domingo, 22 de fevereiro de 2026

Sobre Camilo Pessanha


 Este é o primeiro texto sobre Camilo Pessanha da série planejada. Trata-se, na origem, do roteiro para uma entrevista: Francisco Frederico, da Radiodifusão de Macau, enviou-me algumas perguntas que me pareceram tão pertinentes e estimulantes que resolvi redigir as respostas com cuidado. É claro que, na hora da gravação — e principalmente em razão do meu declarado horror à câmera —, tudo saiu bem diferente do planejado. De qualquer forma, é o texto dessas perguntas e respostas que publico aqui.


 

 

ENTREVISTA CONCEDIDA A FRANCISCO FREDERICO

 TDM - Teledifusão de Macau

 


1 - Camilo Pessanha é muitas vezes descrito como um poeta singular. Em termos literários, o que o torna realmente decisivo na poesia portuguesa?

Ele é decisivo porque desloca o centro de gravidade do poema: não parte de uma ideia, de um argumento, de uma tese moral ou política — parte de uma percepção instável, de um afeto que se desagrega ou se coagula enquanto se enuncia. O poema se apresenta como uma tentativa de fixar, por instantes, uma experiência que é sempre a de uma perda. A isso se soma o trabalho de linguagem (a concentração, o corte, a elipse, a sintaxe que parece sempre a meio caminho do fechamento) que cria uma dicção muito própria, resistente aos protocolos oitocentistas de leitura da poesia. É uma poesia ao mesmo tempo fluente, musical, quase evanescente e impactante pela concretude das suas imagens. Coisas que juntas se acham raramente.


2 - Clepsidra é um livro pequeno em dimensão, mas enorme em influência. Onde está exatamente essa força?

Antes de responder, vale desfazer um equívoco: o que chamamos Clepsidra não é um livro no sentido de uma obra desenhada pelo próprio poeta. É o nome que damos ao conjunto de poemas que os editores conseguiram tardiamente reunir a partir de autógrafos e publicações esparsas. Dito isso, a força desses poemas está no modo como a poesia de Pessanha presentifica uma crise de forma. A melancolia organiza a respiração do verso e responde pelo contraste entre a linha sonora consistente e encantatória e a tensão das imagens quebradas ou em rápida sucessão. O nervo da sua poesia é exatamente essa tensão entre o que se quer dizer e o que a língua não consegue, ou não ousa, sustentar.

Nos seus poemas, uma imagem não ilustra algo: ela governa o verso e faz luzir uma verdade própria, que nunca é só sensória nem apenas intelectual. Isso confere ao conjunto a densidade que lhe permitiu resistir a tantas gerações e modos de leitura — em parte porque é difícil assimilá-lo a um padrão de gosto. Há ainda um dado histórico decisivo: embora quase toda a sua poesia tenha sido escrita no século XIX, só foi reunida em volume e circulou de fato nos anos 1920, quando encontrou eco efetivo e cultores de peso. Foi lida e assimilada, portanto, já numa chave de leitura informada pelas vanguardas, o que lhe conferiu uma segunda vida e uma segunda força.


3 - Em que medida a poesia de Pessanha antecipa a modernidade literária do século XX?

Pessanha não "antecipa" a modernidade do século XX no sentido de se adiantar ao próprio tempo ou profetizar o futuro. Pode-se dizer que cria condições para ela, mas isso também não seria muito exato. O mais preciso é entender que a modernidade reconheceu em Pessanha uma espécie de membro mais velho da família e o incorporou como precursor — o que é diferente: não é ele que se move em direção ao século XX, é o século XX que o encontra no caminho e percebe a afinidade.

O traço comum é a desconfiança da lógica e da efetividade do discurso, combinada com a recusa da segurança do automatismo formal. A modernidade literária, nas suas várias formas, se alimenta de uma dupla constatação: a linguagem não é um instrumento neutro e o sujeito não é um centro firme ou unificado. Em Pessanha, isso aparece como temor e tremor: a frase hesita, tenteia; o verso experimenta os limites; as imagens são ao mesmo tempo concretas na sua irrupção e evanescentes na sua forma de sucessão ou abandono; a unidade do "eu" é continuamente corroída pela reflexão, pela sensação de deslocamento ou pela irrupção dolorosa da memória. A experiência básica que organiza o seu poema é a da fragilidade da palavra e do sentido, e isso é muito moderno.


