sábado, 12 de setembro de 2026

De onde vem a voz de um poeta?

  (Texto lido no dia 11 de setembro de 2026, no Espaço Jabuti da Bienal do Livro de São Paulo)


Quando me convidaram para esta conversa, enviaram-me uma ementa muito bonita, que começava com uma pergunta: “O que faz com que reconheçamos a voz de um poeta em meio a tantas outras?”

Depois vinha uma coisa um pouco mais complicada para mim: a ideia era que eu falasse de criação, tradição, do trabalho por trás do poema. Portanto, naturalmente, que falasse também dos meus poemas.

A primeira parte da pergunta me interessou mais: de onde vem a voz de um poeta?

Porque há poetas que reconhecemos quase imediatamente. Às vezes bastam dois ou três versos.

“A vida inteira que podia ter sido e que não foi.”

“Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.”

“Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas”

 

“Bebi o café que eu mesmo preparei,

Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando…

— Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.”

Isto, para quem leu uma vez Bandeira, dificilmente poderia ser de outro poeta.

Mas por quê?

Não é apenas o vocabulário. Bandeira pode usar vocabulário distinto conforme o momento em que escreveu. Tampouco é o assunto. Ele escreveu sobre infância, doença, desejo, morte, cidades, mulheres, cenas de rua, notícias de jornal.

Mesmo assim, em quase todos eles alguma coisa permanece.

Talvez “voz” seja apenas o nome que damos ao que permanece como traço de identidade, por falta de outro melhor.

Prosseguindo no exercício, com este poeta acontece outra coisa:

“trabalhas sem alegria para um mundo caduco,

onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.

Praticas laboriosamente os gestos universais,

sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.”

 

“Que vai ser quando crescer?

Vivem perguntando em redor. Que é ser?

É ter um corpo, um jeito, um nome?

Tenho os três. E sou?”

O curioso é a mistura de inteligência reflexiva, sentimento de inadequação e humor. A ironia, aqui, não elimina o sentimento: é frequentemente a maneira pela qual o sentimento consegue aparecer sem se tornar sentimental. O sujeito parece observar o mundo e simultaneamente observar a própria dificuldade de estar nele. Esse é o toque de Drummond.

E de novo: nós reconhecemos alguma coisa muito característica.

Mas reconhecemos o quê? Uma voz, um conjunto de temas?

Vejamos agora um terceiro:

“Belo porque tem do novo

a surpresa e a alegria.

Belo como a coisa nova

na prateleira até então vazia.

 

Como qualquer coisa nova

inaugurando o seu dia.

Ou como o caderno novo

quando a gente o principia.

 

E belo porque com o novo

todo o velho contagia.

Belo porque corrompe

com sangue novo a anemia.

 

Infecciona a miséria

com vida nova e sadia.

Com oásis, o deserto,

com ventos, a calmaria.”

 

Em Cabral é mais fácil apontar procedimentos. O substantivo, a comparação que se prolonga, a recusa da palavra vaga, o objeto que vai sendo examinado por aproximações sucessivas. Temos a impressão de conseguir ver como aquilo foi feito. É uma voz insistente, aguda, demonstrativa.

E este outro?

            (entre zunidos

            de serras entre gritos

            na rua

            entre latidos

            de cães

            no balcão da quitanda

        no açúcar já-noite das laranjas

                    no sol fechado

        e podre

                aquela hora

        dos legumes que ficaram sem

        vender

        no sistema de cheiros e negócios

        do nosso Mercado Velho

                    — o ronco do

                        avião)

Aqui encontramos um momento em que uma percepção física muito concreta se abre subitamente para outra dimensão, sem perder a materialidade. Se eu projetasse o poema, veriam que a forma não é usual: as palavras aparecem distribuídas no espaço de uma maneira que precisamos interpretar.

A voz de Gullar parece crescer, acumular, acelerar. A de Cabral parece um exercício de controle sobre uma matéria rebelde. Bandeira parece muitas vezes conversar conosco, até que de repente nos comove, nos puxa para dentro do cotidiano e ali encontra uma fagulha de vida ou de beleza. Drummond é analítico e seu pensamento parece sempre superar a dificuldade inerente ao ato de dizer e se comunicar.

Estou simplificando, é claro. Mas a simplificação revela como é difícil enfrentar a pergunta.

Poderia tentar, como fazem alguns professores, definir a voz identificando alguns procedimentos poéticos dominantes em cada um. Mas isso não nos daria a voz, apenas — para manter a analogia — o aparelho fonador.

A resposta está em outro lugar. Porque vejamos: nenhuma dessas vozes nasceu do nada. Nasceu de outras vozes.

Além de todos os poetas vivos ou mortos que cada um deles leu, é importante dizer que Drummond leu Bandeira. Cabral leu Drummond e Bandeira e passou boa parte da vida definindo também aquilo que não queria fazer. E Gullar leu todos os três.

No limite, então, a voz de um poeta vem da tradição. Porque todos nós, os pequenos, assim como os grandes, começamos a escrever num mundo já cheio de poemas.

