O texto aqui apresentado provém da apresentação à correspondência trocada entre Eça de Queirós e Oliveira Martins. A transcrição e anotação das cartas foi feita por Beatriz Berrini que, sabendo do meu interesse pela obra dos dois autores, pediu a apresentação.
Na época, eu me dedicava à leitura da obra completa de Oliveira Martins, o que me absorveu por anos. Concordei, então, em escrever e ela aceitou que eu dedicasse a maior parte do texto a Oliveira Martins, na época já quase esquecido no Brasil.
O livro foi publicado em 1995 pela Editora da Unicamp e não teve reedição. Na sequência, somando a contribuição crítica de alguns especialistas às suas próprias revisões, Beatriz resolveu não reeditar o livro, por entender que havia muito que corrigir no texto das cartas e que seriam necessárias mais notas explicativas. Com isso, também eu não me ocupei mais do meu texto introdutório.
Hoje, decorridos 30 anos da sua redação, não teria muito a acrescentar. Uma crítica que me foi feita foi a de que eu tinha desconsiderado o racismo de Oliveira Martins. Para o colega que a formulou, não era possível entender o método histórico de Martins sem levar em conta o seu arianismo.
É certo que, se quisermos pensar a questão por esse ângulo, a história do mundo, para o autor de Os filhos de D. João I, é a história da expansão da raça ariana, que vai absorvendo ou exterminando as demais raças.
Mas não creio nem que essa seja a contribuição do autor à cultura brasileira e portuguesa, nem que os pontos que me interessaram – os referentes à construção da narrativa histórica, ao lugar e ao tipo dos heróis, e ainda aos conceitos de história normal e de fim da história – precisassem da mediação do arianismo. Pelo contrário, creio que são questões diferentes e que podemos e devemos colocar o arianismo e o racismo entre parêntese, para que essa outra discussão não prejudique a compreensão daquilo que denominei “o método histórico”.
Sendo assim, passemos à apresentação da obra do historiador, tal como eu a redigi naquele livro da Editora da Unicamp.
Oliveira Martins e a história de Portugal.
Quando Oliveira Martins publicou em 1879 a sua História de Portugal e a História da civilização ibérica, abriu-se um fecundo filão do imaginário português contemporâneo. A partir desses livros, e dos que se lhe seguiram na pena de seu autor, ganha corpo e expressão uma espécie de “complexo nacional” frente ao qual (em apoio ou contraposição) se vai situar a nata da inteligência portuguesa contemporânea e subsequente. Antero, Eça e Junqueiro, no momento, António Sérgio, Jaime Cortesão e Fernando Pessoa, posteriormente, são apenas os nomes mais notáveis que tratarão de incorporar, combater ou transformar as principais teses e conclusões surgidas nesses trabalhos.
A História de Portugal é, em boa parte, um triste panorama da vida da nação. Trata-se de um livro cheio de cores, de ação e lances romanescos. Forma a sua espinha dorsal, mais do que a narração objetiva dos acontecimentos dispostos em ordem cronológica, uma série de quadros impressivos, dramáticos, mais ou menos trágicos e relativamente completos em si mesmos. Da leitura, resulta a impressão de que o fio condutor é a exposição de uma persistente e equívoca loucura coletiva, que acaba por dirigir o fluxo dos acontecimentos marcantes na história pátria: persistente porque não é privativa de nenhuma das casas reinantes; e equívoca porque ora parece bastante desprezível, ora puramente trágica, ora sublime.
A maior parte do livro gira à volta do tema da decadência portuguesa. Tudo o que sobreveio depois de 1580 é visto apenas como um longo estertor, em que se debate inutilmente um indivíduo condenado, seguido da decomposição do corpo social já sem vida própria. E mesmo antes, desde D. Manuel, longos trechos dos capítulos trazem prefigurações da desgraça, de que Alcácer-Quibir é apenas o desenlace formidável. Assim se passa com a descrição da descoberta e conquista da Índia, em que o narrador atento vai desvendando aos leitores os crimes portugueses e os sinais da punição iminente.
A título de exemplo, veja-se como termina por tratar o naufrágio da nau de D. Paulo de Lima, em 1589.
Num primeiro momento, identifica na própria descrição do navio, os desmandos da empresa colonial, movida pela cobiça, que fizera decair lamentavelmente a arte náutica portuguesa:
A abundância da pimenta e uma economia mal entendida tinham exagerado as dimensões dos navios, ainda por cima agravadas pelo excesso das cargas. Era funesta uma cobiça, causa de tantas vítimas; mas o mal vinha de longe, desde o reinado de D. João III. Os navios, mal desenhados, de muito porão, e, por cima de tudo, abarrotados, não obedeciam ao leme, e eram ronceiros....
Naufragada a nau, cujo desastre ocupa doze páginas muito impressionantes, o símbolo se explicita: “A viagem da Índia não terminou aqui. O Império submergiu-se, mas os salvados foram arrastando ainda, pela arenosa costa, uma vida de miséria e perdição...”
E com a descrição da agonia dos poucos sobreviventes daquele desastre, narra-se a agonia da empresa das Índias e do próprio Portugal:
Essa louca viagem, sem pilotos hábeis, terminava por um breve naufrágio; e os mares que, no século XV, nós vencemos com tamanha audácia, vingavam-se, no XVI, do nosso atrevimento. Rasgáramos as nuvens do Mar Tenebroso; mas, para além dos seus confins, fomos perder-nos no seio dos nevoeiros prognosticados pelos geógrafos árabes, no meio das trevas da nossa perversidade. A natureza ofendida punia-nos com a morte; e o destino implacável retribuía-nos todos os males com que tínhamos flagelado o próximo. [Cito segundo a edição da Guimarães Editores. Lisboa, 1991.]
Essa passagem permite, de imediato, identificar dois procedimentos básicos e recorrentes ao longo da obra histórica de Oliveira Martins.
Em primeiro lugar, o recurso muito notável de simbolizar em acontecimentos particulares as grandes tendências ou transformações de um universo mais amplo, classista ou nacional. Todo o seu livro da História de Portugal é montado sobre esse procedimento. O terremoto de Lisboa são as reformas do Marques de Pombal. Cabral e o Gama são a exploração material e pérfida da Índia. Albuquerque e D. João de Castro, a sua face genial e correta, embora inadaptada à realidade do tempo. D. João VI, por sua vez, é o emblema de 200 anos de decadência praticamente ininterrupta, representante quase póstumo de uma dinastia (...) de reis doidos ou ineptamente maus”. Oliveira Martins cruelmente o representa assim, pelas ruas de Lisboa:
pesado, sujo, gorduroso, feio e obeso, com o olhar morto, a face caída e tostada, o beiço pendente, curvado sobre os joelhos inchados, baloiçado como um fardo entre as almofadas de veludo dos velhos coches dourados de D. João V, e seguido por um magro esquadrão de cavalaria.
Em segundo lugar, aquele trecho nos revela um enfoque interessante da questão da decadência na obra de Oliveira Martins: a ideia de que ela seja, entre outras coisas, a expiação de crimes anteriormente cometidos.[1]
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