”. Nesse duplo enquadramento, misturam-se fatos e fantasias — filho natural, exílio, Oriente, ópio, abulia etc. — e, ao mesmo tempo, constrói-se uma narrativa geral (“crise do fim do século”, ciência e tecnologia, “sensibilidade moderna”) que permite explicar procedimentos e etiquetar o poeta como simbolista ou decadente.

 

Argumentei então que, funcionando como solventes, esses lugares-comuns diluem a dificuldade específica do texto e operam como uma forma de exorcizar a experiência dos limites — do quadro teórico, do método ou da própria capacidade analítica. O poema passa a ser tratado como enigma a decifrar ou território a pacificar, isto é, como atualização previsível de sentidos já dados pelo contexto e/ou pela biografia, e não como forma irredutível que articula, de modo complexo e por vezes contraditório, vários sentidos e efeitos. No caso de Pessanha, fatores como a biografia lacunar, o isolamento, a publicação tardia e a história editorial acidentada da Clepsidra, somados à dificuldade efetiva dos poemas, teriam contribuído para o predomínio prolongado desse tipo de abordagem em sua fortuna crítica.

 

Nestes exercícios de leitura dedicados a celebrar o centenário de morte de Camilo Pessanha, veremos algumas dessas formas de evitar as dificuldades de leitura.

 

1/6 . - A operação exotizante

 

A leitura de Pessanha como “poeta do Oriente” é cômoda: dá ao leitor um cenário, um ponto de apoio imaginativo. Macau, o achinesamento, o ópio: esses elementos constroem uma figura exótica e permitem parar por aí. Esses elementos existem, sem dúvida. O problema é que, muitas vezes, quando se olha para o que fazem dentro do poema, vemos o contrário do que a leitura exotizante supõe.

 

“Viola chinesa”, por exemplo. O poema abre evocando o som do instrumento — “Ao longo da viola morosa / Vai adormecendo a parlenda”. Mas na sequência não vemos fascínio, nem imersão no exótico. O sujeito não atende, o coração não se prende. A viola é descrita como “lengalenga fastidiosa”, “nasal, minuciosa”. Não se pode falar de deslumbramento oriental, pois há uma recusa ativa de ser captado pelo som. O Oriente entra no poema, portanto, como aquilo a que o sujeito se fecha.

 

E então vem a volta, na terceira estrofe: “Mas que cicatriz melindrosa / Há nele que essa viola ofenda / E faz que as asitas distenda / Numa agitação dolorosa?” A viola, que o sujeito recusava ouvir, abre mesmo assim uma ferida. Ou seja, o instrumento ativa uma cicatriz, isto é, uma ferida antiga. O dado exótico, oriental, é o estímulo involuntário de algo interior que o sujeito não controla e tampouco nomeia.

 

A forma do poema reforça isto. O rondel repete os seus versos com pequenas alterações, mimetizando o retorno da ferida antiga ao estímulo do novo. Terminado o movimento, o primeiro verso — “Ao longo da viola morosa” -  regressa no fim, isolado, mas agora com duas modificações: uma vírgula depois de “viola”, e reticências depois de “morosa”: “Ao longo da viola, morosa…” O som continua, indiferente, mas o sujeito ficou em agitação. O poema termina em reticências, com uma linha isolada, sem resolução. O Oriente, em vez de ser assimilado como cenário, permanece apenas como fator irritante.

 

O leitor exotizante lê o título “viola chinesa” e supõe que o instrumento está lá para colorir o verso, para dar textura oriental ao poema. Mas o que o poema faz é usar o instrumento para expor uma interioridade que resiste e é afetada contra a sua vontade. A viola é apenas o dispositivo que força o sujeito a revelar a “cicatriz melindrosa”. Essa, sim, é o centro do poema.

 

A leitura exotizante, dessa maneira, transforma essa operação complicada em mera paisagem, em pano de fundo. Ao fazê-lo, perde-se o ponto em que o poema parece mais moderno: a recusa de qualquer relação estável com o exterior, a experiência de ser afetado pelo que se recusa, a ferida que permanece sem explicação. Nada disso precisa de Macau para acontecer. A China, embora evoque o diverso, o diferente, praticamente se reduz a local onde o poema foi escrito. O que o poema faz é algo distante da visada exótica convencional. Tão distante que os versos produziriam efeito similar se o título que remete ao Oriente fosse eliminado.

 

2/6 - O biografismo

A leitura biografista de Pessanha foi, durante muito tempo, a mais persistente. É que ela tem uma narrativa fácil, tentadora: homem exilado, melancólico, desiludido do amor, consumido pelo ópio, que compõe de memória, sem escrever, como quem regista estados de degradação.

 

Nesse regime de leitura, o poema torna-se quase um documento clínico. A fragmentação e a alucinação se explicariam pelo ópio, assim como a tristeza e a melancolia pelo exílio e pelo amor contrariado. Já o caráter desistente do sujeito de alguns poemas seria resultado da conjugação de tudo isso, e estaria conforme ao apelido de morto-vivo com que os chineses o teriam brindado.

 

A vida, desse ponto de vista, entra como chave mestra, que se julga capaz de abrir todas as portas. Esse leitor-biógrafo, com tal chave na mão, já pode sentir-se dispensado de abrir qualquer porta. Nos piores casos, pode nem conseguir encontrar a porta.

 

Para pensar essa visada, tome-se o poema que começa por “Desce enfim sobre o meu coração / O olvido. Irrevocável. / Absoluto.” A leitura biografista lê aqui o cansaço de um homem esgotado, e se contenta com isso. O mais interessante, entretanto, é o que o poema faz. O ritmo é entrecortado; o primeiro verso exige o complemento do segundo (enjambement), que é composto por três segmentos separados pelo sinal de paragem total, o ponto final, e não por vírgulas: “O olvido”, que é o sujeito da oração anterior; “Irrevocável” e “Absoluto”, que são frases completas, de uma só palavra. Assim, o olvido desce, e a descida é escalonada em graus: primeiro o nome do que desce, depois o adjetivo que o qualifica como sem retorno, depois o adjetivo que indica totalidade e elimina toda modalização. A construção representa, no ritmo do verso, o que descreve: o olvido que se instala por camadas, progressivamente, até não restar nada.

 

Na sequência lemos: “Podes, corpo, ir dormir no teu caixão.” O vocativo “corpo” é dirigido ao próprio corpo, numa operação de dissociação. Essa voz que dá licença ao corpo para acabar sugere uma consciência capaz de persistir depois de ele cessar. É o paradoxo do cadáver consciente: o sujeito anuncia o olvido total e, ao anunciá-lo, demonstra que não o atingiu. A consciência que se declara extinta continua a operar. Essa contradição é o nervo do poema.

 

O paradoxo aprofunda-se nas três estrofes seguintes, que são — ao contrário do que se anuncia nos primeiros versos — rememoração. O olvido irrevocável e absoluto abre passagem, imediatamente, a uma série de imagens do passado: o barro, a flor, o suor de inquietação. O poema que declara o fim da memória é inteiramente feito de memória. E o último verso — “Corria-te um suor, de inquietação…” — traz de volta a agitação no momento em que o esquecimento se supunha completo. Ora, a inquietação é estado de espírito e o suor é o sinal corporal dela. O poema termina, portanto, no corpo que se queria silenciar.

 

Observemos ainda estes versos: “O barro que em quimera modelaste / Quebrou-se-te nas mãos. Vias uma flor, / Pões-lhe o dedo, ei-la murcha sobre a haste…” O sujeito da ação aqui é indeterminado. Pode ser o poeta a falar a si próprio, ao “corpo” (que não é mais apenas “corpo”, mas a totalidade do eu), ou pode ser uma voz exterior. O importante é que as imagens não são ilustrativas de um estado e sim a forma de construção desse estado na mente do leitor. Além disso, o barro se quebra nas mãos de quem modelou, a flor murcha ao seu toque. Insinua-se aqui uma culpa no gesto de tentar se apropriar do mundo pela imaginação ou pelo contato. Ou seja, o quadro é tão mais complexo quanto mais tentamos dar conta dele pela via analítica.

