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terça-feira, 18 de junho de 2013

O Mandarim, de Eça de Queirós




O Mandarim

[prefácio a uma edição escolar do livro, de 1998]


Eça de Queirós vem referido, nos manuais escolares, como introdutor e maior expoente do Naturalismo português. É verdade. Mas também é verdade que Eça não perman­ceu fiel a vida toda aos princípios definidores daquele movimento de idéias. De fato, se por Naturalismo entendermos o romance de análise e crítica social, baseado na investigação das determinações que o meio físico, os costumes e a herança genética impõem às personagens, apenas poderão ser denominadas naturalistas duas novelas queirosianas: O Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio. Suas outras obras pouco ou nada têm a ver com o Naturalismo, como podemos ver no rápido esboço da sua evolução literária, que apresentamos a seguir.
Seus primeiros textos, escritos por volta de 1865 e só reunidos postumamente sob o título de Prosas Bárbaras, são narrativas breves, marcadas pela influência de nomes emblemá­ticos da literatura fantástica – Nerval, Poe, Hoffman, Heine -- e sobretudo pelo espiritualismo de Vítor Hugo. Impregnadas de um forte sentimento panteísta, nem nos temas nem na forma trazem essas Prosas qualquer indicação de que o seu autor será, passados uns poucos anos, o convicto defensor do Naturalismo artístico.
Entretanto, já em 1871, na famosa conferência do Casino Lisbonense, Eça vai renegar conjuntamente a prosa fantástica e o romance histórico, e proclamar que o requisito básico da literatura moderna era a verdade; seu método, a análise; e seu objetivo, a melhora da sociedade por meio da crítica e da denúncia dos costumes. Era o triunfo da perspectiva naturalista, que logo produzirá os dois romances que nomeamos há pouco.
Mas seria rápido esse intermezzo programático. Em 1880, apenas dois anos depois de O Primo Basílio, Eça vai dar a público O Mandarim – uma novela fantástica, em cujo enredo tem participação decisiva uma figura declaradamente romântica: o Diabo.
Numa carta ao editor da Revue Universelle, que serviu de prefácio à publicação francesa da novela, Eça se mostrava bem consciente da singularidade do livro face à tendência estética dominante: “tendes aqui, meu Senhor, uma obra bem modesta e que se afasta consideravelmente da corrente moderna da nossa literatura, que se tornou, nestes últimos anos, analista e experimental”. Isso porque O Mandarim era “um conto fantasista e fantástico, onde se vê ainda, como nos bons velhos tempos, aparecer o diabo, embora vestindo sobrecasaca, e onde há ainda fantasmas, embora com ótimas intenções psicológicas”. A percepção do escritor é claríssima: apesar da atualização do ambiente da trama, o enredo fabuloso, o gosto pronun­ciado do exotismo, a ausência de interesse nos vários condicionalismos que determinam a ação dos indivíduos e a intervenção do sobrenatural configuram uma narrativa de molde romântico, ou neorromântico.
Nessa mesma carta, prosseguia Eça de Queirós com uma frase que vale a pena transcrever: “entretanto, justamente porque esta obra pertence ao sonho e não à realidade, porque ela é inventada e não fruto da observação, ela caracteriza fielmente, ao que me parece, a tendência mais natural, mais espontânea do espírito português.” Pode ser que a frase se aplique também ao espírito português, mas o que realmente importa é observar que se aplica perfeitamente ao espírito do próprio Eça, que, a partir de O Mandarim, vai abandonar progressivamente os caminhos do Naturalismo e retomar algumas características que já se encontravam nos seus primeiros textos: o gosto pelo exotismo das paisagens e civilizações e o pendor alegórico e moralizante. São essas características – centrais no texto de O Mandarim – que no final da vida de Eça de Queirós irão dar origem às impressionantes vidas de santos.

