sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Os quatro estômagos do leitor e a verdade

Enquanto esperava uma amiga para almoçar, reli umas páginas de Esaú e Jacó. E parei, mais uma vez, neste trecho:

“O leitor atento, verdadeiramente ruminante, tem quatro estômagos no cérebro, e por eles faz passar e repassar os atos e os fatos, até que deduz a verdade, que estava, ou parecia estar escondida.”

Nesta frase, chama a atenção a modalização final: “ou parecia estar escondida”.

Dante dizia que o leitor devia descobrir a verdade oculta sob o véu dos seus versos estranhos. A ideia é que há algo que se vê e algo sob o que se vê, que o leitor tem de descobrir. Na Idade Média, a forma de ler os textos sagrados distinguia quatro sentidos — o literal, o alegórico, o moral e o anagógico. A ousadia de Dante foi reivindicar para o próprio poema (que além de tudo era escrito em língua vulgar) esses quatro níveis. Ou seja, a ideia de que o poema não se esgotava no que dizia literalmente e podia conter, no final, uma verdade transcendente.

Aquela passagem me fez evocar os quatro sentidos reivindicados por Dante para o próprio poema. Com um complicador: a ruminação machadiana traz a operação para o chão da prosa. O que o leitor faz passar e repassar pelos estômagos do cérebro não são símbolos sagrados ou mistérios da alma, mas “atos e fatos”.

Voltando ao começo desta divagação, eu diria que a modalização de Machado introduz um aspecto moderno: a verdade pode estar escondida, mas pode também apenas parecer escondida. Ou seja, pode ter estado o tempo todo diante dos olhos. O sentido da leitura atenta já não é, como em Dante, arrancar um véu que encobre a verdade. O leitor pode já ter visto aquilo que só depois reconhecerá como verdade.

Me ocorreu ainda que talvez seja esse um dos procedimentos centrais do romance. A verdade dele não precisa ser secreta, nem profunda. Muito menos transcendente. Pode ser banal. Pode ter sido exposta desde a primeira página. Mas mesmo atos e fatos banais, ao passarem uma e outra vez pelos quatro estômagos do cérebro, adquirem outra forma. Não porque revelem alguma coisa que estivesse por trás deles, mas porque a ruminação os dispõe de outra maneira. Respeitando a metáfora, o alimento é o mesmo; é a ruminação que lhe dá outra forma.

Nesse caso, os fatos continuam onde estavam. A primeira leitura lhes deu uma determinada conformação; a ruminação pode dar-lhes outra. Ao passar e repassar pelos mesmos atos e fatos, o leitor pode reconhecer aquilo que já estava à vista e que, na primeira passagem, não viu.

No limite, porém, é possível imaginar que o efeito do romance seja produzir no leitor a própria ruminação, o empenho em encontrar uma verdade. Se ao fim há uma verdade a deduzir, ou apenas um leitor que não para de procurá-la, já é outra questão.

 

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