Oliveira Martins e o Brasil
[publicado na revista Remate de Males, 22 (2002), e reproduzido
no volume Estudos de literatura
brasileira e portuguesa (Ateliê, 2007)]
Na
história da cultura portuguesa do século XIX, um dos atores coletivos mais
importantes é o que se convencionou chamar ‘Geração de 70’. Por esse nome,
designa-se um conjunto de intelectuais
que são assim reunidos por neles se reconhecer o desejo de proceder a uma
campanha de reforma da nação, a partir de ideais republicanos ou socialistas.
Reforma essa que se apresenta primeiramente como um esforço de submeter a
processo a história do país e da constituição do império ultramarino.
O
momento central de constituição pública do grupo, que reflete inclusive no rótulo
atribuído à ‘Geração’, foram as Conferências Democráticas, de 1871. Do
programa bastante amplo, como se sabe, apenas cinco foram proferidas: a de
abertura, a de Antero, sobre as Causas da decadência dos povos peninsulares
nos últimos três séculos; a de Augusto Soromenho, sobre A literatura
portuguesa; a de Eça, sobre A nova literatura; e a de Adolfo Coelho,
sobre O ensino em Portugal. Suspensas por ordem governamental, o que delas
restou, além do programa ambicioso e revolucionário, foi a atitude comum que
animava os vários textos: promover, pela denúncia do estado atual de estagnação
e atraso da cultura portuguesa, os valores modernos, científicos e
revolucionários. Nesse sentido, o texto que sintetiza o programa de revisão
histórica das Conferências e da ‘Geração’ é mesmo o de Antero de
Quental, e não creio que exagere ao dizer que é esse talvez o texto capital da
cultura portuguesa no século XIX, pois representa, simultaneamente, um ponto de
chegada e um ponto de partida. De chegada porque dá nova síntese, numa clave
revolucionária, a temas e questões que já vinham de Herculano. De partida,
porque é das teses polêmicas desse texto seminal que nascem, por decorrência ou
por contradição, algumas das obras fundamentais para a definição da cultura
portuguesa do final do século XIX e começo do XX.
O
texto de Antero desenvolve, de modo brilhante, o que depois se tornou o tema
central do tempo: o diagnóstico da decadência portuguesa. Essa é a palavra‑chave
no pensamento dessa época, e a história das várias modalizações do sentimento
de decadência na segunda metade dos oitocentos já foi muito bem feita por
António Machado Pires, num livro publicado em 1978.[1]
Dentro
do propósito crítico e revolucionário que se reconhece sob a denominação de
‘Geração de 70’ – e necessitando, portanto, desse enquadramento, para ser
adequadamente compreendido –, avulta um conjunto de trabalhos que, pelo seu
escopo, pela sua grandeza e pela presença decisiva que teve e ainda tem na
cultura luso‑brasileira, atrai de imediato a atenção de quem quer que se
interesse pelo estudo das coordenadas ideológicas do final do século XIX. Trata‑se
da obra de Oliveira Martins.
Com
o mesmo objetivo com que foram pensadas as “Conferências”, isto é, com o objetivo de educar o público, de
promover a sua atualização como estratégia para reformar a sociedade e reverter
a decadência nacional, projetou e compôs Martins uma vasta “Biblioteca das Ciências Sociais”, em
que os volumes se referem mutuamente e cobrem campos muito amplos, da antropologia
à crematística, da etnologia à história do sistema colonial português, da
história de Roma à crônica do Portugal seu contemporâneo.[2]
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