Do ponto de vista da evolução literária de Eça de Queirós O Mandarim representa, portanto, um momento de virada: aquele em que o escritor abandona a “preocupação naturalis­ta”, que, segundo o próprio Eça, embora tivesse servido para lhe disciplinar o espírito, também “o condenara a reprimir, muitas vezes sem vantagem, os seus ímpetos de verdadeiro romântico que no fundo era”.
Determinado seu lugar na produção queirosiana, observemos rapidamente essa obra singular. O Mandarim é antes um conto que uma novela, pois sua trama se concentra à volta de uma só personagem e a ação se reduz a um único acontecimento central, que implica todos os desenvolvimentos posteriores. O registro genérico é o da farsa moralizante, e o ponto de partida é um problema moral que era conhecido, no século passado, como o “paradoxo do mandarim”. Formulado em 1802 por Chateaubriand, consistia numa pergunta: se você pudesse, com um simples desejo, matar um homem na China e herdar sua fortuna na Europa, com a convicção sobrenatural que nunca ninguém descobriria, você formularia esse desejo? Vários autores glosaram esse tema ao longo do século passado, e o texto de Eça é talvez o seu último e mais literal desenvolvimento.
Do ponto de vista da crítica moral, lendo O Mandarim percebemos que há duas linhas independentes de desenvolvimento. A primeira é a mais simples. Mostrando-nos que todos o tratam de acordo com o dinheiro que possui, Teodoro nos vai apontar a hipocrisia que domina as relações pessoais e sociais. A segunda é a mais complexa, porque envolve a auto-representação do narrador. A ideia geral é a de que o crime não compensa, independentemente de qualquer outra consideração. Como ilustração desse princípio é que Teodoro narra aos seus leitores o seu caso exemplar: ao longo do tempo, após o crime que lhe propicia a riqueza, foi-se tornando infeliz, a tal ponto que o retorno à vida rotineira e medíocre de hóspede pobre da pensão chega a parecer-lhe uma forma de conseguir alguma paz de espírito.
Do ponto de vista da estruturação da narrativa, há igualmente duas observações a fazer. No que diz respeito à história da obra queirosiana, talvez valha a pena lembrar que O Mandarim é a primeira obra relativamente extensa escrita em primeira pessoa. Essa observa­ção pode reforçar o argumento, desenvolvido acima, de que o conto representa um momento de rejeição do modelo naturalista, que propunha a narrativa em terceira pessoa, mais adequada à análise objetiva. Já no que diz respeito à história do tratamento literário do paradoxo, a novidade do texto de Eça é a viagem à China. No seu texto, a China não é apenas o lugar abstrato, incógnito e remoto, onde vive um homem desconhecido cuja vida é destruída por um ocidental. Pelo contrário, ganha concretude e responde por cerca de metade do número de páginas da história. Da mesma forma que o Médio-Oriente em A Relíquia, a China é praticamente tudo em O Mandarim. Mas a diferença é que, enquanto em A Relíquia Eça descreve um ambiente e civilização que observara pessoalmente, em O Mandarim nos apresenta um lugar construído a partir de relatos de terceiros, de leituras e, principalmente, pela livre imaginação. Daí, justamente, o interesse da viagem de Teodoro, que nos conduz a uma China colorida, mirífica, bastante bizarra, em que encontramos uma espécie de súmula da visão europeia do que fosse o Extremo-Oriente.
Para o leitor de hoje, como para o de ontem, sem dúvida a parte mais atraente de O Mandarim continua a ser a viagem chinesa. O resto do conto tem um sabor conhecido e um registro genérico em que o desfecho é bastante previsível. Assim, é mesmo a fantástica viagem ao Império do Meio o que constitui o núcleo do texto e o mantém vivo e interessante. É também a viagem que singulariza esse texto na literatura portuguesa do final do século, fazendo dele um delicioso capítulo na história do exotismo orientalista que percorreu toda a cultura europeia da segunda metade do século passado.


quinta-feira, 24 de maio de 2012

Relações brasileiras de Eça (Eduardo Prado e outros)

Relações brasileiras de Eça de Queirós

 [Este texto foi escrito para servir de introdução à publicação da correspondência de Eça com brasileiros, nas obras completas do autor, publicadas pela Editora Aguilar em 2000]