 

Na visada biografista, a aproximação se faz buscando uma “expressão do pessimismo de Pessanha” ou um registro de sua inapetência e desistência. E a forma de apresentação é normalmente o contrário da que ensaiamos aqui: enuncia-se uma característica ou problema e depois se transcreve o poema, como exemplo ou como prova do que se queria demonstrar. Uma tal aproximação, porém, deixa na sombra o mais importante: a forma de apresentação do poema, sua sintaxe, sua escolha vocabular, seu andamento rítmico, bem como a construção inteligente de uma experiência de dissolução.

 

Atribuir procedimentos tão sofisticados ao esgotamento de um sujeito doente e/ou viciado no ópio é desler o poema. O poema existe para nós e nos impressiona porque houve decisão formal, houve trabalho de construção, escolha de uma organização do verso pouco usual e ausência de temor de levar às últimas consequências o paradoxo do cadáver consciente. A redução biografista dispensa a constatação e a interpretação de tudo isso.

 

3/6 - A visada escolar (1)

 

Os manuais ou os livros de divulgação têm uma operação favorita: identificar o simbolismo com a sugestão, e a sugestão com a imprecisão. Nesse regime, Pessanha torna-se o caso perfeito: versos “musicais”, “vagos”, “nebulosos”. A apresentação fixa-se, assim, nos efeitos e evita pensar as causas, isto é, o que causou no leitor um determinado efeito. Mas quando o olhar sobre as causas desaparece, o que resta é a descrição e identificação de um clima ou de um “estado de espírito”, e não uma análise ou um confronto direto com o texto do poema.

Tome-se o soneto “Imagens que passais pela retina”. As duas quadras são uma apóstrofe: o poeta dirige-se às imagens que passam, pergunta por que não ficam, imagina para onde vão. Os dois versos finais do segundo quarteto acrescentam uma pergunta que desloca o foco da fixação para o abandono: “por que ides sem mim, não me levais?”. O leitor então espera que os tercetos respondam, que a volta do soneto traga alguma forma de assentamento.

O primeiro terceto, entretanto, não responde, apenas registra e dá a dimensão da perda. “Sem vós o que são os meus olhos abertos? / – O espelho inútil, meus olhos pagãos! / Aridez de sucessivos desertos…” O vazio se amplifica: sucessivos desertos, diz ele. Já o segundo terceto, em vez de fechar, abre ainda a ideia de desfazimento do sujeito sem as imagens que passam: diz ali o poeta que fica “sequer” a sombra das mãos, a “flexão casual” dos seus dedos “incertos”. Mas diz ou pede? É possível também ler “fica” como imperativo, expressão de desejo – hipótese que não se sustenta na sequência, mas produz por momentos uma oscilação da leitura.

Seja como for, o fecho não apresenta resolução. Nem mesmo uma competente chave de ouro. O que resta (ou o que ele deseja que reste) é o mínimo do mínimo: nem sequer uma imagem, nem mesmo a sombra do sujeito, mas apenas das suas mãos. Não há nem mesmo movimento intencional, mas apenas “flexão casual” e impotente.

É possível ler, no terceto final, uma imagem da escrita. O que complica ainda mais o quadro e pede leitura cerrada. Reduzir isso tudo a “sugestão” ou descrever esses procedimentos complexos a traços de época é ignorar a concretude do poema, perder aquilo que ele tem de excepcional.

O soneto “Estátua” faz o mesmo movimento por outro caminho. As duas quadras acumulam esforço: “cansei-me”, “o meu olhar quebrei”, “fui teu lábio oscular”. Na volta, isto é, nos tercetos em que o soneto deveria girar e resolver, a temperatura desce abruptamente – no sentido figurado e próprio: “E o meu ósculo ardente, alucinado, / Esfriou sobre o mármore correto”. O que se esperava como resposta é congelamento. Por fim, os dois últimos versos, em vez de fecharem com síntese, fecham com duas comparações de quietude mortal: “Severo como um túmulo fechado, / Sereno como um pélago quieto.”

A leitura desses dois sonetos basta para mostrar que a poesia de Pessanha não se explica nem se esgota pelo uso de palavras como “sugestiva”, “nebulosa”, “obscura”, “sinestésica”, “mística” – “simbolista”, enfim. O que importa no caso dos textos aqui comentados – e a leitura escolar evita – é como essa poesia constrói e explora eficazmente instabilidades dentro de formas que têm obrigações conhecidas. Nesses exemplos, forma do soneto deixa de ser a máquina de equilíbrio definida pela tradição e passa a ser uma máquina de oscilações — e essas oscilações são tanto mais sentidas quanto mais o leitor reconhecer a forma que está sendo contrariada.

 

4/6 - A visada escolar (2): paráfrase

Voltemos ao soneto “Imagens que passais pela retina”. A paráfrase disponível é conhecida e não é falsa: o poeta dirige-se a imagens que não se fixam, lamenta a sua fugacidade, tenta retê-las e não consegue. Essa proposição é verdadeira, mas também é quase inútil, porque o que faz o poema ser o que é está no modo como a leitura o constrói, antes de poder formular a paráfrase.

A primeira proposição já é muito notável: “Imagens que passais pela retina / Dos meus olhos” — o enjambement suspende a frase. O leitor atravessa a “retina”, sem saber ainda de quem: o pertencimento vem depois, no verso seguinte. A construção produz a passagem; já nessa abertura o leitor experimenta o que o poeta diz que experimenta. A paráfrase apaga isso. Ao dizer “o poeta lamenta que as imagens não se fixem”, a paráfrase coloca o sujeito no início, estável, anterior à experiência. O poema começa pelo contrário: começa pelas imagens, e o sujeito aparece depois, a reboque, como complemento de posse.

O mesmo acontece na interrogação que atravessa o poema. “Por que não vos fixais?” é uma pergunta que o poema não responde. E o não-responder à pergunta central do poema é parte do seu funcionamento, da sua forma de produzir impressão no ânimo do leitor. A paráfrase tende a fechá-la, a transformá-la em afirmação disfarçada: “Por que não vos fixais?” significa “elas não se fixam”. Mas o que a pergunta produz é outra coisa: uma apóstrofe em suspensão, dirigida a algo que não pode responder porque já passou. Falar para o que já passou e não retornará é o gesto central do poema.

A aposta da leitura parafrástica é que o resumo permite não voltar ao poema. Mas quando se trata da arte da palavra, o regresso é sempre necessário. Ainda mais quando se trata de poesia, porque o que importa nela não estará disponível em prosa, pois reside na distribuição dos elementos, na melodia da frase, na sua quebra arbitrária, nos pontos em que a leitura é forçada a abrandar ou a avançar sem apoio.

Após a paráfrase, mesmo se feita trecho por trecho, como nos trabalhos escolares, o leitor continua a se perguntar, sentindo ainda os ecos das hesitações e emoções da leitura - por que não vos fixais?

 

5/6 - A aposta no cósmico ornamental

Há uma forma de ler que consiste em admirar as imagens centrais e tentar dar-lhes um significado geral, para fora do poema; ou, em sentido contrário, partir de algum sistema em que os elementos e metáforas cósmicas estão codificados e verificar a sua atualização na poesia de Pessanha.

É verdade que há elementos que regressam poema após poema e que convidam o leitor a apreciá-los como se aprecia um motivo num tecido, ou como remissões a um universo simbólico tradicional, valendo cada uma por si mesma, como partes de um todo que importa descrever. Esse tipo de leitura tem o seu encanto, mas ao mesmo tempo que busca o sistema, tende a organizar-se como coleção e catalogação, perdendo a forma concreta com que cada elemento aparece dentro de um verso ou de um poema.

