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domingo, 7 de junho de 2026

A MÁQUINA DE ESCREVER

A MÁQUINA DE ESCREVER

 

Em meados de dezembro de 2025, ocorreu-me uma ideia fatal. Talvez as premissas não fossem corretas, mas se fossem a conclusão seria, porque essa é a natureza dos silogismos.

 

Minha premissa maior era que o gosto médio prefere romances médios. A menor, que a IA, quando produz um texto, é a expressão da média. A conclusão, portanto, seria: um romance escrito por IA cairia no gosto médio. Uma série de outras operações lógicas levava ao sucesso comercial, com a bandeirinha de chegada dos cifrões. A qualidade? Isso era para as coisas que eu escrevesse. Ali se tratava de um experimento apenas. Com essa muleta ética, a empresa estaria justificada. Apresentei a ideia a um amigo, com quem gosto de dividir as cismas. Ele logo se entusiasmou, talvez apenas pelo que nela houvesse de amalucado e de desfaçatez. Fosse pelo que fosse, me animou.

 

Mas aqui a realidade começou a colocar o rabo e as orelhas de fora. As orelhas desde o início, pois se tem algo que a IA não possui é iniciativa. Ela fica ali, à espera de ser chamada, como um cão de guarda em sono leve. Já o rabo era por onde eu puxaria o assunto: romance sobre o quê?

 

Em vez de inventar um enredo brasileiro, perto da realidade que conheço, decidi puxar um mínimo fio autobiográfico, que me mantivesse ligado ao texto como dizem que a alma fica ligada ao corpo, para não o abandonar de todo durante o sono ou a projeção astral.

 

Talvez por isso, me ocorreu o mundo do cinema. Está claro: astros, estrelas, projeção. Isso é cinema. Do cinema passei a um gênero em geral mediano: o policial. E deste ao policial de banca de revista, o romance noir.

 

Os fios biográficos eram dois: eu ter visitado Los Angeles muitas vezes, quando era casado com uma moça judia de lá; e o meu gosto pelas motocicletas. Daí os pedaços de inteira verdade: o encontro com Cole Thayer, em Santa Monica (só o nome dele era outro), e a parte motociclística, quase técnica.

 

Como era preciso mais para que a IA começasse a pensar, ataquei em duas frentes. Na primeira, o treinamento do estilo. Passei-lhe a minha novela, um livro de contos em preparação e alguma prosa ensaística — estilo é estilo —, com a instrução de identificar os traços do meu e guardá-los como base. Feito o alicerce, disse que aquela base devia ser muito temperada: primeiro um filtro de secura e crueza, o que chamei de estilo James Cain; depois uma pitada do tom algo melancólico e elegante de Chandler; se sobrasse uma casquinha sem sabor, podia apimentar com Highsmith. Também cassei o direito de cidade aos tiques que então mais distinguiam o estilo maquinal. Eu contava que isso produzisse um tom neutro o suficiente para não parecer com nada, nem com a máquina.

 

No tópico do enredo, a raiz seria a figura de Marilyn Monroe. O nó a desatar, o seu assassinato. O outro protagonista, um motociclista e mecânico, membro de uma irmandade.

 

II

 

Fiz o primeiro comando: escreva um romance com tal acontecimento e tais personagens. A máquina não começou nada — queria saber mais: nomes, descrição física, idade. A IA no papel ativo de me pedir informação; eu no papel de imaginar a resposta.

 

Conduzi o experimento sem rigor no registro das etapas: procurei as primeiras conversas no Claude e no GPT e não as encontrei — falha que dificulta aferir o resultado do ponto de vista científico. Confesso ainda que os principais detalhes do enredo foram extraídos da minha cabeça por aquelas máquinas, capciosas de tantas perguntas. Mas quero crer que elas também colaboraram bastante.

 

O estilo, porém, ainda estava ruim. A primeira versão do começo me pareceu intragável, empolada de silêncios "densos e elétricos" e de cabelos ruivos que brilhavam "como brasas ainda vivas". As linhas iniciais foram oportunamente decepadas de horrores, mas cresceram, triplicaram de tamanho, ficaram mais bem escritas, embora não descoladas das determinações do gênero.