 
No conjunto de cartas apresentado a seguir, não são muitos os nomes brasileiros. Deve-se isso, entretanto, mais ao acaso do que à real dimensão das relações brasileiras de Eça de Queirós, que foram sempre, principalmente depois que se instalou em Paris, muitas e variadas. Assim, não há aqui nenhuma carta de Eça a Joaquim Nabuco, que ele conheceu e com quem quase com certeza se correspondeu. Tampouco há aqui qualquer carta endereçada a Olavo Bilac, apesar de sabermos que o poeta brasileiro freqüentou a casa do romancista português e que ambos elaboraram, para diversão da família de Eça, uma jocosa peça de teatro a quatro mãos.
Esses são os nomes mais conhecidos, mas temos elementos para imaginar que não foi pequeno o volume da correspondência trocada entre Eça de Queirós e vários dos muitos brasileiros que, pela mão de Eduardo Prado ou de Domício da Gama, foram levados ao seu conhecimento. Perdidas ou ainda por encontrar, muitas cartas de Eça devem ter cruzado o Atlântico, como extensão e continuidade das sessões de cavaqueira que tornavam a sua casa um centro obrigatório para os intelectuais do nosso país, quando em viagem pela Europa. Das cartas de Eça, quase tudo se perdeu ou está ainda por achar em arquivos espalhados pelo nosso país. Já a grande maioria das que daqui foram enviadas para lá com certeza desapareceu, pois não tinha o autor de Os Maias o hábito de conservar as cartas que ia recebendo. E para constatar que o desaparecimen­to das cartas enviadas a Eça por amigos brasileiros não constitui um caso particular, devido a alguma diferença de tratamento, basta lembrar que, da correspondên­cia mantida com “Santo” Antero ao longo de quase trinta anos, só nos restaram duas cartas. Se Eça não conservou os papéis a ele enviados por aquele de quem se confessou discípulo para toda a vida, que esperar do destino de outra correspondência, certamente muito menos importante para ele tanto do ponto de vista intelectual, quanto afetivo?
Assim, devemos ter muito claro que o material hoje disponível, no que diz respeito ao Brasil, é apenas uma parte muito pequena do que foi de fato enviado e recebido, e que a presença do mundo intelectual brasileiro no quotidiano de Eça, principalmente no período parisiense, foi muito maior e significativa do que a mera identificação dos nomes dos destinatários das cartas e o teor dos textos aqui reunidos poderia sugerir.
Feita essa primeira observação, identifiquemos agora os brasileiros que se incluem na lista dos destinatários desta correspondência. Em primeiro lugar nessa lista vem Eduardo Prado. Amigo do romancista, freqüentador de sua casa, Eduardo Prado foi, sem dúvida, uma presença importante na vida do escritor e da família Queirós.


Eduardo Prado é hoje um autor quase esquecido. No seu tempo, entretanto, ocupou um lugar de grande destaque na vida cultural brasileira. Monarquista, propagandista anti-republicano, historiador empenhado em mostrar o caráter positivo da ação da Companhia de Jesus no Brasil, viajante insaciável desde a mocidade, deixou uma obra extensa, mas em grande parte voltada para os problemas do momento. Seus livros hoje quase que só apresentam interesse para os especialistas e estudiosos da história brasileira dos primeiros anos da República. É certo que ainda oferece atrativos a leitura do seu A ilusão americana, pela amplitude de visão que caracteriza a sua análise das relações entre o nosso país e os Estados Unidos, no momento em que começava a se definir o alinhamento norte-sul que duraria até hoje, e também é certo que o estilo do polemista de Fastos da ditadura militar no Brasil ainda causa impressão. Mas são textos que não oferecem atrativos para o público em geral, e é uma real infelicidade que aquela parte de sua obra que talvez pudesse manter vivo o seu nome na literatura brasileira se tenha perdido ou deixado de ser publicada. É o caso de um romance de juventude, de que temos apenas esparsa notícia, e do livro a que dedicou o melhor de seu talento de historiador e que desapareceu quando da sua morte prematura: uma biografia do Padre Manuel de Moraes. Esse estudo enfocava, em 700 páginas, a curiosa figura de um jesuíta interessado pela natureza americana, que primeiro lutou contra os holandeses, em Pernambuco e depois, renegando a fé e a bandeira, uniu-se a eles, transferiu-se para a Holanda, casou-se, tornou-se teólogo calvinista, para finalmente regressar ao Brasil, onde foi preso pela Inquisição e condenado à morte. Centrado na biografia do padre, procedia Eduardo Prado, ao que tudo indica, a um estudo aprofundado e original da até então quase desconhecida vida colonial brasileira. Composto como um painel, um retrato de época, o volume deveria aproximar-se, pelo escopo, dos que seu amigo Oliveira Martins dedicara, no final da vida, às grandes figuras da dinastia de Avis e que tanto impressionaram Eça de Queirós. Na mesma linha parece ter-se desenvolvido, sem que saibamos hoje se teria sido concluído o livro, ou abandonado ­a meio, um trabalho que lhe consumiu imensa pesquisa: a vida do Padre António Vieira.
Tendo sua obra acabado por se reduzir a algumas conferências mais ou menos eruditas e a muitos textos de intervenção política, Eduardo Prado passou à história principalmen­te como propagandista anti-republicano e diletante intelectual; ­isto é, um homem culto, de vários interesses culturais e políticos que não redundaram num conjunto de textos coeso e realmente significativo do ponto de vista histórico ou literário. Esse é, na verdade, o retrato com que o fixou José Veríssimo e que a crítica posterior não fez mais do que emoldurar ao sabor do tempo: ideologicamen­te, Eduardo Prado teria sido um dos únicos escritores inteiramente reacionários da nossa literatura; literariamente, essencial­mente um jornalista; intelectual­mente, um assistemático “amador das coisas do espírito”.[1]
Do ponto de vista da história da cultura brasileira, a importância de Eduardo Prado vai, entretanto, muito além do que dele nos ficou em letra de imprensa. Sua ação intelectual, como vemos por meio dos depoimentos de seus contemporâneos e pela correspondência que trocou com brasileiros e portugueses, foi bastante ampla, e pode-se dizer que, não só pela sua situação social, mas também pela inquietude de espírito e pela dedicação incansável aos assuntos brasileiros, Eduardo Prado foi uma espécie de centro de irradiação de um esforço de pensar a nossa realidade e um elo de ligação importantíssimo entre os intelectuais portugueses da Geração de 70 e seus contemporâneos deste lado do Atlântico.


