terça-feira, 26 de junho de 2012

Oliveira Martins e o Brasil


Oliveira Martins e o Brasil

[publicado na revista Remate de Males, 22 (2002), e reproduzido no volume Estudos de literatura brasileira e portuguesa (Ateliê, 2007)]

   Na história da cultura portuguesa do século XIX, um dos atores coletivos mais importantes é o que se convencionou chamar ‘Geração de 70’. Por esse nome, designa-se um conjunto de  intelectuais que são assim reunidos por neles se reconhecer o desejo de proceder a uma campanha de reforma da nação, a partir de ideais republicanos ou socialistas. Reforma essa que se apresenta primeiramente como um esforço de submeter a processo a história do país e da constituição do império ultramarino.
   O momento central de constituição pública do grupo, que reflete inclusive no rótulo atribuído à ‘Geração’, foram as Conferências Democráticas, de 1871. Do programa bastante amplo, como se sabe, apenas cinco foram proferidas: a de abertura, a de Antero, sobre as Causas da decadência dos povos peninsulares nos últimos três séculos; a de Augusto Soromenho, sobre A literatura portuguesa; a de Eça, sobre A nova literatura; e a de Adolfo Coelho, sobre O ensino em Portugal. Suspensas por ordem governamental, o que delas restou, além do programa ambicioso e revolucionário, foi a atitude comum que animava os vários textos: promover, pela denúncia do estado atual de estagnação e atraso da cultura portuguesa, os valores modernos, científicos e revolucionários. Nesse sentido, o texto que sintetiza o programa de revisão histórica das Conferências e da ‘Geração’ é mesmo o de Antero de Quental, e não creio que exagere ao dizer que é esse talvez o texto capital da cultura portuguesa no século XIX, pois representa, simultaneamente, um ponto de chegada e um ponto de partida. De chegada porque dá nova síntese, numa clave revolucionária, a temas e questões que já vinham de Herculano. De partida, porque é das teses polêmicas desse texto seminal que nascem, por decorrência ou por contradição, algumas das obras fundamentais para a definição da cultura portuguesa do final do século XIX e começo do XX.
   O texto de Antero desenvolve, de modo brilhante, o que depois se tornou o tema central do tempo: o diagnóstico da decadência portuguesa. Essa é a palavra‑chave no pensamento dessa época, e a história das várias modalizações do sentimento de decadência na segunda metade dos oitocentos já foi muito bem feita por António Machado Pires, num livro publicado em 1978.[1]
   Dentro do propósito crítico e revolucionário que se reconhece sob a denominação de ‘Geração de 70’ – e necessitando, portanto, desse enquadramento, para ser adequadamente compreendido –, avulta um conjunto de trabalhos que, pelo seu escopo, pela sua grandeza e pela presença decisiva que teve e ainda tem na cultura luso‑brasileira, atrai de imediato a atenção de quem quer que se interesse pelo estudo das coordenadas ideológicas do final do século XIX. Trata‑se da obra de Oliveira Martins.
   Com o mesmo objetivo com que foram pensadas as “Conferências”, isto é, com o objetivo de educar o público, de promover a sua atualização como estratégia para reformar a sociedade e reverter a decadência nacional, projetou e compôs Martins uma vasta “Biblioteca das Ciências Sociais”, em que os volumes se referem mutuamente e cobrem campos muito amplos, da antropologia à crematística, da etnologia à história do sistema colonial português, da história de Roma à crônica do Portugal seu contemporâneo.[2]
  


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