Um
patife encantador?
[texto publicado no volume A ilustre casa de Ramires - 100 anos. org. por Beatriz Berrini.São Paulo: PUC-SP, 2000]
Gonçalo Mendes
Ramires, o “protagonista absorvente, em redor de quem giram as demais
personagens e tramas” do romance A Ilustre Casa de Ramires é, segundo
Beatriz Berrini, “uma das mais felizes criações de Eça de Queirós, uma de suas
personagens mais bem delineadas” e “uma das figuras mais bem trabalhadas do
ponto de vista psicológico”.[1]
Esse é também o pensamento de Álvaro Lins, que julga Gonçalo “a mais analisada
e a mais conhecida” de todas as personagens queirosianas, a que melhor
se oferece à contemplação do leitor.[2] E
Carlos Reis por sua vez anota que é “n’A Ilustre Casa de Ramires e no
processo de análise psicológica de Gonçalo Mendes Ramires que a focalização
interna atinge o ponto mais elevado de uma curva evolutiva que tem como forçosa
contrapartida a desvalorização da onisciência do narrador”.[3]
Mas quem é
Gonçalo Mendes Ramires? Como poderíamos definir essa personagem cuja
perspectiva “comanda a representação narrativa ao longo da quase totalidade do
discurso”?[4]
Para António
Sérgio, era uma criatura ficcional caracterizada pela “inércia psíquica”. Uma
criatura cujo perfil psicológico e moral traçou nestas palavras: “ante as inclinações
fisiológicas do seu ser orgânico e as forças exteriores que sobre ele atuam, o
desgraçado é uma coisa que se deixa ir.”[5]
Já para João
Gaspar Simões, Gonçalo parecia psicologicamente inconvincente: “em toda a obra
do romancista não há maior títere que este Gonçalo Ramires”.[6] E o mesmo pensava, em 1945, António José
Saraiva, para quem o protagonista de A Ilustre Casa era uma personagem
sem “personalidade própria”, que apenas obedecia a um “esquema
preconcebido”.[7]
Em termos
morais, o resultado da análise a que a personagem é submetida produz, segundo
Simões, um ser algo desprezível, senão mesmo incongruente:
quando é bom, generoso e humano, Ramires não dá por
isso; age naturalmente. (...) Pelo contrário, quando é cobarde, acomodatício ou
torpe, é-o de forma tão refletida, tão ponderada, tão consciente que, a não ser
um novo Maquiavel, só poderá ser um cretino.[8]
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