A água, por exemplo. No segundo soneto de “Paisagens de Inverno”, temos: “mpidas do rio.”, “Águas claras do rio”, “Águas do rio, / Fugindo sob o meu olhar cansado”, “águas fugidias”. As águas começam como elemento da paisagem; passam a agente que leva o “vão cuidado” do sujeito; e terminam fundidas com os cabelos dela que flutuam (cabelos), ou com as mãos dela, que estão abaixo da corrente, refratadas. Evocada apenas por partes do corpo fundidas na água, uma mulher está no rio, ou tornou-se rio, ou o rio tornou-se essa mulher, ou o rio é o tempo em que se dissolve e ainda permanece a imagem dessa mulher. No soneto, é tudo isso ao mesmo tempo e de modo irresolúvel. Tudo isso e ainda aquilo que o leitor, enquanto lê, avança como hipótese explicativa. A água, portanto, pode ter começado como cenário, mas acabou como o material em que o sujeito perdido e a pessoa perdida são a mesma coisa. Se se lê a água como ornamento ou como símbolo, perde-se a transformação, a hesitação do sentido e as hipóteses concorrentes. Ou seja, perde-se o poema.

 

6/6 - A moralização

Embora pouco exercida, há uma leitura de Pessanha bem-intencionada que o transforma em poeta da sabedoria, da impermanência, do desapego, da aceitação do que passa. Nesse regime, a perda vira lição e a dissolução vira conselho, advertência. O leitor sai do poema com algo que se assemelha a serenidade budista. A leitura tem uma certa elegância: casa a biografia macaense com uma filosofia oriental e produz uma figura coerente, ainda que contrária à legenda do poeta dissoluto. O problema é que os poemas a contradizem sistematicamente.

Tome-se o soneto já comentado, que começa por “Desce enfim sobre o meu coração / O olvido. Irrevocável. Absoluto.” A leitura moralizante lê aqui aceitação: o sujeito que abdica da vontade e finalmente encontra paz no esquecimento. Mas “enfim” não parece apenas alívio. Pode ser lido como o fim de uma resistência. “Irrevocável” e “absoluto”, por sua vez, não são palavras de quem aceita pacificamente. A aceitação pressupõe uma vontade que concorda. Aqui se trata antes de constatação, pois se pressupõe uma vontade que foi vencida.

O poema que parece à primeira leitura o mais próximo de uma posição de desapego é o que começa assim: “Porque o melhor, enfim, / É não ouvir nem ver… / Passarem sobre mim / E nada me doer!” Mas a paz que o poema imagina está longe de ser uma busca de serenidade. O ideal que ali aparece é, paradoxalmente, o de um morto consciente de estar morto e, portanto, capaz de um enterramento que o isola do mundo, mas não o desliga dele. O fecho — “Muito quietinho. A rir-me / De não me doer nada” — tem qualquer coisa de perturbante, um certo tom de triunfo ou de vingança, na contemplação da violência exterior, a que se contrapõe a sua alegria na insensibilidade.

A moralização transforma esta negatividade em virtude e assim retira do poema a sua força, que é precisamente a de fixar o irreparável sem o resolver.

 

Coda

 

O que as leituras aqui discutidas têm em comum é serem operações de redução: substituem o funcionamento do poema por uma explicação exterior — biográfica, histórica, escolar, moral. Isto é, por uma etiqueta que facilita ou dispensa a leitura. O resultado é sempre o mesmo: um Pessanha domesticado, cuja dificuldade foi absorvida numa narrativa disponível e cuja negatividade foi convertida em sintoma de percalços biográficos, em lição, ou em clima e exemplo no museu dos estilos de época.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Tudo é falso - livro de Ricardo Lima


O nome do último livro de Ricardo Lima é "Tudo é falso". É uma daquelas frases aporéticas. Se é verdade que tudo é falso, o livro também é falso. Mas se o livro não é falso, então o título é falso, pois há pelo menos alguma coisa verdadeira: o livro. Em termos lógicos, a frase é insustentável, mas vale notar que, como título, ela tem um estatuto escorregadio, pois títulos não fazem asserções no sentido pleno. "A Moveable Feast" não afirma que Paris tem o estatuto da Páscoa ou do Pentecostes. Em “Breakfast at Tiffany's”, Holly Golightly nunca toma café da manhã na Tiffany's. “Lavoura Arcaica” não é um romance regionalista, nem rural, nem sequer a lavoura existe de fato nele. Ou seja, o livro não está submetido ao seu próprio título como uma proposição está submetida às suas condições de verdade. A aporia talvez nem se forme de fato. Mas a aporia, no caso do livro de Ricardo Lima, está lá, e temos de lidar com ela. Sucede que em termos poéticos, a aporia funciona – ia quase dizendo que tem valor de verdade, mas recuei a tempo. É que, ao dizer que tudo é falso, o poeta faz um duplo movimento: aponta para um momento em que não só as “fake News” são evidentemente fake (embora possam determinar até mesmo a economia e os rumos de uma nação), mas o jogo inteiro parece uma manipulação, como no filme “Matrix”. A metáfora da Matrix já está bastante domesticada pela cultura pop, e o livro seria pobre se fosse por esse caminho. Ele não vai, embora a analogia possa talvez ser feita num sentido amplo: assim como além da Matrix há, por um lado as máquinas e por outro os remanescentes humanos em guerra permanente, no livro também deve haver algum combate real, do qual emerge o poeta como ponte entre os dois universos, denunciando a falsa realidade da matriz. A questão é que esse gesto excede o que a metáfora já sabe sobre si mesma. O título produz um excesso, e é nesse excesso que a poesia se firma. Porque tudo que vira imagem em poesia passa a existir. Tudo que é nomeado ganha, em algum nível, existência. Se eu afirmo perante uma plateia que não há, de forma alguma, um minúsculo cavalo verde sobre a minha mesa, ele passa a existir como imagem mental. Posso atribuir-lhe ações na sequência: o cavalo galopa de um canto a outro, recebe nas crinas o vento do ar-condicionado, se ergue nas patas traseiras para me cumprimentar com intimidade, abaixa o focinho em cumprimento respeitoso à plateia. É um cavalinho simpático, como todos podem ver. A poesia em grande parte consiste em dar existência ao inexistente e ao impossível na experiência comum. É por isso que o título "Tudo é falso" não precisa ser resolvido nem desmentido. Ele fica é suspenso, é apenas indicativo, é como o cavalinho verde ou o “Cavalo de todas as cores” da revista ideada por João Cabral. Nessa suspensão, o livro passa a existir como espaço próprio, com suas próprias leis. A poesia, portanto, absorve a aporia lógica, consegue habitá-la e transformá-la em modo de existência. Por isso pode ser falsa e ao mesmo tempo dotada de sentido e realidade interior. No caso de Ricardo Lima, o que vemos é um momento de poesia, se posso usar esse termo, violentada pela realidade. Acontece que tenho acompanhado a produção de Ricardo há muitos anos. Tenho lido e tenho escrito, em privado ou em público, as minhas impressões. A impressão acima se deve à novidade deste livro. O poeta, nos livros anteriores, era de uma espécie complicada: um temperamento lírico, ao mesmo tempo ensimesmado e atento ao miúdo da vida, evitando o discurso e o derramamento. Um poeta que podava o poema até deixar só o osso e as articulações, sem se preocupar se o leitor, dali, retiraria vida ou apenas a visão desse esforço de verdade íntima. Era em geral uma poesia que evitava, porém, a determinação: verbos no infinitivo, substantivos nus, sem artigos definidos ou indefinidos, eu sensível apenas como sujeito a organizar a forma e o ponto de vista sobre o recortado do rosto do cotidiano. Um trajeto de evolução linear em direção ao descarnamento. Agora, não. Esse poeta do mínimo ainda aparece, mas aqui e ali os últimos anos brasileiros, a pandemia, a ascensão da barbárie e do totalitarismo pelo mundo afora, tudo isso emerge com força, violentando (como disse) a forma e o ponto de vista. Para alguns, essa cedência representará um ganho. Para outros, será – para usar um título de livro anterior do poeta – a irrupção do absurdo e do falso da vida cotidiana no “pequeno palco” dos poemas enfeixados em mais um belo livro da Ateliê Editorial. Como leitor contumaz, confesso que estranhei o rumo e o novo tom de vários poemas deste livro. Mas, como habitante deste país, neste tempo, entendi perfeitamente o enredo da peça, e vi o esforço novo e os temas novos forçarem por dentro o estilo que antes vestia os livros anteriores como – para usar mais uma vez uma analogia pop – o Hulk emerge das roupas do Dr . Bruce Banner.