É como se, em cada momento histórico, tivéssemos à nossa disposição muitos dos mesmos metais. Cada poeta escolhe alguns, mistura-os em proporções diferentes, produz a sua liga. Mas mesmo as ligas podem ser semelhantes. O que as torna diferentes é a têmpera, o tratamento a que são submetidas.

É por isso que às vezes prefiro falar na têmpera de um poeta. O amálgama pode ser semelhante, mas o que torna cada uma singular é o tratamento que recebe  após a fundição. Se há originalidade, ela não está na matéria: está nesse tratamento, no que cada um faz com o que todos herdaram.

Mas antes de tudo vem a tradição, e não a originalidade.

Quando somos muito jovens, a tradição pesa menos. Há uma espécie de inconsciência necessária. Escrevemos porque queremos escrever. Encontramos uma coisa que nos parece nova e durante algum tempo conseguimos não perceber quantas vezes ela já foi encontrada.

Depois lemos mais. E aí o nosso amor-próprio sofre, porque descobrimos que quase tudo aquilo que havia para descobrir já foi descoberto por alguém muito melhor do que nós.

É o que Eliot nos diz, de uma forma particularmente dura, num dos seus Quatro quartetos:

“And what there is to conquer

By strength and submission, has already been discovered

Once or twice, or several times, by men whom one cannot hope

To emulate.”

Ou seja:

“E aquilo que há para conquistar

pela força e pela submissão já foi descoberto

uma ou duas ou várias vezes, por homens com quem não podemos esperar

rivalizar.”

Acho que qualquer pessoa que tenha passado alguma parte da vida lendo e escrevendo poesia conhece essa sensação.

No caso do Brasil, a gente começa a escrever e Bandeira está lá. Drummond está lá. Cabral está lá. E tantos outros.

O que fazer?

Essa pergunta me interessa mais do que a pergunta sobre como alguém “encontra a própria voz”.

Porque nunca tive a impressão de ter saído à procura de uma voz. Saí à procura de poemas. Mas outras vozes comparecem na minha. Por exemplo, neste poema:

DIA DOS PAIS

Deitado no chão aos 57

anos de idade: uma pedra, o xaxim,

o trevo humilde e o céu

sem uma nuvem.

Esta é uma cidade grande.

Os prédios sobem no ar de domingo,

as pombas voam, o eco dos motores

se ergue atrás dos edifícios.

Tento alinhavar o que vejo,

o que percebo,

deitado no ladrilho.

Pequenos seres se movem na terra ao lado do meu rosto.

O cheiro do pó, das folhas de trevo, que arranco

para mascar o caule,

embala.

O cachorro se deita ao meu lado.

Apoia a cara no chão, suspira.

Em breve fecha os olhos

sobre o ladrilho fresco.

A tarde ainda vai a meio.

O céu sem fundo continua azul.

Em breve também eu

poderei fechar os olhos

em repouso.

Que este momento perdure

e ainda que apagado reste,

como aceno, vislumbre, promessa silenciosa

de retorno.

Eu tinha escrito esse poema um pouco mais longo.

O cachorro tinha um espaço maior. Mas assim que escrevi, ainda deitado no chão, cortei os versos que me pareceram excedentes, reduzindo ao essencial.

E qual era o essencial? Além da vontade de registrar aquele momento, imaginando que em breve eu escreveria sem meu pai, que já estava combalido, eu me consolara incorporando uns versos de Goethe, que me impressionaram na juventude.

“Sobre todos os cumes,

há repouso.

Nas árvores todas

mal percebes

um sopro de brisa;

caladas, as aves da mata.

Espera: logo

repousarás também.”

Não incorporei as palavras de Goethe, mas o seu tom, aquilo que aquele poema me trouxe de emoção, a atitude que ia nele. E, talvez, a objetividade. Alguma coisa daquela experiência de leitura, tantos anos depois, estava presente no modo como eu via aquela tarde e tentava transformá-la num poema. Disse que não incorporei as palavras; mas, relendo, vejo que algumas passaram assim mesmo — o repouso, o fechar dos olhos, o “em breve”. A letra veio junto com o tom, sem que eu percebesse, e é provável que seja sempre assim.

Penso, então, que é assim que uma voz se forma: não por uma decisão de ter determinada voz, nem por uma procura deliberada de originalidade, e sim pelo acúmulo de emoções, de palavras que para nós estão carregadas de sentido porque as encontramos num poema que nos impressionou.

 

Quero agora mostrar outro caso. Já contei a sua história várias vezes: eu passei a noite preparando uma aula de concurso. Um grilo impertinente perturbava a madrugada. Levantei-me da cadeira disposto a cometer um grilocídio, mas percebi que conforme eu me movia e virava a cabeça, o grilo se deslocava pela sala. Então percebi o que acontecia. Foi a lembrança desse episódio que originou este haicai:

Os grilos cantam

Apenas do meu lado esquerdo —

Estou ficando velho.