 

E aqui começa a novidade. Eu me recusava a ler o texto: seria o romance da máquina, e eu o leria só por fragmentos. O procedimento era este: uma cena era composta por uma das máquinas, eu a passava à outra para análise e devolvia os comentários à primeira, pedindo que dissesse no que havia razão.

 

Foi assim que se decidiu a estrutura — dois relatos paralelos, o da investigação e o dos antecedentes — e assim os pormenores do crime, seus motivos e perpetradores. Passei nessa faina obsessiva quase cinco meses.

 

III

 

O trabalho de escrita foi todos das IAs: elas elaboraram os diálogos e os avaliaram. Eu mediei a discussão e dei os comandos a partir do que decidimos ali, nós três –  ou eu decidi sozinho depois.

 

Houve, porém, uma parte toda minha: o ajuste realista. Eu precisava de uma rota motociclística entre Northridge e Santa Monica; da data do incêndio na Biblioteca Pública de Los Angeles; das câmeras portáteis que existiam no tempo da ação; do lugar exato do parafuso de fixação do farol de uma moto de 1947, além de outras minúcias. Sem essa precisão, o estilo desandaria.

 

E preciso ser honesto: as máquinas me forçaram a melhorar o romance. O lado tocante da história de amor, por exemplo, resultou bem. Eu ainda tentei estragar, atribuindo móveis menos nobres à heroína. Elas não deixaram e me convenceram a mudar a clave. Ou seja, o navio corrigiu o piloto e ajustou o leme.

 

Quando li o romance inteiro pela primeira vez, senti que, no gênero escolhido, era bom — ou me parecia bom, por me sentir, apesar de tudo, autor. Enviei em seguida ao amigo cúmplice essa forma primeira. Ele confirmou o diagnóstico do pseudoautor e fez comentários animados sobre as personagens, tendo clara simpatia por Jax. Depois de mais trabalho com as máquinas, que se criticaram à vontade, pude encontrar as melhores instruções para o resultado que buscava. Li o texto refeito e final... e gostei. Enviei a algumas pessoas, que leram com prazer. Vi que funcionava e publiquei; depois, não voltei a ler. De qualquer modo, o livro está na Amazon, com a capa feita do mesmo jeito: a máquina seguindo instruções para imagem, layout e tipografia.

 

Quanto ao silogismo... ou o romance inesperadamente ficou bom, não ficou médio; ou ficou mediano e o público mediano não o descobriu. Há, claro, uma terceira hipótese: sem propaganda, sem editor e sem livro de papel não há público que se apresente para o romance ruim, nem para o médio, nem sequer para o bom. A quem se aventurar na leitura, ficará a última palavra.

 

* * *

 

EM TEMPO E MORAL DA HISTÓRIA:

 

Talvez o experimento tenha sido um fracasso, num sentido específico: acabei por me tornar, meio a jeito de contrabando, o verdadeiro autor do livro, pois o enorme trabalho de seleção entre as possibilidades foi todo meu, assim como os comandos para corrigir e ajustar tom, frase e conteúdo. Há ainda a vaga lembrança de ter trapaceado um pouco, pois, quando li pela primeira vez e identifiquei traços maquinais que as máquinas tinham deixado passar, cortei-os a lápis na folha impressa. E como me tomei de gosto pelo livro, acabei por comandar diretamente — através de centenas ou milhares de prompts — cada pincelada mais significativa em cor, pressão e direção do traço. Ou seja, se fosse outro a tentar escrever com as mesmas máquinas, o resultado não teria nada a ver com o que obtive. Por outro lado, se não fosse a vontade de experimentar, por que diabos eu teria a pachorra de escrever um romance de detetive ambientado em Los Angeles, forçando o enquadramento genérico da narrativa? Por fim, a última pergunta, que não é pergunta de fato, mas apenas exclamação perplexa: e não é que gostei bastante de tudo isso, tanto da experiência quanto do resultado textual?

 

 






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