 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Sobre Camilo Pessanha


 Este é o primeiro texto sobre Camilo Pessanha da série planejada. Trata-se, na origem, do roteiro para uma entrevista: Francisco Frederico, da Radiodifusão de Macau, enviou-me algumas perguntas que me pareceram tão pertinentes e estimulantes que resolvi redigir as respostas com cuidado. É claro que, na hora da gravação — e principalmente em razão do meu declarado horror à câmera —, tudo saiu bem diferente do planejado. De qualquer forma, é o texto dessas perguntas e respostas que publico aqui.


 

 

ENTREVISTA CONCEDIDA A FRANCISCO FREDERICO

 TDM - Teledifusão de Macau

 


1 - Camilo Pessanha é muitas vezes descrito como um poeta singular. Em termos literários, o que o torna realmente decisivo na poesia portuguesa?

Ele é decisivo porque desloca o centro de gravidade do poema: não parte de uma ideia, de um argumento, de uma tese moral ou política — parte de uma percepção instável, de um afeto que se desagrega ou se coagula enquanto se enuncia. O poema se apresenta como uma tentativa de fixar, por instantes, uma experiência que é sempre a de uma perda. A isso se soma o trabalho de linguagem (a concentração, o corte, a elipse, a sintaxe que parece sempre a meio caminho do fechamento) que cria uma dicção muito própria, resistente aos protocolos oitocentistas de leitura da poesia. É uma poesia ao mesmo tempo fluente, musical, quase evanescente e impactante pela concretude das suas imagens. Coisas que juntas se acham raramente.


2 - Clepsidra é um livro pequeno em dimensão, mas enorme em influência. Onde está exatamente essa força?

Antes de responder, vale desfazer um equívoco: o que chamamos Clepsidra não é um livro no sentido de uma obra desenhada pelo próprio poeta. É o nome que damos ao conjunto de poemas que os editores conseguiram tardiamente reunir a partir de autógrafos e publicações esparsas. Dito isso, a força desses poemas está no modo como a poesia de Pessanha presentifica uma crise de forma. A melancolia organiza a respiração do verso e responde pelo contraste entre a linha sonora consistente e encantatória e a tensão das imagens quebradas ou em rápida sucessão. O nervo da sua poesia é exatamente essa tensão entre o que se quer dizer e o que a língua não consegue, ou não ousa, sustentar.

Nos seus poemas, uma imagem não ilustra algo: ela governa o verso e faz luzir uma verdade própria, que nunca é só sensória nem apenas intelectual. Isso confere ao conjunto a densidade que lhe permitiu resistir a tantas gerações e modos de leitura — em parte porque é difícil assimilá-lo a um padrão de gosto. Há ainda um dado histórico decisivo: embora quase toda a sua poesia tenha sido escrita no século XIX, só foi reunida em volume e circulou de fato nos anos 1920, quando encontrou eco efetivo e cultores de peso. Foi lida e assimilada, portanto, já numa chave de leitura informada pelas vanguardas, o que lhe conferiu uma segunda vida e uma segunda força.


3 - Em que medida a poesia de Pessanha antecipa a modernidade literária do século XX?

Pessanha não "antecipa" a modernidade do século XX no sentido de se adiantar ao próprio tempo ou profetizar o futuro. Pode-se dizer que cria condições para ela, mas isso também não seria muito exato. O mais preciso é entender que a modernidade reconheceu em Pessanha uma espécie de membro mais velho da família e o incorporou como precursor — o que é diferente: não é ele que se move em direção ao século XX, é o século XX que o encontra no caminho e percebe a afinidade.

O traço comum é a desconfiança da lógica e da efetividade do discurso, combinada com a recusa da segurança do automatismo formal. A modernidade literária, nas suas várias formas, se alimenta de uma dupla constatação: a linguagem não é um instrumento neutro e o sujeito não é um centro firme ou unificado. Em Pessanha, isso aparece como temor e tremor: a frase hesita, tenteia; o verso experimenta os limites; as imagens são ao mesmo tempo concretas na sua irrupção e evanescentes na sua forma de sucessão ou abandono; a unidade do "eu" é continuamente corroída pela reflexão, pela sensação de deslocamento ou pela irrupção dolorosa da memória. A experiência básica que organiza o seu poema é a da fragilidade da palavra e do sentido, e isso é muito moderno.


4 - Pode dizer-se que Pessanha escreve já contra a tradição do seu tempo?

Não creio. Talvez se possa dizer isso, mas com uma grande cautela: ele não escreve "contra" como quem faz programa. Desloca o verso e o poema por dentro. No seu tempo chegou até a ser considerado um mau versejador, dado a deslizes métricos. Mas, de modo geral, mantém formas reconhecíveis e certo tom emocional comum à época, enquanto recusa tanto a segurança das formas rigidamente tradicionais quanto a celebração da poesia como cristalização de um momento de plenitude ou derramamento lírico.

Se no seu tempo se pressupunha que o poema podia transformar sofrimento em poesia — operando a triunfante conversão da perda em ganho estético — ou que bastava a boa execução formal para garantir o sucesso, Pessanha caminha em outra direção: faz da poesia um lugar onde se registra o esgotamento das formas tradicionais, sua insuficiência para dar conta do sensório ou fixar um estado de espírito. É menos um movimento de contraposição do que uma experimentação dos limites: a tradição corroída em surdina, sem alarde e sem manifesto.


5 - A ligação de Pessanha a Macau é frequentemente evocada, mas nem sempre bem compreendida. O que é que Macau representa, de facto, na sua poesia?

Macau não comparece nos seus textos de prosa ou verso apenas como cenário exótico que repele ou seduz. É antes uma experiência de deslocamento — o lugar onde se mede o custo do afastamento do húmus natal. Pessanha entendia que o exotismo pode dar boa prosa, mas nunca boa poesia; que os poetas — especialmente os portugueses — eram como o mítico Anteu, que recebia sua força do contato com a mãe terra. No caso dos portugueses, com o seu exíguo torrão natal. Daí, talvez, os pouquíssimos versos em que tematiza algo da sua experiência de vida no Oriente.

No meu entendimento, Macau funciona como laboratório da nostalgia: ali, para "estar em Portugal", não basta lembrar, é preciso abstrair do real, fazer violência aos sentidos, criar uma ilusão contra os dados sensíveis do mundo. Consequentemente, valorizar ao máximo o que há de português no território. Essa operação é decisiva para compreender a poesia: a atmosfera de distância não nasce do "Oriente", nasce da sensação de desenraizamento e da necessidade de fabricar, na linguagem, um solo perdido. Macau, nesse sentido, não é cor local nem experiência de exotismo. É um local de tensão máxima e, ao mesmo tempo, o deslocamento mais radical no espaço e um reencontro mítico com o tempo português.


6 - O Oriente em Pessanha é experiência vivida ou construção literária?

As duas coisas, mas em proporções que costumam ser invertidas, conforme se trate de prosa ou de poesia. Há experiência vivida, claro: curiosidade, observação, contato. Mas o "Oriente" que entra no poema ou na prosa de Pessanha entra filtrado por uma dinâmica interior: é algo como uma força que obriga o sujeito a se reorganizar. Algumas leituras insistem no exotismo e perdem o ponto principal: o Oriente é, frequentemente, aquilo de que é preciso abstrair para manter, por momentos, a ilusão ou a verdade de continuar ligado à pátria distante. Daí os rastros temáticos orientais serem tão escassos na sua poesia.