Aqui aconteceu outra coisa. A sensação encontrou uma forma tradicional: um haicai. No meu caso, nasceu de impulso, de uma percepção que praticamente já veio com a forma. Mas quando o li, vi que tinha embebido da poesia de Bashô, e principalmente da de Issa.

Sempre que escrevo haicai a voz deles me acompanha, o seu jeito de estar no mundo. E isso para mim é bom. Porque não acredito muito na ideia de que amadurecer como poeta seja livrar-se das vozes alheias. O resultado disso seria uma solidão bastante pobre. E há quem se forme sobretudo pela recusa. Cabral, de novo: décadas gastas em definir o que não queria fazer. A metáfora da liga não alcançaria aparentemente esse caso, se supuséssemos que só escolhemos os metais que entram. Mas por vezes o que decide a voz é o metal rejeitado. Afinal, recusar Drummond é um modo de continuar lendo Drummond todos os dias. Quem se define contra um poeta não se solta dele: prende-se pelo avesso. A tradição pesa no que recolhemos e no que empurramos para longe, e é também por isso que dela não se sai.

A questão, portanto, é: o que fazemos com essas vozes que nos marcaram?

Algumas ficam conosco durante décadas. Outras desaparecem. Há poetas que foram fundamentais numa determinada idade e que depois quase deixamos de ler. E há aqueles aos quais voltamos sempre e que, estranhamente, continuam mudando porque nós mudamos.

Há pouco tempo aconteceu comigo uma coisa que mostra isso de outra maneira.

Giuliana Ragusa me presenteou com a sua tradução da “Antologia de Spoon River”, de Edgar Lee Masters. Fiquei pensando naquele livro, que tanto me impressionou, até que um dia peguei o notebook e escrevi, de um fôlego, dezessete poemas. Eram dezessete mortos meus que falavam.

Mandei os poemas para um poeta que estimo, Thomaz Albornoz Neves. Ele leu e me disse que faltava alguma coisa: faltava o meu acolhimento, o meu posicionamento diante do que aqueles mortos diziam.

Aquilo calou em mim, mas não pensei no assunto até que um dia peguei novamente o notebook e escrevi, também de um fôlego, as dezessete respostas.

Relendo o conjunto, percebi que naqueles poemas havia um pouco de vários poetas que amei, de textos que me marcaram, de coisas lidas havia muitos anos e que continuavam em mim.

Um deles é este:

ÂNGELO

De templo em templo, busquei a norma.

O meu corpo em tua mãe teve uma casa só.

O fogo infeliz com os anos foi morrendo

Em faísca esparsa até ser brasa fria.

Quando quis reviver foi só fumaça.

Irascível, teimoso, fui um homem bom.

Angústia, remorso, frustração:

Quem poderia me julgar

Senão o juiz feroz que fui de mim?

Sombra convocada e repelida,

Ainda sou teu pai e és meu menino.

Não me deixas morrer, não queres,

E eu juro que não te abandonarei.

2.

É tua a luz no promontório.

A noite vem e a noite vai,

E o sol de um novo dia, com suas dores,

E outra vez o alívio do sono,

Como um mar escuro.

Meu pai, meu pai, como te deixaria

Morrer em mim? Pela tua memória

Me oriento, por ela velo e renasço,

Como pela estrela se guiaram os três

Até a manjedoura de Belém.

Não saberia dizer agora exatamente de onde vem cada coisa. E nem interessa saber.] Depois de tantos anos lendo poesia, as vozes alheias já não estão fora de nós. Fazem parte da matéria com que escrevemos.

Mas esse poema, escrito aos setenta anos de idade, me coloca também diante de uma pergunta diferente daquela que eu teria feito aos vinte ou aos trinta anos.

A pergunta agora é: o que significa continuar escrevendo?

Volto aqui ao Eliot, porque além daqueles versos bastante desanimadores, ele escreve:

“Old men ought to be explorers

Here or there does not matter

We must be still and still moving.”

Ou seja:

“Os velhos devem ser exploradores.

Aqui ou ali, não importa.

Devemos estar imóveis e continuar em movimento.”

Gosto muito desses versos. A esta altura da vida, felizmente não tenho mais a ambição juvenil de descobrir sequer uma ilha, quanto mais um continente novo. Basta-me explorar com olhos livres os arredores, neles reconhecendo as linhas que costuram o presente ao passado.

Mas ainda assim continuo explorando: uma palavra, um ritmo, uma forma, um tom. E penso que podemos voltar agora à palavra do começo, porque uma voz me parece isto, afinal: o rastro que essas explorações vão deixando em versos e em anotações.

Nós não precisamos ouvi-la enquanto escrevemos. Ela se forma em nós. Talvez outros a ouçam e um dia digam: era a voz de Fulano. Talvez nunca seja ouvida isoladamente, faça apenas parte de um pequeno ou de um grande coro.

Enquanto temos tempo, resta fazer o que Eliot recomenda aos velhos, que agora eu traduziria ou adaptaria assim:

“Devemos estar quietos e ainda em movimento.”

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