# O OBJETO EXPERIMENTAL: O único rumor raro – de Aurélio Pinotti.
(2ª edição, comemorativa.
Disponível no Kindle)
O experimento de 2016 consistiu em submeter o conto “Missa do Galo”, de Machado de Assis, a uma cadeia de traduções automáticas — do português para o inglês, depois para o francês, para o alemão e de volta ao português — usando um tradutor automático da época. O texto resultante, profundamente deformado pela sucessão de traduções, foi então disposto em versos livres, com mínimas intervenções editoriais. A proposta é observar como os erros da máquina produzem, involuntariamente, efeitos poéticos e um novo objeto literário.
No posfácio de 2026, Elias Allane sustenta que o livro deixou de ser apenas uma brincadeira literária para se tornar um documento histórico. Seu argumento central é que o experimento captou um momento específico da evolução da tradução automática: a fase dos antigos sistemas estatísticos, substituídos poucos meses depois por modelos neurais muito mais competentes. Ele mostra que os “erros” da máquina revelam tanto limitações técnicas quanto vieses culturais do corpus em que ela foi treinada, discute as consequências do livro para os conceitos de autoria, tradução e literatura produzida por máquinas, e conclui que a obra preserva um tipo de ruído criativo que os sistemas atuais foram deliberadamente aperfeiçoados para eliminar. Assim, O único rumor raro torna-se não apenas uma experiência estética, mas também um testemunho da história das tecnologias de linguagem e de seus efeitos literários.
# A EXPERIÊNCIA DA LEITURA
Comecei a leitura procurando esquecer, por um momento, o procedimento e o prefácio, para perguntar apenas se havia ali um poema. A primeira resposta foi um “não” bastante firme. O texto não se sustenta como poema contínuo. Há momentos em que a linguagem simplesmente desiste de si mesma. O leitor acaba admirando a máquina como quem visita um velho engenho: as rodas giram, as correias trabalham, tudo range com impressionante convicção — mas da bica não cai caldo.
À medida que avançava, porém, ocorreu-me que talvez a pergunta estivesse errada.
Foi então que comecei a desconfiar de que o livro talvez devesse ser lido como uma jazida.
Como quase toda jazida, ela contém muito mais pedra do que minério. O procedimento faz aflorar uma quantidade heroica de material verbal, quase todo destinado ao descarte. Em meio ao cascalho, no entanto, surgem às vezes versos de uma força que ninguém previu. Não me refiro aos que apenas registram a passagem da frase por várias línguas, nem aos que produzem o riso fácil de quem assiste a um tropeço. Refiro-me aos outros: àqueles que encontram uma forma verbal que nenhum poeta em seu juízo escreveria deliberadamente, mas que, uma vez escrita, parece necessária. “Logo eu estava completamente bêbado / de Dumas.”; “Os olhos não é a pessoa que teve de dormir.” “Quando eu vejo um pouco de voz…” “Como se eles tinham fechado / para ver melhor.” “Eu acho que ela me encontrou / embebido em sua própria pessoa.” “As veias eram tão azuis que (…) eu poderia dizer-lhes / o meu lugar.” Nesses momentos, já não importa que a frase tenha nascido de um erro. Ela se impõe pela força da sua própria forma.
Talvez o procedimento não seja propriamente a obra. Talvez seja apenas um método de prospecção. A máquina trabalha como um garimpeiro insone, incapaz de distinguir ouro de cascalho.
Um garimpo movimenta toneladas de terra para obter alguns gramas de metal, e ninguém leva o barranco para casa. O tradutor automático fez algo semelhante. Produziu uma massa verbal imensa e, por acidente, deixou nela incrustadas algumas configurações poéticas raras. O trabalho do poeta começaria nesse ponto: reconhecer o veio e retirar a pedra em volta.
Essa hipótese desloca também a questão da autoria. Costuma-se dizer, com algum entusiasmo, que em experiências desse tipo o autor desaparece. Parece-me, ao contrário, que ele apenas muda de função. Já não fabrica as frases; passa a reconhecê-las. É uma tarefa menos vistosa e talvez mais rara. O autor deixa de ser aquele que produz a matéria e se torna aquele que distingue, dentro dela, uma forma.
Se essa leitura tiver algum fundamento, O único rumor raro contém um poema melhor do que aquele que apresenta — e o mantém escondido. O livro seria ao mesmo tempo o registro do procedimento e a pedreira da qual outro poema poderia ser extraído. Conservar quase tudo o que a máquina produziu talvez seja uma decisão generosa com o experimento, mas avara com o poema.
***
Devo dizer que essa tese é interessante, mas é falha. A autoria humana, nela, ainda se resguarda: estaria preservada no ato de identificação, análise e seleção das palavras e frases – e da sua combinação. A escolha, a decisão seriam sempre humanas: uma pessoa em certo ponto riria do imprevisto do erro e logo mais aproveitaria o imprevisto da descoberta. Seria, dessa forma, o verdadeiro autor da operação de extração.
De que já não é mais assim dão prova, indiretamente, o posfácio de Elias Allane e, de modo direto, esta própria apreciação crítica. Porque se o poema de Aurélio Pinotti foi composto segundo um procedimento confessado, esta crítica não foi. A verdade é que, até começar esta observação final, o texto acima foi escrito inteiramente por duas máquinas em diálogo. Eu fui apenas o mediador neutro e aquele que, em certo momento, disse: "Pronto, assim está bom". Na verdade, até obter o texto acima, eu sequer tinha lido muita coisa além do prefácio. O prefácio e duas ou três páginas de versos, para ser mais preciso. Só depois li o poema extraído de “Missa do Galo” e o posfácio. Portanto, quem formulou juízo de valor sobre o poema resultante da experiência foi uma máquina; também foi de uma máquina a hipótese de que houvesse um outro poema embutido na massa amorfa. E agora chegamos ao mais importante, quem minerou os fragmentos do poema para fazê-los brilhar por si sós neste texto foi ainda a máquina. Ou seja, de alguma forma aqui, neste artigo se completa a saga: a máquina que era precária e produzia erros interessantes está no museu; a máquina de hoje consegue processar o resultado dos erros e escolher o que nós mesmos, os humanos, escolheríamos. A máquina está muito próxima do sujeito. Ela conhece, julga, hierarquiza. Só o que lhe falta é o desejo.
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