Ao mesmo tempo, não é improvável que a forma de organização da sua poesia tenha se beneficiado (sobretudo porque Pessanha foi retrabalhando ao longo da vida uns poucos poemas) da atividade de aprendiz de chinês e tradutor de poesia chinesa. Na prosa, o Oriente é uma experiência radical de outridade, em que o poeta se equilibra entre a sedução do diferente, a ameaça de perda de identidade e a projeção das suas angústias sobre o futuro da própria pátria.

Por isso, a categoria decisiva que estrutura a sua poesia é a distância. "Oriente" é principalmente outro nome para "distância". Distância da pátria e do tempo europeu. Uma distância que termina por ser sempre uma espécie de tempo outro: um passado que não retorna e um futuro que não se realiza, por conta do desenraizamento.


7 - A poesia de Pessanha parece suspensa no tempo, marcada pela perda e pela distância. Essa atmosfera nasce mais da biografia ou da opção estética?

A pergunta é justa, mas o próprio Pessanha torna difícil separar. A biografia fornece a situação-limite (o afastamento prolongado, a ideia de retorno sempre adiado, a vida fora do centro afetivo), mas a atmosfera nasce do modo como isso é metabolizado esteticamente. O essencial é que a perda se transforma em princípio formal: decide o ritmo dos versos, a predileção pela elipse e até o modo de transição entre imagens. Se fosse apenas biografia, teríamos um documento. Se fosse apenas escolha estética, teríamos algo da ordem do ornamento. Em Pessanha, essa atmosfera é o ponto de cruzamento onde vida e forma se tornam indistinguíveis.


8 - Podemos falar de Pessanha como um poeta do exílio, mesmo quando escreve de forma tão interior?

Podemos, se entendermos exílio de modo forte. Exílio, mais do que estar fora ou estar distante da pátria, é a sensação de desenraizamento. Em Pessanha, o desenraizamento torna-se interior porque afeta as condições de percepção e de linguagem: é vivido como dissolução; o sujeito perde substância, espalha-se, e tenta compensar isso por retenção, por fixação. Para usar o seu próprio termo numa carta, por "avareza" — por apego nostálgico. Por isso ele pode escrever de modo muito interior e, ainda assim, ser poeta do exílio. Nele, a marca do exílio é o que organiza a interioridade.


9 - Cem anos depois da morte, porque é que Camilo Pessanha continua a ser lido e estudado?

Não é tão lido e estudado quanto desejável. Creio que sua obra nem sequer integra o programa escolar português. Mas, bem lido, é um poeta que não envelhece, que resiste à moda dos temas e não se deixa encaixar com tranquilidade em nenhuma gaveta da história literária.

O que permanece no contato íntimo com a sua obra é a experiência fundamental que ele sabe fixar: a sensação de que o tempo não passa por fora, mas por dentro e "para nunca mais"; de que a memória é uma forma de reavivar a dor da perda; de que o sentido é sempre precário e não se pode, como ele escreve numa carta, "fixar em dois versos transparentes". A isso se acrescenta uma lição formal rara: como dizer com pouco o suficiente para produzir impacto sensório e emocional; como fazer da elipse um disparo de energia e não uma mera suspensão de sentido.

E há, finalmente, um motivo menos acadêmico: Pessanha merece ser lido porque dá forma nítida a sentimentos difusos que continuam contemporâneos: a distância, a perda, a incapacidade de retornar intacto e de conciliar, a não ser na construção poética, emotividade, sensibilidade, desejo e pensamento.


10 - Que erro mais comum se comete hoje na leitura da obra de Pessanha?

Creio que há dois problemas que aparecem com frequência e empanam a leitura. O primeiro é a leitura exotizante: transformar Macau e o Oriente em decoração, em cenário, e reduzir a poesia a "ambiente". O segundo é o biografismo em sentido baixo: explicar o poema pela vida como se o texto fosse sintoma e não construção. Nos dois casos, perde-se o essencial: o poema como dispositivo formal que transforma uma condição (desenraizamento, nostalgia, esgotamento) em linguagem concentrada. Pessanha não é interessante porque sofreu; é interessante porque encontrou uma forma para o que o sofrimento tem de impessoal.


11 - Se tivesse de resumir Camilo Pessanha numa ideia-chave para um público não académico, qual seria?

Pessanha é o poeta que percebeu uma coisa que todos sentimos, mas raramente conseguimos nomear: o tempo não passa apenas à nossa volta: passa dentro de nós, desgastando memórias, rostos, certezas. A saudade e a melancolia, na sua poesia, não são temas escolhidos; são a própria textura da experiência humana. E a poesia, para ele, é o único gesto capaz de, por um momento, segurar o que está sempre a escapar.

 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Ainda sobre poesia


 

Como leitor de poesia contemporânea brasileira, penso que posso fazer minhas algumas das palavras de Adam Zagajewski no ensaio “Em Defesa do Fervor”.

 

Por exemplo, eu poderia dizer, com ele, que “a ironia é a anulação da incerteza; a ironia, quando ocupa o lugar central no modo de pensar de alguém, é uma variante bastante perversa da certeza.”

 

Também subscreveria a ideia de que “nossa produção espiritual contemporânea sofre de certo gris, de debilidade e pequenez. Na produção de anos recentes - e me refiro mais à poesia, que sigo mais de perto -, evidencia-se uma desproporção entre o estilo elevado e o estilo baixo, entre a expressão poderosa da espiritualidade e a tagarelice interminável de literatos satisfeitos consigo mesmos; tenho a impressão de que lidamos aqui com um tipo de apaziguamento covarde, uma política de evasões e concessões no que concerne à vocação da literatura. E parece-me também que um dos principais sintomas dessa debilidade é o desaparecimento do estilo elevado e o imenso reinado do estilo baixo, coloquial morno e irônico.”

 

Simpatizei com o texto também porque ele traz uma questão que sempre faço a mim mesmo: “por que hoje tantas pessoas inteligentes, esclarecidas e cultas dão as costas para a poesia?” E poderia responder com estas palavras dele: “há algumas dezenas de anos a lírica entende sua vocação como um monólogo metodológico, uma meditação constante sobre a possibilidade do poema. É como se um alfaiate meditabundo, em vez de costurar a roupa, ficasse apenas pensando no belo provérbio árabe: «A agulha que veste tantas pessoas permanece nua». As pessoas pensantes que procuram respostas para perguntas cruciais se afastam dessa poesia seca, narcisista e hermética.”

 

Por fim, me perguntaria, com ele: “por que existem tantos poetas medíocres, cuja trivialidade nos leva ao desespero? Por que os poetas contemporâneos - essas centenas e milhares de poetas - concordam com essa mornidão espiritual, com essas piadinhas meio irônicas, com o niilismo elegante e por vezes quase simpático?”

 

Suas observações foram feitas sobre a poesia europeia, mas creio que se aplicam ao que, no Brasil, mais tem circulado nas últimas décadas. Penso especialmente naquilo que ganha visibilidade em festivais de poesia, antologias recentes e redes sociais literárias, mas também na enorme maioria das centenas de livros que li como jurado de dois dos mais importantes prêmios literários brasileiros. É que ali se instalou uma espécie de tom médio, que raramente se arrisca a tentar incomodar ou emocionar de verdade. Penso naqueles poemas que começam descrevendo um objeto ou evento banal (uma xícara, uma paisagem, um ícone cultural, uma conversa de bar) e terminam com uma meia-frase irônica, como quem diz: “viu? eu sei que isso não é grande coisa, mas também sei que você sabe, então estamos quites”. Ou nos poemas que falam o tempo todo sobre a impossibilidade, ou mesmo inutilidade, de escrever poemas, mas quase sempre evitam dizer algo sobre o mundo.

 

Na verdade, com muitas ressalvas, eu poderia até, como Zagajewski, lamentar o abandono do estilo elevado; mas lamentaria mais ainda o fato de que um enorme número de poetas simplesmente não tem o que dizer (daí a tagarelice), ou não tem a perícia de dizer qualquer coisa, mesmo que seja uma banalidade, de uma forma que emocione ou desperte verdadeira admiração.