Se tivéssemos de definir em poucas palavras os traços centrais da personalidade de Eduardo Prado, tal como o viram os seus contemporâneos, dois deles seriam, sem dúvida, a paixão do documento e dom de fazer amigos. Aliados a uma vivência internacional e a uma intensa curiosidade pelas várias formas de civilização e pelas novas conquistas da ciência, compõem esses traços uma figura destacada no panorama brasileiro finissecular, que só terá talvez par nesse outro dândi, igualmente erudito e igualmente internacional, Joaquim Nabuco.
No que diz respeito ao seu ambiente brasileiro, Eduardo Prado integrou um grupo notável de homens ligados à monarquia do Segundo Império. Tendo-se empenhado intensamente na crítica à República, e não tendo sobrevivido muito a ela, não se pode saber se ele teria, como Nabuco o fez a partir de 1899, dedicado efetivamente a sua enorme capacidade de trabalho ao país. Mas é o que tudo indica que aconteceria, pois quando o mesmo Nabuco, em 1899, recebeu o convite para servir como diplomata o governo do novo regime e o consultou, respondeu Eduardo Prado: “Aceite e, se quiser me levar para secretário, aceitarei também.”[2]  Faltou-lhe talvez tempo, depois de um primeiro período de repúdio e de ostracismo (que no seu caso, dada a violência com que combateu o novo regime seria forçosamente mais longo do que, por exemplo, o de Nabuco), para poder deixar de lado o orgulho e as divergências políticas e colocar em primeiro plano as questões mais amplas de interesse nacional.
Do ponto de vista da história literária, não há uma denominação usual para esse conjunto de intelectuais de que fez parte Eduardo Prado, e é difícil estabelecer, em termos cronológicos, uma denominação geracional que englobe tanto Eduardo Prado (1860-1901), quanto Joaquim Nabuco (1849-1910), Domício da Gama (1861-1925), o Barão do Rio Branco (1845-1912) e ainda Capistrano de Abreu (1853-1927). José Veríssimo, quando tratou do florescimento da crítica e do interesse pela história nacional na segunda metade do século XIX, utilizou, para identificar o conjunto dessa produção, o nome “modernis­mo” e não um rótulo geracional, e o denominador comum que aponta para ele é a influência do grupo de escritores portugueses reunidos à volta de Antero de Quental, no movimento coimbrão de 1865, que a historiografia portuguesa subseqüente identificaria como Geração de 70.
É verdade que a aposta de Veríssimo na profunda influência portuguesa para a constituição do pensamento crítico do “modernismo” dos anos 70-80 tinha como pano de fundo a sua polêmica contra o papel atribuído por Romero à chamada Escola do Recife, e especificamente a Tobias Barreto, como fermento da renovação do pensamento crítico brasileiro. Mas, do nosso ponto de vista, não é prejudicada na sua essência a propriedade da aproximação entre os jovens brasileiros dos anos 80 e os intelectuais portugueses que promoveram as Conferências Democráticas do Casino Lisbonense em 1871.


