sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O inquietante estranho incômodo infamiliar

Li, nesta semana, duas traduções do conto "O homem da areia", de Hoffmann. A primeira, no volume O infamiliar, em tradução de Romero Freitas. A segunda, em edição da Ubu, em tradução de Marcella Marino M. Silva e José Feres Sabino. Eu tinha lido esse conto há muitos e muitos anos, em edição que não consegui localizar.
Confesso que tive muito desprazer lendo, nesse volume, a tradução do ensaio de Freud que lhe dá título. Não sei qual o propósito dos tradutores do ensaio, mas o texto retorcido em português, a pontuação estranha, a construção da frase tornam a leitura penosa. O mesmo se passa com a tradução do conto de Hoffmann: não tem ritmo em português, é duro de ler, difícil de compreender. Na verdade, foi um choque: eu tinha a lembrança de que o conto era excepcional, pois tinha ficado impressionado a ponto de sonhar com Nathanael. Pensei então: seria possível que minha leitura adolescente fosse tão diferente da de hoje?
Li, então, a outra tradução e tudo pareceu voltar ao seu lugar: foi um renovado prazer passar de novo pela história, vendo desdobrar-se os muitos planos da narrativa por meio do prisma dos pontos de vista. Entretanto, ali há problemas de outra ordem: uma troca de nome de personagem,que altera a interpretação geral da obra; uma errada atribuição de pessoa numa cena decisiva… São erros de consequências muito relevantes. Entretanto, como objeto de leitura, é, de resto, superior.

Retornando à tradução do conto no livro O Infamiliar, creio que um dos seus muitos problemas nasce da subordinação do conto ao texto de Freud. Não vou discutir longamente a escolha de "infamiliar". Embora na moda, revestida da aura de rigor técnico, me parece muito problemática. A ambivalência que Freud examina está em heimlich, palavra que em alemão vai do doméstico e do íntimo ao escondido e ao secreto, até coincidir com o seu contrário; unheimlich, como o próprio Freud registra, só se usa como oposto do primeiro sentido. Ora, "familiar" não significa em português corrente "oculto", de modo que o neologismo conserva da palavra alemã apenas a morfologia, e uma morfologia sem uso. No ensaio, onde a palavra é objeto de análise, isso ainda se compreende. No conto de Hoffmann, porém, unheimlich é palavra corrente, não termo técnico. Por isso, quando o tradutor do conto decide usar "infamiliar" toda vez que aparece unheimlich no texto alemão, o resultado é canhestro. Parece claro que, ao longo do texto de Hoffmann, as seis ocorrências dessa palavra (em frases que nenhum leitor alemão estranharia) têm modulações. Ora significa algo como sinistro, suspeito, estranho, ora inquieto, angustiante. Em português lemos "infamiliar assombração", "infamiliares atividades", "infamiliar poder", "senti algo muito infamiliar", "Olímpia tornou-se totalmente infamiliar para nós" e "Olímpia talvez possa ser infamiliar para vocês". E Freud, que no ensaio resume o conto e cita várias de suas falas, não se detém em nenhuma dessas ocorrências: o que lhe interessa é o enredo, os olhos arrancados, a figura do Homem da Areia, não o vocabulário do narrador. Mais ainda: Freud afirma expressamente que a boneca Olímpia não é a principal fonte do efeito do conto, e observa que o próprio Hoffmann dá ao episódio uma leve inflexão satírica, de zombaria contra a idealização amorosa do estudante. Ora, duas das seis ocorrências recaem justamente sobre Olímpia. A tradução sublinha o termo freudiano no episódio que o próprio Freud considerava secundário. Submete-se, assim, a uma coerência terminológica que nem Freud exigia do conto. Não consigo imaginar forma mais efetiva de estragar um texto submetendo-o a outro. 

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