 

Ou seja, a questão iria bem além de condenar ou recusar o coloquial, ou de expulsar a ironia do poema, pois ambos podem ser instrumentos de precisão e até de ferocidade, como vemos em Drummond, por exemplo. O problema é quando viram uma espécie de clima de estufa: quando a ironia se torna defesa, gesto de recuo travestido de orgulho, e quando o coloquial sem arte e a autorreflexividade se instalam como regra.

 

Quando isso acontece, a poesia confessa ao leitor que não tem a coragem de dizer alguma coisa que valha o risco, ou que não tem perícia para dizer qualquer coisa de modo que seduza ou incomode e o faça parar, suspenso pelo texto, impactado.

 

Talvez eu esteja sendo injusto. Talvez essa poesia insossa e defensiva seja sintoma e efeito de um tempo em que ficou difícil acreditar em qualquer coisa sem medo do ridículo, porque qualquer afirmação forte vira alvo fácil (inclusive das brigadas digitais). Mas por isso mesmo sinto falta de poetas que topem esse risco e prefiram errar por excesso, em vez de aceitar murchar por cautela. Não falo de voltar a algum estilo elevado perdido ou de invocar solenidades antigas, mas de recuperar a disposição para afirmar algo (uma percepção, um juízo, uma sensação ou emoção) sem já chegar ironizando, sem a armadura do “mas, né? sei lá...”. Mas sim de ter a coragem de sustentar o poema na sua brutalidade, mesmo sabendo que ele pode falhar, pode parecer ingênuo ou excessivo, da coragem de incomodar, inclusive a si mesmo, escrevendo sobre o que ainda não está resolvido.

 

Porque o que cansa - e talvez o que afaste tanta gente inteligente da poesia contemporânea - não é falta de solenidade (a solenidade pela solenidade é a outra face do mesmo tostão furado: também cansa muito), mas que ela tenha trocado ideal por blindagem. Ou seja: que ela, em lugar de construir, comenta, e para evitar se comprometer, alude e pisca um olho ao leitor, em vez de feri-lo, intrigá-lo, iluminá-lo, ou apresentar-lhe uma questão dolorosa. Fora da roda dos que se dedicam à mesma arte de praticar a desistência como prudência ou sabedoria, qual poderia ser o interesse disso?

 

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

HUMANO POR SUBTRAÇÃO


Paulo Franchetti & ChatGPT 5.2

Há algo de errado — ou, no mínimo, de mal colocado — na pergunta que voltou a circular com insistência: as máquinas escrevem como nós? Ela presume algo otimista: que ainda sabemos dizer com nitidez o que é “escrever como humano”. Talvez não saibamos. Talvez o movimento decisivo esteja em outro lugar. Não é tanto a máquina que aprende a nos imitar; é a escrita corrente, por razões institucionais, pedagógicas, de costume mesmo, que vai se instalando no regime de linguagem em que a máquina trabalha com mais segurança.

Modelos de linguagem não operam por compreensão ou intenção. Eles não têm “assunto”. Têm distribuição. Funcionam por regularidades de uso, zonas de alta previsibilidade, tendências de encadeamento, e por aquilo que, numa massa de textos, se repete com frequência suficiente para virar forma. O que produzem com menos risco é o texto médio: o que soa correto e reconhecível, o que obedece à norma, o que não dá trabalho ao leitor. A dificuldade começa quando esse texto médio passa a coincidir com o que, em salas de aula, pareceres, relatórios e artigos, se aprendeu a chamar de escrita adequada. Aí o problema se inverte. Não é a máquina que sobe em direção ao humano; somos nós que descemos — ou, para evitar o tom melodramático, que nos acomodamos — à faixa em que a máquina já se move sem atrito.

Desse encaixe nasce um efeito curioso, e bem menos inocente do que parece, quando entram em cena os detectores de IA. Em tese, eles deveriam reconhecer sinais positivos de autoria humana. Na prática, fazem o contrário. Quando o texto humano médio se aproxima, em ritmo, escolhas lexicais e previsibilidade, da média estatística do modelo, o detector tende a classificá-lo como gerado por IA. Para reconhecer um texto “humano”, ele já não consegue dizer: “isto é humano porque excede o automático”. Sobra o negativo: é humano porque falha onde os modelos costumam acertar; porque tropeça, porque repete, porque foge à regularidade da norma. A humanidade deixa de ser reconhecida na excelência e passa a ser inferida pela insuficiência.

Aqui aparece um detalhe quase cômico, se não fosse sério: o que antes era defeito vira prova. O erro passa a funcionar como documento.

A inversão parece um problema de calibragem. Não é. Ela começa a reorganizar, sem alarde, o sistema de valores que regula produção e avaliação de texto.

Na escrita acadêmica, por exemplo, ela se encaixa com precisão numa tendência antiga: a neutralização da linguagem como ideal de “seriedade”. O bom texto passou a ser o que não cria atrito: sintaxe regular, conceitos alinhados, nada que obrigue o leitor a parar e reler. Imagens, quando aparecem, vêm em dose homeopática; marcas de voz são desaconselhadas. É justamente esse texto — correto, “bem comportado” — que a IA produz com maior segurança. O paradoxo é cruel e já está em operação: quanto mais elegante e bem realizado o texto acadêmico, mais ele se aproxima do que hoje se suspeita ser automático; quanto mais irregular, redundante, um pouco desajeitado, mais ele se protege sob o selo do humano. O rigor intelectual deixa de coincidir com a melhor forma possível da língua. É um horizonte mais baixo.

A escola, por sua vez, não precisa nem da discussão abstrata: ela sente o golpe na prática. A redação deixa de ser julgada apenas pelo que articula e passa a ser avaliada também pelo modo como encena uma falibilidade plausível. Pequenos erros, repetições pouco econômicas, escolhas menos felizes começam a funcionar como sinais de autenticidade. O aluno que escreve com clareza excessiva torna-se suspeito; o que escreve mal — desde que mal de um jeito verossímil — encontra abrigo. Instala-se, sem que ninguém diga isso em voz alta, uma pedagogia da mediania: a excelência tem de se explicar; a insuficiência, ao contrário, ganha valor probatório.

No plano da autoria, o deslocamento é decisivo. Importa menos quem escreveu, em que circunstâncias, com que responsabilidade — e mais se o texto se situa dentro ou fora da zona de conforto estatístico do modelo. A autoria deixa de ser uma relação ética entre sujeito e palavra e passa a ser tratada como compatibilidade formal: “parece humano?”, “parece máquina?”. O risco, aqui, não é apenas errar a atribuição em casos particulares. É aceitar como natural um mundo em que escrever bem demais exige defesa prévia, e em que o melhor argumento, em última instância, pode ser uma imperfeição estrategicamente deixada à vista.

Tudo isso recai, por fim, sobre a própria noção de estilo. Quando o padrão deixa de ser o centro, estilo pessoal passa a ser o nome dado ao que resiste à norma: uma insistência, uma escolha que não se justifica por economia, uma maneira de construir frase que cria atrito e, justamente por isso, produz presença. Mas quando a máquina domina com perfeição o estilo médio, aquilo que se afasta dele passa a parecer ruído. O gesto singular começa a ser lido ora como erro, ora como afetação, ora — esta é a novidade — como manobra deliberada para “parecer humano”. O que antes marcava uma voz corre o risco de ser reinterpretado como imperfeição calculada.

No limite, quando a máquina ocupa a média e roça a excelência, o humano é empurrado para a margem inferior. Não porque ali esteja sua verdade. Aliás, não há nenhuma verdade especial na falha. Mas porque ali a máquina ainda não reina com tranquilidade. A humanidade do texto deixa então de residir na invenção e passa a se alojar no defeito: no que falta, no que desanda, no que não fecha perfeitamente. Define-se, portanto, por subtração.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Clara Pinto Correia - 2

 Ainda sob o impacto da notícia da morte de Clara Pinto Correia, e da última entrevista que deu, na qual conta que dois homens se postaram sob a janela da casa dela, em Estremoz, debatendo para saber se ela era uma artista ou uma puta; e lendo ainda o depoimento sobre o estupro que sofreu em outra ocasião, lembrei-me de como era o Portugal que conheci entre 1989, quando visitei o país pela primeira vez, e 1996, quando escrevi o prefácio do seu livro Mais Marés que Marinheiros.