4 - Pode dizer-se que Pessanha escreve já contra a tradição do seu tempo?

Não creio. Talvez se possa dizer isso, mas com uma grande cautela: ele não escreve "contra" como quem faz programa. Desloca o verso e o poema por dentro. No seu tempo chegou até a ser considerado um mau versejador, dado a deslizes métricos. Mas, de modo geral, mantém formas reconhecíveis e certo tom emocional comum à época, enquanto recusa tanto a segurança das formas rigidamente tradicionais quanto a celebração da poesia como cristalização de um momento de plenitude ou derramamento lírico.

Se no seu tempo se pressupunha que o poema podia transformar sofrimento em poesia — operando a triunfante conversão da perda em ganho estético — ou que bastava a boa execução formal para garantir o sucesso, Pessanha caminha em outra direção: faz da poesia um lugar onde se registra o esgotamento das formas tradicionais, sua insuficiência para dar conta do sensório ou fixar um estado de espírito. É menos um movimento de contraposição do que uma experimentação dos limites: a tradição corroída em surdina, sem alarde e sem manifesto.


5 - A ligação de Pessanha a Macau é frequentemente evocada, mas nem sempre bem compreendida. O que é que Macau representa, de facto, na sua poesia?

Macau não comparece nos seus textos de prosa ou verso apenas como cenário exótico que repele ou seduz. É antes uma experiência de deslocamento — o lugar onde se mede o custo do afastamento do húmus natal. Pessanha entendia que o exotismo pode dar boa prosa, mas nunca boa poesia; que os poetas — especialmente os portugueses — eram como o mítico Anteu, que recebia sua força do contato com a mãe terra. No caso dos portugueses, com o seu exíguo torrão natal. Daí, talvez, os pouquíssimos versos em que tematiza algo da sua experiência de vida no Oriente.

No meu entendimento, Macau funciona como laboratório da nostalgia: ali, para "estar em Portugal", não basta lembrar, é preciso abstrair do real, fazer violência aos sentidos, criar uma ilusão contra os dados sensíveis do mundo. Consequentemente, valorizar ao máximo o que há de português no território. Essa operação é decisiva para compreender a poesia: a atmosfera de distância não nasce do "Oriente", nasce da sensação de desenraizamento e da necessidade de fabricar, na linguagem, um solo perdido. Macau, nesse sentido, não é cor local nem experiência de exotismo. É um local de tensão máxima e, ao mesmo tempo, o deslocamento mais radical no espaço e um reencontro mítico com o tempo português.


6 - O Oriente em Pessanha é experiência vivida ou construção literária?

As duas coisas, mas em proporções que costumam ser invertidas, conforme se trate de prosa ou de poesia. Há experiência vivida, claro: curiosidade, observação, contato. Mas o "Oriente" que entra no poema ou na prosa de Pessanha entra filtrado por uma dinâmica interior: é algo como uma força que obriga o sujeito a se reorganizar. Algumas leituras insistem no exotismo e perdem o ponto principal: o Oriente é, frequentemente, aquilo de que é preciso abstrair para manter, por momentos, a ilusão ou a verdade de continuar ligado à pátria distante. Daí os rastros temáticos orientais serem tão escassos na sua poesia.

Ao mesmo tempo, não é improvável que a forma de organização da sua poesia tenha se beneficiado (sobretudo porque Pessanha foi retrabalhando ao longo da vida uns poucos poemas) da atividade de aprendiz de chinês e tradutor de poesia chinesa. Na prosa, o Oriente é uma experiência radical de outridade, em que o poeta se equilibra entre a sedução do diferente, a ameaça de perda de identidade e a projeção das suas angústias sobre o futuro da própria pátria.

