Percorro um livro sobre Fernando Pessoa. Seu autor diz, no prefácio, que o estudo “pretende oferecer uma panorâmica da sua obra, tal como hoje é conhecida”. Acrescenta, a seguir, que o que intentou fazer foi “desenhar as suas linhas principais, como as diferentes relações entre os autores inventados, ou a importância da História em toda a cena, procurando fundamentar tudo nos textos de Pessoa”.
Duzentas páginas adiante, o livro termina com este parágrafo: “A obra de Pessoa vai-se transformando, ao longo de mais de trinta anos, em torno das questões essenciais: o autor, o leitor, a personagem, o livro, a ficção, a realidade. As personagens de autores que põe em cena podem variar em termos de definição conceitual, mas mantém-se sempre vivo o efeito da heteronímia. E sua complexidade é tornada simples pela limpidez da escrita.”
Desse misto de historiografia literária centrada num autor e biografia intelectual, algo está ausente: o texto. O autor envereda pela discussão da mitologia heteronímica, dispondo em volta dela alguns tópicos e temas. Embora haja um capítulo denominado “A revolução da linguagem poética”, há ali pouco estudo da linguagem poética e menos ainda do que seria a revolução anunciada. O que temos é um carteado com categorias amplas como Simbolismo, Futurismo e Decadentismo, distribuídas de modo convencional, sem que se examinem os traços dos poemas que justificariam essas classificações.
Dessa maneira de se aproximar da figura de Pessoa resulta o esperado: a forma dos poemas, o que faz deles poemas, desaparece. Tudo se passa como se a “mensagem” que nos trazem independesse do modo como chega até nós. Poderia empilhar os exemplos de versos transcritos para que deles se extraia uma proposição vaga ou um exemplo daquilo que o discurso histórico vai precisando a cada passo. Uma complexidade tornada simples pela limpidez da escrita? Não parece uma fórmula para definir o desenho da obra de Pessoa. Mas talvez seja o objetivo do autor: escrever de maneira límpida e simplificada sobre a complexidade que tem pela frente — os textos de Fernando Pessoa.
Nesse percurso acelerado pelas estações do costume, não espanta que o autor leia o soneto “Abdicação” sem desenvolver nada além do previsto na receita: a despersonalização. A ética da abdicação, de que nos fala Pessoa num fragmento, não comparece. E mesmo a carta que acompanhou o poema, quando foi enviado a Mário Beirão, em que Pessoa conta que o compôs sob o efeito do terror de uma súbita tempestade, não rende nada. Tampouco o contraste entre a agitação do poeta e o tom calmo dos versos. Menos ainda a circunstância de esses versos serem um soneto.
Por fim, o que esperar quanto à forma de apresentação das ações no poema, marcada pela divisão espacial do segundo verso? A essas minúcias não desce o analista, o que seria justificado pelo seu ponto de vista generalizante e mitológico. Mas justamente isso me interessa como caso típico: tomar poemas como declarações ou apenas lugares de aparição de um tema.
Não é um soneto simples. As rimas, por exemplo: “Rei”, “abandonei”, “entreguei”, “deixei” — a condição inicial e os três verbos que descrevem o abandono dos atributos da realeza. Outra série reúne “braços”, “cansaços”, “lassos”, “pedaços”: o acolhimento pedido à Noite, o esgotamento que caracteriza o trono abandonado, o peso da espada e a fragmentação das insígnias do poder. Nos tercetos, a inutilidade da cota de malha rima com a futilidade das esporas, e “alma”, que completa o despojamento, rima com “calma”, atributo da Noite a que se regressa. A própria distribuição das rimas acompanha, portanto, o que o soneto narra.
O espaço em que transcorre a ação também é cuidadosamente distribuído. O poema começa com uma invocação à Noite, interrompida no segundo verso por um grande branco gráfico, depois do qual o sujeito se declara rei. Segue-se então o relato da abdicação: primeiro o trono, depois a antecâmara, por fim a escadaria. A cada estrofe, o movimento se afasta do interior do palácio. No último terceto, já despido da realeza, o sujeito declara seu regresso à Noite antiga e calma. A invocação inicial encontra aí seu complemento.
É notável a combinação dos tempos verbais. O presente da invocação (“Toma-me”, “chama-me”) abre o poema; o passado domina o relato da abdicação (“abandonei”, “entreguei”, “deixei”); e o último terceto, embora mantenha o passado em “Despi” e “regressei”, conduz a uma imagem sem tempo determinado: “Como a paisagem ao morrer do dia”. O movimento que se iniciou com uma decisão voluntária termina numa comparação com o desaparecimento natural da luz. A abdicação do rei se completa na imagem do anoitecer.
Haveria ainda a comentar a entrega da espada a mãos “viris e calmas”, em contraste com os braços “lassos” daquele que abdica, e a decisão de quebrar o cetro e a coroa, em vez de simplesmente abandoná-los. Também mereceria atenção o uso das maiúsculas em “Rei”, “Realeza” e “Noite”, que aproxima a figura do soberano de uma condição alegórica. E há o desnível entre a frase que ocupa o começo do segundo verso e aquela que aparece depois do espaço em branco: “E chama-me teu filho” / “Eu sou um Rei”. De um lado, o pedido de acolhimento; do outro, a afirmação de uma identidade que o próprio poema se encarregará de desfazer.
Sei que, para o ponto de vista adotado pelo autor, desenvolver essa análise pareceria pouco razoável. Fugiria ao escopo do livro, talvez dissesse. E seria uma objeção aceitável, caso se tratasse apenas de exigir de uma introdução panorâmica o comentário detido de cada poema mencionado. Mas justamente esse é o ponto: como escrever sobre um poeta, ainda mais um de espécie tão complicada, sem nenhuma análise ou comentário mais demorado que permita apoiar ou pelo menos fazer compreender as afirmações sobre “a revolução da linguagem poética”? Seria realmente um dado assente que Pessoa promoveu uma revolução da linguagem poética? Portuguesa? Internacional? E em que consistiria essa revolução, quando consideramos, por exemplo, um soneto de construção tão rigorosa, que trabalha com uma forma herdada, em vez de procurar ostensivamente rompê-la?
Tal como foi escrito, o título é perfeito: Introdução ao Estudo de Fernando Pessoa. Não à poesia de Pessoa, mas ao “caso” Pessoa, às pessoas de Pessoa. O resto é literatura.
Referência
MARTINS, Fernando Cabral. Introdução ao estudo de Fernando Pessoa. Cotia: Ateliê Editorial, 2017.
Texto do soneto:
Toma-me, ó Noite Eterna, nos teus braços.
E chama-me teu filho.
Eu sou um Rei
Que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.
Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mãos viris e calmas entreguei;
E meu ceptro e coroa, — eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços.
Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas, de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.
Despi a Realeza, corpo e alma,
E regressei à Noite antiga e calma.
Como a paisagem ao morrer do dia.
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