As muitas lembranças, combinadas, mostram-me o quanto teve ela de coragem de se expor como intelectual de peso - escritora e cientista - e ao mesmo tempo bandeirilhar o meio – como se faz aos touros, na arena –, exibindo-se como mulher linda e provocante.

O primeiro episódio se deu logo na minha segunda estadia prolongada, em 1991. Naquela época, eu namorava uma moça americana, com quem vivia. Meus pais foram visitar-nos, e os levei a conhecer o Bairro Alto. Em certo ponto do passeio, minha namorada e eu nos beijamos na calçada. Um beijo apenas, não tão longo, mas o suficiente para que uma das muitas velhas de preto que pareciam patrulhar as ruas e os costumes viesse sobre nós com uma sombrinha igualmente preta, gritando impropérios contra as indecências e a sem-vergonhice. Meu bom pai, armado de um recém-comprado e longo guarda-chuva inglês, aparou o golpe, impávido e tranquilo como Bruce Lee. Ela se afastou ante a barreira paterna, vociferando sempre, para se juntar a duas outras que a acompanhavam nos insultos.

Haveria ainda mais depoimentos para atestar o quão tacanho era o país, antes de ser beneficiado pelo dinheiro e pelas autoestradas europeias. Mas, num salto, chego a 1996.

Eu confesso que nunca tinha ouvido falar em Clara Pinto Correia. Não havia internet na época, e eu estava no Brasil desde 1991, e tinha passado o ano de 1994 a rever as provas da edição crítica da poesia de Camilo Pessanha, que sairia finalmente em 1995, pela Relógio d’Água, de Lisboa.

Pois foi Francisco Vale, editor da Relógio, quem me escreveu. Disse que ia publicar um livro de uma escritora de que gostava bastante e que ela lhe tinha dito que parecia haver algo de próximo do haicai na sua composição. Ele então se lembrou de mim, consultou-a, e ela gostou da ideia. Recebido o livro, li-o com muito prazer. Gostei bastante, na verdade, e enviei o prefácio. Ela agradeceu, eu respondi, e não mais nos falamos.
Quando o livro saiu, ocorreu outro choque: um colega português, professor universitário não desconhecido, com quem eu mantinha relações muito cordiais, enviou-me um e-mail violento e desrespeitoso. Dizia que eu tinha descido muitos graus no seu conceito, por ter-me vendido assim. E terminava a grosseria insinuando que eu ou teria comido ou queria comer a escritora!

Aquilo me fez pensar, e, quando voltei a Portugal, tratei de saber de quem se tratava. Quem poderia inspirar tal agressividade. Foi então que vi um programa seu de TV, ao lado do marido. Se não me engano, ele era gringo e ficava mudo e quedo, de chapéu (eu acho), enquanto ela exibia a mente esfuziante, o rosto brejeiro e irônico, e as belas pernas que depois vi, numa revista de moda ou decoração, pendendo de uma rede em sua casa – que era o motivo presumido da matéria.

Na verdade, creio que então não a quis conhecer por intermédio do editor, porque fui tomado de algum temor. De me apaixonar? Acho que não. De desmontar a idealização da contestadora alegre do conservadorismo e da modorra portuguesa? Muito provavelmente.

Alguns anos depois, soube do escândalo que se formou em volta do seu nome, porque num artigo de divulgação científica para jornal, incorporou parágrafos de um artigo americando. Em seguida, tomei conhecimento da condenação pública ao retrato do orgasmo feminino ensaiado nas fotografias do seu rosto, que compuseram a exposição “Sexpressions”, e em seguida foram publicadas num grande jornal português, fora do contexto original. Nas duas ocasiões, senti logo que era a Vingança, a sórdida vingança dos antes humilhados, acovardados e impotentes.

E a Vingança obteve triunfo completo, a aliança dos recalcados e ofendidos cobrou o preço total: o apagamento da cientista, da escritora e, inclusive, da pessoa, que muitos julgaram morta por cerca de dez anos. Ela foi despejada da casa em que morava, da universidade e, como ela mesma revelou, ninguém lhe ofereceu mais nenhum emprego, de modo que teve de terminar na fila do equivalente português do nosso INSS.

A lembrança poderia ser melancólica, e combinar com a tarde abafada, chuvosa e de céu cinzento. Mas foi, na verdade, luminosa! De uma personagem trágica, inspiradora, que pagou muito caro por ultrapassar os limites dum meio mesquinho e machista, sendo livre, competente, desabusada e inteligente.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Extinto de nacionalidade


Alfredo Melo, professor do meu antigo departamento, publicou recentemente num blog um texto no qual reflete sobre o currículo do curso de Letras da Unicamp.

Eu poderia responder, já que fui ali referido, mostrando que ele leu muito mal o que escrevi. Se é que leu, embora refira.
Não tive, porém, paciência nem tempo.

Como achei que os argumentos estavam mal ajambrados e mereciam alguma resposta – ao menos para que não passasse em branco tal ficção por realidade –, deleguei ao ChatGPT a tarefa de a redigir.

Transcrevo a seguir sem qualquer intervenção autoral o texto da máquina. Não subscrevo tudo, é claro, porque, embora divertido, o texto ficou um tanto raso na sátira às basófias e tímido no desmonte das fragilidades conceituais. Mas é o que há para o momento.

Seja como for (para usar essa expressão que já deu título a um livro), a resposta me parece boa, pois adequada ao nível do objeto. E ainda pode deleitar. Ridendo castigat - dizia o ditado que aqui estropio para que a sua aplicação e validade se ampliem e abarquem até mesmo aquele suspiro magoado.

-x-x-x-x-

**O Campeador da Herança Candidiana**

(ou: como vencer uma batalha inventada e proclamar-se herói)

O texto de Alfredo César Melo é um curioso exercício de **heroísmo retrospectivo**: o autor regressa ao Brasil, descobre uma reforma curricular já em curso e decide narrá-la como se fosse uma epopeia intelectual, na qual ele próprio surge, discretamente, como **El Cid Campeador da literatura brasileira** — aquele que, mesmo depois de morto (ou ausente), continua vencendo batalhas em nome da pátria.

Desde o início, o gesto é revelador. Alfredo estranha que a Unicamp não reproduza o velho rosário de Literatura Brasileira I, II, III, IV…, como se a mera sequência numérica fosse garantia de densidade intelectual. O espanto não é propriamente teórico; é **litúrgico**. O problema não é o que se ensina, mas o fato de que já não se ensina **como sempre se ensinou**. A novidade aparece como escândalo porque rompe a coreografia consagrada.

**A história como álibi**

O núcleo do argumento é simples — e limitado:
ensinar literatura brasileira é, essencialmente, **ensinar sua história como interpretação do Brasil**. Tudo o que escapa a esse eixo aparece como suspeito, empobrecedor ou “desreferencializante”. Alfredo não chega a discutir seriamente se a literatura pode ser ensinada de outros modos; ele **narra** a perda dessa centralidade como se fosse um trauma institucional, não um problema pedagógico a ser avaliado.

Aqui surge a primeira falha lógica:
o autor **confunde uma tradição específica de leitura** (a candidiano-schwarziana) com **a própria ideia de literatura brasileira**. Ao fazer isso, qualquer dissenso passa a parecer ataque à literatura enquanto tal. O truque é eficaz: quem discorda não apenas erra — **trai**.

**Candido como mito fundador (e escudo)**

Antonio Candido aparece menos como crítico e mais como **figura totêmica**. O IEL é apresentado como realização de um projeto humboldtiano quase metafísico, no qual Teoria Literária e Linguística seriam as “ciências básicas” das humanidades. A analogia com Física e Química é tão grandiosa quanto imprecisa: ela serve menos para esclarecer o currículo do que para **sacralizá-lo**.