De fato, é bem conhecida a relação de amizade que uniu não apenas Eduardo Prado, mas também outros intelectuais do seu círculo de relações a Eça de Queirós, que foi um dos principais expoentes da Geração de 70. Do lado brasileiro, privaram com o escritor português Domício da Gama, o Barão do Rio Branco e Joaquim Nabuco. No círculo de Eça, por sua vez, faziam-se presentes Ramalho Ortigão e, embora por uma única vez em Paris, Oliveira Martins. Por outro lado, ajudando a compor o quadro de uma profunda integração finissecular entre os homens da Geração de 70 portuguesa e o “modernismo” brasileiro, há a vertente republicana e positivista, em que a presença mais decisiva é a de Teófilo Braga.
Entretanto, é importante não exagerar o peso das afinidades ideológicas. No final do século, à volta do eixo formado pela casa de Eça em Neully e pelo palacete de Eduardo Prado na Rua de Rivoli gravitava uma vasta gama de intelectuais brasileiros e portugueses trazidos a Paris por motivos vários -- diplomacia, viagens de formação, turismo cultural -- e de várias extrações políticas e sociais. É verdade que a tônica era intelectual, pois se elaboravam planos de revistas, discutiam-se os rumos do Brasil depois da República, os desastres da economia portuguesa depois do Ultimatum e as grandes questões do tempo, como o atesta a correspondência já publicada de Eça, Ramalho e Martins; mas muito mais do que o debate político ou literário, o que dava a liga do convívio luso-brasileiro em Paris era o prestígio do escritor português e a personalidade cativante de Eduardo Prado, bem como o cosmopolitis­mo que pautou a vida de algumas das personalidades mais notáveis do final do Segundo Império, como Nabuco, Domício da Gama, Rio Branco e o próprio Prado.
Nascido em 27 de fevereiro de 1860, em São Paulo, Eduardo Prado era filho de Martinico Prado e D. Veridiana da Silva Prado. A família Prado, além da riqueza consolidada no negócio do café, possuía grande expressão política não apenas local, mas em nível nacional, sendo o irmão mais velho de Eduardo, Antonio Prado, conselheiro do Império, onde ocupou o ministério da Agricultura e do Exterior. Dos irmãos de Eduardo Prado, destacou-se ainda na política Caio da Silva Prado, que foi presidente do Ceará, e também não foi um desconhecido o Dr. Martinho Prado, promotor público e adepto do regime republicano.
Eduardo Prado, de todos, foi o único que não teve carreira definida. Tendo cursado Direito, bacharelando-se em 1881, nunca exerceu continuadamente qualquer cargo público. Prolongando a sua formação, como os jovens aristocratas ingleses dos séculos XVIII e XIX, assim que obteve a carta de bacharel dedicou-se a uma série de viagens: primeiro pela América do Sul, de que resultam uma série de crônicas publicadas na Gazeta de Notícias; depois, começando em agosto de 1886, fez uma volta ao mundo, em que consumiu mais de seis meses e de que nos ficou um diário um tanto lacunar, recolhido postumamente, em ­­1902, como segunda parte do volume Viagens -- América, Oceania e Ásia.


Entre a data da sua formatura e o ano de 1892, foram dez anos fora do Brasil, viajando ou se estabelecendo em capitais européias e americanas. É nessa época que ficou, por algum tempo, como adido à legação brasileira em Washing­ton e, posteriormente, como adido à legação de Londres. E foi também durante esse período que residiu longo tempo em Paris, a partir de 1886, numa mansão ricamente mobiliada e dotada do que de mais novo havia em termos de inovações tecnológicas na Europa. Ainda em Paris, participou da representação brasileira na Exposição de 1889, para a qual escreveu dois textos: L’Art e Immigration.[3]
Como atestam essas publicações, do ponto de vista intelectual os anos em que permaneceu na Europa foram um período muito produtivo, no qual Eduardo Prado coligiu uma enorme quantidade de documentos e informações sobre assuntos brasileiros. E também sua passagem por Washington e Londres, como adido cultural, foi plena de frutos, não apenas porque pôde trabalhar na organização dos arquivos da legação brasileira, na capital americana, mas também porque, durante a estada em Londres, pôde levar adiante suas pesquisas sobre o Brasil colônia, com vistas à elaboração dos das duas biografias em que estava então interessado: a do Padre António Vieira e a do Padre Manuel de Moraes. Data desse primeiro período de sua vida internacional o aprofundamento da amizade com o Barão do Rio Branco, e talvez também, segundo hipótese de Capistrano de Abreu, a paixão pela história do Brasil, em que se tornaria, na opinião nada desprezível desse grande historiador, um dos maiores especialistas.[4]


