Amar
e servir o Brasil é uma das melhores formas de ser português:
Jaime
Cortesão – esboço de figura
[Este texto reproduz,
com pequenas alterações, o que integra o volume Missão portuguesa – rotas
entrecruzadas, organizado por Rui Moreira Leite e Fernando
Lemos, publicado pela Editora da Unesp, em São Paulo, em 2003.]
Não posso dar um depoimento sobre Jaime Cortesão.
Afinal, quando ele faleceu, apenas estava chegando, para mim, a hora de aprender
a decifrar as letras. E tampouco o historiador foi uma referência próxima como
outros exilados portugueses, que tanto contribuíram para a cultura comum, como
Adolfo Casais Monteiro e
Jorge de Sena. Apenas tardiamente tomei contato com os seus
textos e vim a saber da sua vida brasileira. Mas desde que pude conhecer-lhe a
obra, foi ela talvez (junto com a de Oliveira Martins)
a presença mais constante na minha atividade didática e de pesquisa sobre a
cultura portuguesa e brasileira.
Ao perceber que Cortesão tinha estudado de modo
tão integrado a história do mundo português dos séculos XVII e XVIII,
pareceu-me desde logo estranho que não tivesse ouvido falar dele logo nos
primeiros anos de faculdade; depois de conhecer melhor a obra, pareceu-me já descabido
que ela tenha ficado tão obscurecida no Brasil a ponto de não haver hoje
disponível edição brasileira de qualquer dos seus livros mais importantes.
Talvez o motivo principal de sua pequena difusão
na universidade brasileira nas últimas décadas resida naquilo mesmo que julgo
sua maior qualidade, pois ao pensar as questões culturais e políticas do
período anterior à Independência como questões portuguesas, Cortesão colocou-se
na contramão de uma corrente ideológica até hoje muito forte e atuante: a que
consiste em repetir a projeção romântica dos ideais nacionalistas e nativistas
sobre o passado colonial. Essa corrente que, durante décadas anos, teve força
suficiente para praticamente banir da universidade brasileira um pensador
nacional de vulto tão grande quanto Gilberto Freyre, parece finalmente estar
perdendo lugar na descrição do período colonial. E, na esteira do sucesso da
crítica da teleologia nacionalista das principais narrativas de história da
cultura brasileira, por certo se desenhará um novo lugar para uma obra tão rica
de questões quanto a do autor de Os descobrimentos portugueses.
Dado
o relativo desconhecimento contemporâneo do vulto humano e das principais
linhas de articulação da sua obra, optei neste texto de apresentação e
homenagem, por apresentar um sucinto panorama da vida e da obra de Jaime
Cortesão, de modo a situar devidamente nele a importância da sua fase
brasileira. No que diz respeito à análise da obra, concentrei-me, pelos mesmos
motivos, no comentário mais amplo, porém não tão aprofundado quanto gostaria de
poder fazê-lo, daquele que considero o trabalho mais importante dos seus
estudos luso-brasileiros: Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid.
Jaime Zuzarte Cortesão nasceu em Ançã, perto de
Coimbra, em 1884 e morreu em Lisboa, em 1960. Formado em Medicina em 1910,
depois de ter seguido por algum tempo o curso de Direito e, antes, o de
Belas-Artes, exerce a profissão por pouco tempo. De fato, já em 1912, que é
também o ano do seu casamento, abandona a carreira médica ao ser nomeado
professor de História e Literatura no Liceu Rodrigues de Freitas, no Porto. Só
voltará a praticar a ciência em que era diplomado por um breve período e em
situação de guerra. Todo o resto da sua vida centrou-se na atividade política,
na literatura e, principalmente, no estudo da história.
Desde 1908, Cortesão fora adepto e militante do
Partido Republicano, pelo qual tentará ser eleito deputado em 1911, por
Coimbra. Posteriormente, quando de sua participação na Renascença, foi diretor
do quinzenário A vida Portuguesa -- órgão do movimento -- e um dos mais
ardentes defensores das Universidades Populares, onde lecionou graciosamente e
proferiu inúmeras conferências.
Durante a primeira Guerra Mundial, em 1915, foi
eleito deputado e marcou a sua atuação com a defesa, pela tribuna e pelos
jornais, da intervenção de Portugal no conflito, ao lado da Inglaterra.
Juntando as palavras ao gesto, alistou-se em 1917 e seguiu para a França como
médico. Tendo participado ativamente dos socorros aos feridos na frente de
batalha, acabou atingido por gases químicos em 1918. Temporariamente cego,
voltou a Portugal e ali foi condecorado com a Cruz de Guerra. Em breve, porém,
defrontou-se com a ditadura de Sidónio Pais, que o encarcerou por três meses em incomunicabilidade
total. Após o assassinato de Sidónio e a conseqüente
alteração do quadro político, Cortesão voltou à ativa, sendo, em 1919, nomeado
Diretor da Biblioteca Nacional de Lisboa.
Foi esse o período mais profícuo da sua vida em
Portugal. No cargo em que permaneceu até 1927, liderou o famoso Grupo da
Biblioteca (composto por Raul Proença, António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Raul Brandão, Afonso Lopes Vieira, entre
outros) e cuidou da expansão do acervo. Foi ainda nesse posto que se empenhou
na oposição ao regime autoritário surgido do golpe de 1926, integrando a Junta
Revolucionária de 3 de fevereiro de 1927. Do ponto de vista da constituição da
sua obra, datam dessa época alguns trabalhos fundamentais, como A expedição
de Pedro Álvares Cabral e o Descobrimento do Brasil (1922), e o artigo em
que inicia uma das linhas mais conhecidas da sua obra histórica: "Do
sigilo nacional sobre os Descobrimentos" (1924).
Com o fracasso do movimento revolucionário de
oposição à ditadura militar, começa o longo período de exílio de Jaime
Cortesão: segue para a Espanha, e daí para a França, onde permanece de 1927 a 1931. Entre 31 e 39,
reside na Espanha, até que a vitória de Franco o obriga a fugir novamente para
a França, onde permanece até o ano seguinte.
Continua aqui: https://a.co/d/0ha0VKjJ
Caro Prof. Franchetti.
ResponderExcluirSeu texto é uma excelente síntese da obra de Cortesão. Li-o faz alguns dias em "A Missão Portuguesa: rotas entrecruzadas" onde foi originalmente publicado.
Estou iniciando um estudo historiográfico da obra de Jaime Cortesão e até então não conseguia compreender sua pouca inserção na academia brasileira, já na primeira página de seu texto pude me dar conta de que o que hoje temos como grande virtude de das interpretações de Cortesão: pensar a história colonial brasileira de forma não anacrônica e inserida no mundo atlântico português, naquele momento onde o nacionalismo ainda era forte em nossa historiografia, era tido como um vício lusofilista.
A forma como associa o tripé de suas teses iniciais também me ajudou a pensar melhor algumas questões, visto que ainda estou no início de minhas pesquisas.
Seu artigo foi de grande ajuda.
Eduardo H. Peruzzo