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sábado, 15 de junho de 2013

Eça: A Ilustre Casa de Ramires



Um patife encantador?


 [texto publicado no volume  A ilustre casa de Ramires - 100 anos. org. por Beatriz Berrini.São Paulo: PUC-SP, 2000]



Gonçalo Mendes Ramires, o “protagonista absorvente, em redor de quem giram as demais personagens e tramas” do romance A Ilustre Casa de Ramires é, segundo Beatriz Berrini, “uma das mais felizes criações de Eça de Queirós, uma de suas personagens mais bem delineadas” e “uma das figuras mais bem trabalhadas do ponto de vista psicológico”.[1] Esse é também o pensamento de Álvaro Lins, que julga Gonçalo “a mais analisada e a mais conhecida” de todas as personagens queirosianas, a que melhor se oferece à contemplação do leitor.[2] E Carlos Reis por sua vez anota que é “n’A Ilustre Casa de Ramires e no processo de análise psicológica de Gonçalo Mendes Ramires que a focalização interna atinge o ponto mais elevado de uma curva evolutiva que tem como forçosa contrapartida a desvalorização da onisciência do narrador”.[3]
Mas quem é Gonçalo Mendes Ramires? Como poderíamos definir essa personagem cuja perspectiva “comanda a representação narrativa ao longo da quase totalidade do discurso”?[4]
Para António Sérgio, era uma criatura ficcional caracterizada pela “inércia psíquica”. Uma criatura cujo perfil psicológico e moral traçou nestas palavras: “ante as inclinações fisiológicas do seu ser orgânico e as forças exteriores que sobre ele atuam, o desgraçado é uma coisa que se deixa ir.”[5]
Já para João Gaspar Simões, Gonçalo parecia psicologicamente inconvincen­te: “em toda a obra do romancista não há maior títere que este Gonçalo Ramires”.[6]  E o mesmo pensava, em 1945, António José Saraiva, para quem o protagonista de A Ilustre Casa era uma personagem sem “personalidade própria”, que apenas obedecia a um “esquema preconcebido”.[7]
Em termos morais, o resultado da análise a que a personagem é submetida produz, segundo Simões, um ser algo desprezível, senão mesmo incongruente:

quando é bom, generoso e humano, Ramires não dá por isso; age naturalmente. (...) Pelo contrário, quando é cobarde, acomodatício ou torpe, é-o de forma tão refletida, tão ponderada, tão consciente que, a não ser um novo Maquiavel, só poderá ser um cretino.[8]



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