A grande arte, porém, de que Eduardo Prado era um dos mais destacados cultores do seu tempo é outra: a conversação elegante e intelectualizada, a tertúlia oitocentista. Como Eça, Prado era uma presença cativante e estimulante, e sobejam documentos sobre a sua capacidade de incutir ânimo, idealizar projetos, levar adiante empreendimentos intelectuais e cultivar amizades. Um dos mais conhecidos depoimentos a esse respeito é o que o próprio Eça publicou, em 1888, no número 22 da Revista Moderna. Ali lemos este tocante elogio dessa personalidade que marcou tão profundamen­te o final de século luso-brasileiro: ­“pela inata alegria, pela vivacidade inventiva, pela veia ricamente cômica, pela abundância e delicioso humorismo da anedota, pela simplicidade que se pueriliza permanecendo fina, pelo elegante desdém da ostentação, pela bendita facilidade em se interessar, pela prontidão do entusiasmo, pela inteligente mansidão, pelo apego afetivo, não há mais desejável companheiro”. [5]  Também Maria Amália Vaz de Carvalho registrou, em termos igualmente efusivos, o fascínio que Prado exercia sobre os contemporâneos pela sua conversação culta e inteligente: “Conhecia os traços sociais de todas as civilizações, assim como sabia o que era o instinto primordial de todas as raças. Lera e sentira Ruskin antes de nenhum latino, creio eu, conhecer o hoje tão famoso e citado esteta inglês. Carlyle era-lhe tão familiar como Shakespeare, e Goethe ensinara-lhe tanto como Dante ou Maquiavel. Ao pé dele respirava-se um ar de alta intelectualidade, porque vivera sempre para as idéias e pelas idéias...”[6]
Tal personalidade exerceu sobre Eça de Queirós um fascínio duradouro e que transcendeu o âmbito das relações pessoais, e há quem sustente, com bastante verossimilhança, que o feitio aristocrático do brasileiro, sua história de viagens incessantes pelo mundo todo e sua curiosidade intensa pelos novos rumos da ciência e da tecnologia, informaram, pelo menos parcialmente, a construção de duas bem conhecidas criaturas ficcionais do escritor português: o dândi Fradique Mendes (que inclusive dirige uma de suas cartas ao próprio Prado) e o não menos refinado Jacinto, de A cidade e as serras.[7]
A dizer ainda, para situar melhor o contexto das cartas aqui reproduzidas, que Eduardo Prado voltou ao Brasil em 1892 para aqui combater o novo regime político do país. Fundou para isso um jornal, O Comércio de São Paulo – que foi empastelado pelos republicanos em 1897 – e, além de vários artigos, que se seguiram aos primeiros de 1889, quando ainda estava na Europa, escreveu, no bojo da campanha política o volume A ilusão americana (1893). Nos seus últimos anos, foi reconhecido intelectualmente com a eleição para a Academia Brasileira de Letras e para o Instituto Histórico e Geográfico. Foi para tomar posse neste último que viajou ao Rio de Janeiro, no início de agosto de 1901, local onde contraiu febre amarela, de que veio a falecer no dia 30 do mesmo mês, com 41 anos de idade.

Juntamente com Eduardo Prado, e desfrutando também de grande intimidade com o autor de Os Maias, fez-se presente, principalmente nos últimos anos de Eça, o escritor e diplomata brasileiro Domício da Gama.
Domício conheceu Eça de Queirós em Londres, em 1888, quando foi pela primeira vez à Europa, com o objetivo de cobrir, para A Gazeta de Notícias, a Exposição Universal de 1889, na França. Tendo ido diretamente para Londres, apresentou-se aí ao romancista português, com uma carta de recomendação do proprietário do jornal carioca, em que também Eça escrevia. Daí por diante, serão parceiros em pelo menos três empreendimentos culturais e cultivarão uma amizade na qual estarão incluídos a mulher e os filhos de Eça
 Antes, porém, de referir esses projetos e a relação afetiva entre Domício e Eça, vejamos quem foi esse brasileiro singular, hoje ainda mais esquecido do que Eduardo Prado.


