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domingo, 7 de junho de 2026

Excesso de IA

 Há tempos tenho sofrido de excesso de IA. Não da IA que convoco no meu notebook ou celular para me traduzir um artigo ou revisar um texto, mas da IA cada vez mais onipresente. Texto longo no Facebook é batata: logo vêm o ritmo ternário, as entradas pela negativa (como a que usei na frase anterior) e os adjetivos decisivos, isto é, vazios e pomposos como este que acabo de usar. Ao ler o jornal, os rastros estão mais embaralhados, mas ainda visíveis. Artigos acadêmicos também têm cheiro cada vez mais forte, emanado das cozinhas automáticas das IAs.


Mas cheiro e cara de IA já não atestam a presença da IA. Ou melhor, não atestam que um dado texto foi composto por IA. Atestam, isso sim, que a forma do discurso da IA está se impregnando na nossa linguagem, está modelando a nossa forma de falar e, principalmente, de escrever.

Isso me fez lembrar de quando eu vendia querosene em litro, na venda da minha avó. Era para abastecer as lamparinas. Pois bem, por mais que tomasse cuidado no manejo da bomba, em pouco tempo a minha roupa tinha cheiro de querosene, a comida tinha cheiro de querosene e até o Nero, o cachorro do sítio, era puro querosene.

[Essa lembrança infantil aparece aqui para garantir que este texto não foi produzido por IA, embora na minha própria maneira de escrever eu já não consiga mais perceber o que devo às máquinas, por influência direta (manejo do Claude ou do ChatGPT) ou indireta (leitura de textos que imitam as IAs).]

A propósito dessa questão, um amigo me indicou um texto que vale a pena. A conclusão é a mesma, mas embasada em pesquisa e tratamento de dados.

Este: https://arxiv.org/abs/2409.01754

O texto inteiro merece leitura, mas destaco apenas estes dois parágrafos (traduzidos pelo ChatGPT), sobre desdobramentos da incorporação crescente da linguagem da máquina pela linguagem humana:

"Uma preocupação central desse desenvolvimento é a homogeneização cultural. Se os sistemas de IA favorecem de modo desproporcional certos traços culturais, podem acelerar a erosão da diversidade cultural. Essa ameaça se agrava porque os futuros modelos de IA serão treinados com dados cada vez mais dominados por traços impulsionados pela própria IA, depois amplificados pela adoção humana, reforçando a homogeneidade num ciclo que se alimenta a si mesmo.

Esse fenômeno representa também um risco adicional para a própria IA: à medida que certos padrões passam a predominar, cresce o risco de colapso dos modelos por uma nova via. Mesmo a incorporação de humanos no circuito de treinamento talvez não forneça a diversidade de dados necessária. Isso ameaça a diversidade cultural e reduz os benefícios sociais dos sistemas de IA."

Entrevista: Fim da autoria? - TV Unicamp

 https://www.youtube.com/watch?v=Ma7tuFSDf0U