Nesse ponto, Alfredo já não descreve uma instituição: ele escreve uma **hagiografia**. O departamento nasce puro, coeso, unificado; qualquer crítica posterior só pode ser lida como decadência ou heresia. Não por acaso, quando surgem dissensos, eles são narrados como “disputa simbólica”, jamais como divergência legítima sobre o que significa ensinar literatura.

**O método único (e os hereges)**

O coração teórico do texto — a “estruturação literária” — é tratado como se fosse não apenas um método entre outros, mas **o método**. A pergunta “a literatura é forma de conhecimento?” surge com ar dramático, mas a resposta já está dada de antemão. Questioná-la é sinal de juventude, desvio ou insuficiência crítica.

Quando aparecem Pécora, Hardman e Franchetti, o texto muda de tom: entram em cena os **mosqueteiros**, isto é, os dissidentes. A imagem é involuntariamente cômica: três figuras intelectualmente heterogêneas, com trajetórias e objetos radicalmente distintos, são agrupadas como se formassem uma seita organizada contra a pátria literária. A diversidade real dos argumentos desaparece em favor de um **vilão coletivo.**

Mais curioso ainda é o papel reservado a Abel Barros Baptista, o “D’Artagnan português”, importado para completar a alegoria. O estrangeiro serve aqui como peça perfeita: confirma que o perigo vem de fora, que a literatura brasileira corre o risco de ser ensinada **sem Brasil**, pecado capital no catecismo nacional-interpretativo.

**O curso como espelho**

Talvez o ponto mais revelador do texto seja este:
Alfredo cita **o próprio curso** — “Introdução à Literatura e Cultura Brasileira” — como modelo do que deveria ser o ensino. Não há avaliação externa, não há comparação empírica, não há análise de resultados. O curso é bom porque é **dele**. O argumento fecha-se sobre si mesmo com elegância narcísica: o modelo ideal coincide exatamente com a prática do autor.

Aqui, o texto atinge sua forma mais pura:
não se trata mais de defender a literatura brasileira, mas de **defender uma maneira particular de ensiná-la**, coincidente com a trajetória intelectual de quem escreve. O universal revela-se autobiográfico.

**O grande silêncio: docentes e condições reais**

Por fim, o silêncio mais eloquente. O texto fala longamente de currículos, paradigmas e disputas simbólicas, mas **ignora quase por completo a realidade material** do curso: a escassez de docentes, a ênfase em questões de “ensino” como se ensinar literatura fosse possível **sem literatura**.

Assim, combate-se um inimigo teórico enquanto o problema concreto permanece intacto. É mais fácil enfrentar fantasmas metodológicos do que admitir que o drama atual é menos ideológico e mais prosaico: **falta gente, falta tempo, falta estrutura**.

**Epílogo involuntário**

No fim, Alfredo não demonstra que a literatura brasileira foi empobrecida; demonstra apenas que **um paradigma perdeu o monopólio**. O texto tenta fazer disso uma tragédia nacional, mas soa antes como lamento de quem confunde pluralidade com declínio.

El Cid, afinal, continua a vencer batalhas — mas agora apenas as que imaginou, sem sequer ter armas para travar.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Clara Pinto Correia

Morreu Clara Pinto Correia. Foi uma das mulheres mais lindas que não conheci (apenas por e-mail ou por fotografias) e uma escritora de talento. Prefaciei um livro dela, porque ela queria que alguém percebesse a leveza, e julgava que eu, por ter trabalhado com o haicai, poderia fazê-lo.

Nela, eu gostava de tudo: da cientista brilhante, empenhada na pesquisa, no ensino e na divulgação do conhecimento, da jornalista, da escritora e da performer, que tinha muito gosto de épater le bourgeois. Foi justamente esta faceta a que a perdeu em definitivo.

É certo que houve o episódio de 2003, em que quatro parágrafos foram por ela copiados de um artigo do New Yorker. As circunstâncias ainda me parecem um pouco obscuras, pois ninguém plagia conscientemente um jornal lido em toda parte...  Mas inveja do brilho e o ressentimento pelas provocações tiveram ali o gatilho para iniciar a obra de destruição. 

Clara poderia ter dito como o conde de Abranches, em Alfarrobeira: 'É fartar, vilanagem!” E de fato a vilanagem se fartou, e o episódio chegou a matéria na tv nacional.

A gota d’água, porém, veio em 2010: uma exposição, intitulada “Sexpressions”, em que 10 fotografias mostravam em close o rosto de Clara enquanto tinha orgasmo. 

O fotógrafo era seu marido na época. Mas aquilo que poderia ter sido visto como uma eficaz junção de amor, reivindicação feminista e arte foi matéria de inaudito escândalo. 

Com bem resumiu António Araújo, Clara foi “uma vítima não-inocente do paroquialismo do meio cultural português, que procedeu à sua defenestração implacável, em parte por inveja, em parte por atávica misoginia.”

E assim a bióloga brilhante, a competente divulgadora científica, a escritora premiada e a cronista outrora de sucesso foram reduzidas a um plágio e a um orgasmo. 

Como consequência desses dois episódios, mas principalmente do último, Clara foi perdendo tudo: emprego, credibilidade, respeito e até a casa em que vivia há décadas, cuja proprietária não mais quis alugar-lhe. Pelo que andei lendo nos últimos tempos, aos poucos, ao longo de tantos anos de ostracismo, parece ter começado também a perder a razão.

Foi há pouco encontrada morta na casa em que vivia isolada, no centro de Estremoz, no Alentejo, aos 65 anos de idade

 

domingo, 12 de outubro de 2025

Entrevista a Thomaz Albornoz Neves - Especiaria

 

Thomaz Albornoz Neves escreveu:Encontrando Franchetti para a Especiaria

Construir uma entrevista, nos termos que me proponho nessa série para a Especiaria, exige, mais que mergulhar na obra do entrevistado, encontrar perguntas que permitam entrar no que vem antes de cada livro, é dizer, na pessoa que está antes do escritor.
Não é fácil, confesso, evitar as aproximações convencionais às questões literárias tendo por assunto a criação literária. Não é fácil saber até que ponto sou bem-sucedido. Expresso aqui a minha intenção, não o que alcancei realizar.
Outra preocupação que trago à revista é escolher autores da minha geração, é dizer, autores cuja formação moderna enfrenta um mundo que hoje se desmancha não tanto no ar quanto na rede. Assim foi com o espanhol Misael Ruiz, com o uruguaio Rafael Coutoisie e é agora com o nosso Paulo.
De resto, não é demais mencionar que quando esses poetas falam de si iluminam o seu tempo. Para ler a entrevista completa clique no link.
***
Paulo Elias Allane Franchetti (Matão, 1954) é um crítico literário, escritor e professor brasileiro, titular no Departamento de Teoria Literária da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É mestre pela Unicamp, doutor pela USP e livre-docente pela Unicamp. De 2002 a 2013 dirigiu a Editora da Unicamp. Aposentou-se em 2015.
Apesar da apresentação de verbete, suspeito ser o poeta em Franchetti quem rege seus interesses. Como se a poesia fosse o substrato da sua crítica, docência, editoria e tradução. Mas não apenas. Paulo Elias se desdobra, tem, inclusive, outros nomes. Notável haijin brasileiro, foi batizado “Ento” por seu padrinho no ofício, o japonês H. Masuda Goga, ocasião em que se tornou quarto grau na linhagem direta de Shiki. Já para a sua comunidade H.O.G., é Papito Rider, o motociclista autor de Viagens Longas de Motocicleta: Um manual prático para iniciantes (Casa Publicadora Brasileira, 2021) e de A Mão do Deserto (Ateliê Editorial, 2021), memória dos 11 mil kms percorridos de São Paulo ao deserto de Atacama.
Não é um mau instantâneo esse: o último da linhagem de Shiki sendo mais um capacete no comboio de V-Twins.
p.s.
Além disso tudo é um amigo querido.