Domício da Gama nasceu em 1861, em Maricá, no Rio de Janeiro, e foi batizado como Domício Forneiro. De família humilde e origem provavelmente negra, teve os estudos custeados pelo padrinho, Sebastião de Azevedo Araújo e Gama, cujo sobrenome adotou posteriormente. Tendo interrompido os estudos superiores na Escola Politécnica, foi primeiramente professor de geografia e, depois, jornalista.
Quando foi designado para cobrir a Exposição, Domício já era conhecido e respeitado como jornalista e como literato. Sua obra propriamente literária, nesse momento, limitava-se a uns tantos contos que, com o apoio de Machado de Assis, publicara na Gazeta Mas parecia então bastante promissora, como atesta o Retrospecto literário do ano de 1888, de Sílvio Romero. Estava aí Domício lado a lado com Raul Pompéia, como representantes de um novo naturalismo, mais amplo e mais humano do que o da escola de Zola. E prosseguia o crítico: “São muito moços, começam apenas, não deram ainda toda a medida de sua capacidade; mas, ou me engano muito, ou este país tem neles dois escritores de altura acima do comum.” A junção desses dois nomes, como destacadas vocações artísticas representativas da nova tendência da prosa brasileira do final do século, também se dá na carta de apresentação que escreveu Capistrano de Abreu, em 1888, ao seu amigo Barão do Rio Branco, recomendando o jovem Domício.
Ao longo dos anos subseqüentes, entretanto, Domício se foi dedicando cada vez mais ao estudo das questões geográficas e históricas vinculadas às negociações dos tratados de fronteiras do Brasil e à diplomacia, e cada vez menos, ao que parece, à elaboração e divulgação de sua obra literária. Entrando para o serviço público em 1891, é primeiro secretário de Rio Branco; depois, diplomata, servindo na Colômbia, no Peru, na Argentina, no Chile e nos Estados Unidos. Finalmente, em 1919, por um breve período, foi ministro da Relações Exteriores, cargo antes ocupado por Rio Branco.
De sua obra literária nos ficaram apenas dois volumes em livro: Contos a meia tinta, publicado em Paris, em 1891; e Histórias curtas, publicado no Rio de Janeiro, pela Ed. Francisco Alves, em 1901. Sem reedições, ficaram praticamente desconhecidos, embora sua leitura sugerisse a José Veríssimo o julgamento de que o autor estava “fadado a ser o nosso Poe”.
A crítica, até o momento, parece limitar-se a repetir, sobre sua obra, a apreciação de Lúcia Miguel Pereira, que via seu estilo como “excessivamente trabalhado” – embora o colocasse ao lado de Raul Pompéia, como a melhor expressão da nossa prosa parnasiana de ficção. Uma leitura desarmada dos seus textos, entretanto, permite afirmar que ainda não se fez justiça ao escritor, que certamente mereceria reedição e reavaliação. E é este, certamente, o momento de fazê-lo, agora que o cânon modernista parece estar finalmente deixando de determinar tão decisivamente a historiografia e a crítica literária brasileiras como o fez nos últimos quarenta anos.[8]


No que diz respeito à sua vida intelectual na Europa, Domício participou de alguns projetos, juntamente com Eça de Queirós, como dissemos anteriormente. A sua primeira colaboração se deu na Revista de Portugal, periódico fundado por Eça, de que saíram 24 números entre julho de 1889 e maio de 1892. O papel principal de Domício nessa publicação foi escolher e contatar os colaborado­res brasileiros. Alguns anos depois, vamos encontrá-lo na Revista Moderna, importante ­publicação custeada e dirigida por um brasileiro de fortuna – Martinho Carlos de Arruda Botelho. Foi na Revista Moderna, que teve 30 números, estendendo-se de maio de 1897 a abril de 1899, que Eça publicou parte de A ilustre casa de Ramires e vários contos e crônicas, além do conhecido texto sobre Eduardo Prado. E foi nela que, no número 10, datado de 20 de novembro de 1897 e dedicado integralmente a Eça de Queirós, Domício publicou um texto de homenagem ao amigo português. Finalmente, um último trabalho conjunto: a pedido de Ferreira de Araújo, proprietário da Gazeta de Notícias, organiza, com Eça de Queirós e Batalha Reis, um suplemento parisiense do jornal.
As cartas aqui recolhidas atestam a amizade entre Eça e Domício, que, além de ser o destinatário de nada menos do que doze cartas, é referido em várias outras. É que, como mostra o conjunto dessa correspondência, foi Domício, juntamente com Ramalho Ortigão e Eduardo Prado, ­um dos amigos mais chegados à família nos anos finais da vida do romancista. De fato, como podemos ver pelas cartas escritas por D. Emília, Domício se correspondia inclusive com ela e com os filhos do casal. E da natureza e profundidade do afeto que o unia a Eça é testemunho este trecho de carta enviada à viúva, logo em seguida à morte do escritor: “Na mesma semana recebo a notícia da morte de minha mãe e da de Queirós. Nem sei dizer qual das duas mais me aflige. Só sinto que desaparece­ram ao mesmo tempo dois dos grandes interesses da minha vida e é um grande desalento a perda dos amparos da aflição que a gente tem no mundo”.

