Convém olhar o circuito inteiro, porque a genialidade do arranjo está em que ele cobra três vezes pela mesma coisa.
Primeiro, cobra do pesquisador para publicar. As chamadas taxas de processamento de artigo, os APCs, vão de algumas centenas de dólares a cifras escandalosas. No grupo Nature chegam a treze mil dólares por artigo. Setenta mil reais para que um texto seu apareça em acesso aberto. O trabalho de avaliação que decide se o artigo presta (a famosa revisão por pares) é feito gratuitamente por outros pesquisadores, convidados pela própria editora, que assim terceiriza e obtém de graça o único serviço que justificaria o nome de "editora científica".
Segundo, a editora se beneficia de um mecanismo que, visto no conjunto, só posso chamar de perverso: a avaliação acadêmica produtivista. E funciona assim: as universidades medem seus professores pelo número de publicações nessas revistas. Quem não publica nelas não progride na carreira e não obtém financiamento dos órgãos estatais ou privados. A consequência é que, no final das contas, o pesquisador termina por precisar da revista mais do que a revista precisa dele. A editora lucra em cima do selo de prestígio que a comunidade acadêmica lhe entregou de bandeja. O conhecimento é produzido pelos pesquisadores; a renda é embolsada pela empresa.
Terceiro, a máfia cobra das universidades para que elas possam ler o que seus próprios professores escreveram. É escandaloso! A CAPES acaba de assinar contratos que somam duzentos e quinze milhões de dólares (um bilhão de reais!) por três anos com Elsevier, Springer Nature e ACM. Só a Elsevier embolsa cento e cinquenta e três milhões de dólares. O Estado paga para que o pesquisador publique, paga o salário do pesquisador que escreve e do que avalia, e paga de novo, em moeda forte, para que a biblioteca da universidade possa oferecer aos seus pesquisadores o resultado.
Chamar isso de máfia pode parecer exagero. Mas não tem algo de mafioso no fato de que uma editora científica cobra pelo acesso a um conhecimento que ela não produziu e apenas sequestrou? Que ela cobra valores absurdos pelo conhecimento produzido com dinheiro público, por pessoas pagas com dinheiro público, avaliado por pares não remunerados, e depois sujeito a um pedágio altíssimo, que a comunidade que o produziu tem de pagar para o reaver? A margem de lucro da Elsevier, por anos, andou na casa dos trinta por cento. Não sei muito de economia, mas creio que nenhum setor produtivo tem esse lucro, nem a indústria farmacêutica. E a Elsevier não fabrica nada, só recebe pronto e controla a distribuição do produto que comercializa.
O acordo da CAPES é apresentado para nós como vitória, como triunfo da comunidade científica. Em parte, é verdade. Se o periódico que eu queria consultar estivesse incluído no Portal, eu leria de graça, sem ter de pagar do meu bolso. Mas a questão é que, nesse caso, eu não pago, meus colegas não pagam, mas as editoras continuam a receber da mesma forma. O bilhão de reais que elas arrecadam apenas sai de outro bolso: deixa de ser o bolso dos pesquisadores individuais e passa a ser o bolso coletivo do orçamento público. O acordo da CAPES torna o custo absurdo invisível para o pesquisador, que o celebra, em vez de o denunciar e combater.
A saída existe, e sabemos qual é. A saída são os repositórios institucionais abertos, são os periódicos geridos pelas próprias universidades. Está aí a SciELO, essa brava iniciativa que nada contra a corrente. E por que não há mais SciELOs? Por que temos de continuar reféns de Elseviers? Hospedar um PDF custa centavos hoje. Por que ainda pagamos absurdos para ler algo que nós mesmos produzimos?
Aí vem a nossa responsabilidade no processo, a nossa conivência: a avaliação acadêmica (especialmente nas ciências duras) continua presa ao prestígio das revistas pagas — e nós, das Humanidades, nos esforçamos por entrar na mesma arapuca!
A verdade é que, enquanto a carreira de um professor depender de publicar onde a Elsevier mandar, a Elsevier continuará mandando. No dia em que as agências medirem a ciência por outra régua que não o nome da revista, o negócio inteiro vai desandar. Mas isso dependeria de um movimento coletivo que não parece estar pronto para emergir. Enquanto não emerge e põe fim ao modelo, seguiremos recebendo do Estado para pesquisar, pagando para a máfia publicar os resultados e depois pagando de novo, com o nosso imposto, o privilégio de reler o que nós mesmos pensamos e escrevemos.