OLIVEIRA MARTINS, FERNANDO PESSOA E A FIGURA DO HERÓI EM
MENSAGEM
Anais do XXIII Congresso Internacional da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa -
http://www.abraplip.org.br/wp-content/uploads/2015/01/Anais-XXIII-Congresso-2011.pdf ]
A História de Portugal e a História
da civilização ibérica são livros que marcaram profundamente o imaginário
português dos últimos anos do século XIX e das primeiras décadas do XX. A
partir desses livros, e dos que se seguiram na pena de seu autor, ganha corpo
e expressão uma espécie de “complexo nacional” frente ao qual (em apoio ou
contraposição) se vai situar a inteligência portuguesa contemporânea e subsequente.
Antero, Eça e Junqueiro, no momento, António Sérgio, Jaime Cortesão e Fernando
Pessoa, posteriormente, são apenas os nomes mais notáveis que tratarão de
incorporar, combater ou transformar as principais teses e conclusões surgidas
nesses trabalhos.
A maior parte do primeiro
livro gira à volta do tema da decadência portuguesa. Tudo o que sobreveio
depois de 1580 é visto apenas como um longo estertor, em que se debate inutilmente
um indivíduo condenado, seguido da decomposição do corpo social já sem vida
própria. E mesmo antes, desde D. Manuel, longos trechos dos capítulos trazem
prefigurações da desgraça, de que Alcácer-Quibir é apenas o desenlace
formidável.
Como já tentei mostrar
em outra parte, o procedimento básico e recorrente ao longo da obra histórica
de Oliveira Martins consiste em descrever e analisar acontecimentos
particulares como símbolos das grandes tendências ou transformações de um
universo mais amplo, classista ou nacional. [i] Todo o
seu livro da História de Portugal é
montado sobre esse procedimento. O terremoto de Lisboa são as reformas do Marquês
de Pombal. Cabral e o Gama são a exploração material e pérfida da Índia.
Albuquerque e D. João de Castro, a sua face genial e correta, embora inadaptada
à realidade do tempo. E D. João VI, “sujo, gorduroso, feio e obeso”, é o
emblema de 200 anos de decadência praticamente ininterrupta, “representante
quase póstumo de uma dinastia (...) de reis doidos ou ineptamente maus”.[ii] O
segundo é a recorrente explicação da decadência como expiação dos crimes
anteriormente cometidos.[iii] É certo que coexiste em Oliveira Martins pelo menos mais uma
interpretação da necessidade da decadência em Portugal, mas, no mecanismo
narrativo da História, a expiação é o
que mais impressiona. A outra interpretação da decadência, que com essa faz pendant, se encontra na História da Civilização Ibérica. E é
esta:
Caímos, passamos, porque é da
natureza de todas as cousas vivas – e uma sociedade é um organismo – nascer,
crescer e morrer.[iv]
No texto há pouco
referido, tratei também dos desdobramentos da metáfora organicista no
pensamento de Martins e, sobretudo, na organização da sua narrativa. Assim, não
vou abordar agora um dos seus mais notáveis desdobramentos, que é a oposição
entre nação e nacionalidade, embora tenha sem dúvida interesse para a
compreensão de Mensagem. Aqui, o foco
estará na constituição da figura do herói.
Essa é uma denominação
curiosa, na História de Portugal. Por exemplo, Afonso Henriques é sem
dúvida um herói, a quem cabe um papel central. Mas um papel que cumpre apesar
de si mesmo: “Afonso Henriques foi quem verdadeiramente consumou a separação de
Portugal, não pelos méritos próprios apenas, mas porque a direção política do
reino começou no seu tempo a ser encaminhada pelos fatos no sentido de definir
de um modo positivo a independência da nação”.[v] Quanto
aos méritos próprios, eis como o define o mesmo historiador: “valente,
medíocre, tenaz, brutal” e de “pérfido caráter” – quase um bandido, em suma.[vi] O outro
grande herói do período de formação é, para o historiador, Pedro I – que ele
descreve como louco, gago, furioso na aplicação de uma justiça passional. Todos
os demais reis são figuras pálidas, sem expressão frente a esses dois, que, em
suas próprias palavras, eram os “indivíduos tipos, os dois loucos – um,
frenético, brandindo o punhal mortífero; outro, carrancudo e fero, empunhando
o látego do algoz e a vara de juiz, ou risonho e folgazão, dançando e cantando
nas ruas no meio da sua família, como um pai”.
Mais do que
indivíduos, vê-se, são eles símbolos da construção de um organismo que os
transcende, de que eles são ao mesmo tempo os criadores e os instrumentos. Por
isso, por buscar nos heróis a encarnação de uma ideia coletiva, além desses
dois “loucos”, nenhum outro rei da casa de Borgonha merece maior atenção na História de Portugal. Nem mesmo D. Dinis
merece algum elogio muito maior do que “já não é analfabeto, e mede bem o
valor da ciência”. E se o fundador da Universidade recebe algum destaque na
dúzia e meia de linhas anódinas com que comparece na História é apenas porque Martins lhe reconhece “uma intuição dos
caracteres modernos das nações”. De modo geral, a atenção do historiador se
fixa apenas naquelas personalidades que fogem da mediocridade ou do esperado,
naqueles caracteres que funcionam como símbolos de uma ideia que ainda não cabe
neles, que não ascendeu ao nível da sua consciência e por isso se manifesta
neles sob o aspecto da loucura e do grotesco.
Para o historiador,
era bem determinado o momento em que se estabelece a consciência nacional e
começa a vida da nação como um indivíduo completo e equilibrado: a Revolução de
1383.
Na História e no Camões, a revolução equivale a uma metamorfose:
Na crise de 1383, Portugal
aparece outro. Fundidos e assimilados, os elementos constitutivos da nação
tinham adquirido já o poder de organização bastante para ganhar uma consciência;
e é por isso que o movimento fundador da segunda dinastia se nos apresenta
como um ato popular ou coletivo, uma expressão positiva da vontade nacional,
enquanto as agitações anteriores não passavam de atos pessoais ou de classe,
revoltas de indivíduos.[vii]
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