Por isso, a categoria decisiva que estrutura a sua poesia é a distância. "Oriente" é principalmente outro nome para "distância". Distância da pátria e do tempo europeu. Uma distância que termina por ser sempre uma espécie de tempo outro: um passado que não retorna e um futuro que não se realiza, por conta do desenraizamento.


7 - A poesia de Pessanha parece suspensa no tempo, marcada pela perda e pela distância. Essa atmosfera nasce mais da biografia ou da opção estética?

A pergunta é justa, mas o próprio Pessanha torna difícil separar. A biografia fornece a situação-limite (o afastamento prolongado, a ideia de retorno sempre adiado, a vida fora do centro afetivo), mas a atmosfera nasce do modo como isso é metabolizado esteticamente. O essencial é que a perda se transforma em princípio formal: decide o ritmo dos versos, a predileção pela elipse e até o modo de transição entre imagens. Se fosse apenas biografia, teríamos um documento. Se fosse apenas escolha estética, teríamos algo da ordem do ornamento. Em Pessanha, essa atmosfera é o ponto de cruzamento onde vida e forma se tornam indistinguíveis.


8 - Podemos falar de Pessanha como um poeta do exílio, mesmo quando escreve de forma tão interior?

Podemos, se entendermos exílio de modo forte. Exílio, mais do que estar fora ou estar distante da pátria, é a sensação de desenraizamento. Em Pessanha, o desenraizamento torna-se interior porque afeta as condições de percepção e de linguagem: é vivido como dissolução; o sujeito perde substância, espalha-se, e tenta compensar isso por retenção, por fixação. Para usar o seu próprio termo numa carta, por "avareza" — por apego nostálgico. Por isso ele pode escrever de modo muito interior e, ainda assim, ser poeta do exílio. Nele, a marca do exílio é o que organiza a interioridade.


9 - Cem anos depois da morte, porque é que Camilo Pessanha continua a ser lido e estudado?

Não é tão lido e estudado quanto desejável. Creio que sua obra nem sequer integra o programa escolar português. Mas, bem lido, é um poeta que não envelhece, que resiste à moda dos temas e não se deixa encaixar com tranquilidade em nenhuma gaveta da história literária.

O que permanece no contato íntimo com a sua obra é a experiência fundamental que ele sabe fixar: a sensação de que o tempo não passa por fora, mas por dentro e "para nunca mais"; de que a memória é uma forma de reavivar a dor da perda; de que o sentido é sempre precário e não se pode, como ele escreve numa carta, "fixar em dois versos transparentes". A isso se acrescenta uma lição formal rara: como dizer com pouco o suficiente para produzir impacto sensório e emocional; como fazer da elipse um disparo de energia e não uma mera suspensão de sentido.

E há, finalmente, um motivo menos acadêmico: Pessanha merece ser lido porque dá forma nítida a sentimentos difusos que continuam contemporâneos: a distância, a perda, a incapacidade de retornar intacto e de conciliar, a não ser na construção poética, emotividade, sensibilidade, desejo e pensamento.


10 - Que erro mais comum se comete hoje na leitura da obra de Pessanha?

Creio que há dois problemas que aparecem com frequência e empanam a leitura. O primeiro é a leitura exotizante: transformar Macau e o Oriente em decoração, em cenário, e reduzir a poesia a "ambiente". O segundo é o biografismo em sentido baixo: explicar o poema pela vida como se o texto fosse sintoma e não construção. Nos dois casos, perde-se o essencial: o poema como dispositivo formal que transforma uma condição (desenraizamento, nostalgia, esgotamento) em linguagem concentrada. Pessanha não é interessante porque sofreu; é interessante porque encontrou uma forma para o que o sofrimento tem de impessoal.


11 - Se tivesse de resumir Camilo Pessanha numa ideia-chave para um público não académico, qual seria?

Pessanha é o poeta que percebeu uma coisa que todos sentimos, mas raramente conseguimos nomear: o tempo não passa apenas à nossa volta: passa dentro de nós, desgastando memórias, rostos, certezas. A saudade e a melancolia, na sua poesia, não são temas escolhidos; são a própria textura da experiência humana. E a poesia, para ele, é o único gesto capaz de, por um momento, segurar o que está sempre a escapar.

 

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