Além de Eduardo Prado e de Domício da Gama, há que mencionar, como pessoa do círculo de brasileiros com quem convivia Eça de Queirós, o nome do Barão do Rio Branco, José Maria da Silva Paranhos Jr. (1845-1912). Paranhos foi, tanto quanto Rui Barbosa, uma das figuras públicas mais destacadas das primeiras décadas da República brasileira. Filho do Visconde do Rio Branco, que foi ministro do Império e chefe do ministério entre 1871 e 1875, começou sua carreira como professor do Colégio Pedro II, onde por alguns meses ensinou geografia do Brasil. Mas logo passou à política partidária, com a ajuda poderosa de seu pai. Seu futuro parecia definido, como herdeiro da história política do Visconde, mas uma ligação romântica com uma atriz belga, de quem teve um filho no começo dos anos 70, dificul­tou a sua vida política na sociedade conservadora do Segundo Império e talvez tenha contado bastante para a sua decisão de iniciar a carreira diplomática. Fosse como fosse, em 1876, depois de um mandato como deputado por Mato Grosso, é nomeado para o consulado brasileiro de Liverpool. Não se adaptando à cidade, acaba por optar pelo deslocamento constante, trabalhando na Inglaterra e residindo em Paris.


Como diplomata, destacou-se pela negociação de tratados de limites com outros países, nos quais, valendo-se dos seus vastos conhecimentos históricos e geográficos, conseguiu sucessos realmente notáveis. Graças a ele, foram definidos pacificamente e a favor do Brasil os litígios territoriais com a Argentina (1895), com a Guiana Francesa (1900), com a Bolívia (1903) e com o Uruguai (1908). Em conseqüência daqueles primeiros sucessos, em 1902 foi convidado a ocupar a pasta das Relações Exteriores e regressou ao Brasil, onde permaneceu, ocupando o mesmo cargo pelos dez anos que lhe restariam de vida.
Além de diplomata, Rio Branco foi também notável pesquisador da história brasileira, tendo escrito, entre outros trabalhos, um “Esboço da História do Brasil”, publicado durante a Exposição de Paris, em 1889, e o verbete Brésil, da Grande Enciclopédia dirigida por Lavasseur, além de uma biografia de D. Pedro II, que as conveniências dos primeiros tempos republicanos fizeram que saísse em nome de um rabino de Avinhão, chamado Benjamin Mossé..
Embora deslocando-se freqüentemente, de acordo com as missões que lhe eram atribuídas, até 1901 – um ano depois da morte de Eça, portanto – Rio Branco está presente na mesma cidade que o autor de Os Maias. Como era bastante ligado a Domício e Eduardo Prado, devia também ser presença usual nas reuniões luso-brasileiras da casa deste último ou na de Eça. Não temos registros epistolares mais amplos, que permitam aferir a real extensão das relações entre o fundador da nova diplomacia brasileira e os seus contemporâneos portugueses, mas sabemos que várias vezes Rio Branco se valeu dos conhecimentos pessoais de Eça de Queirós, quando alguma de suas missões implicava a necessidade de contatos em Portugal, para a localização de mapas e outros documentos. É uma carta dessa natureza, justamente, a única de que dispomos no momento e vem reproduzida nesta correspondência.

Como destinatários de cartas de Eça, cumpre finalmente mencionar dois outros brasileiros, representados com uma carta cada um: Augusto Fábregas (1859-1893) e Machado de Assis (1839-1908).
O primeiro foi teatrólogo, jornalista e redator do periódico O País. Em 1890 levou à cena uma adaptação de O Crime do Padre Amaro, que começou a ser representada no Rio de Janeiro em 25 de abril de 1890, obtendo grande êxito. A carta de Eça a ele destinada trata exclusivamente da questão dos direitos de autor sobre a encenação.
O segundo dispensa apresentações. A carta de Eça a Machado se deve, como é sabido, à publicação, pelo romancista brasileiro, de uma crítica ao romance O Primo Basílio, a revista O Cruzeiro, em abril de 1878, sob o pseudônimo de “Eleazar”.


A crítica de Machado – que na mesma época publicava em folhetins o seu Iaiá Garcia – atacava o romance de Eça a partir de dois ângulos principais. Por um lado, via nessa obra uma realização de uma tendência literária que não merecia a sua aprovação: o realismo de Zola. O Naturalismo, segundo o futuro autor de D. Casmurro, produzia uma literatura sensualista e escandalosa, que atendia ao gosto rebaixado do público contemporâneo. E era por ser uma tradução para o português do receituário da moda que fazia sucesso na França, pensava Machado, que o livro de Eça estava obtendo tão notável sucesso de público. Isso porque, pelo lado da fatura, o livro tinha, de seu ponto de vista, graves defeitos, que iam desde a forma de construir as personagens até a maneira de compor a trama, passando pela própria condução da narração. As personagens, segundo Machado, careciam de densidade moral. Dessa característica, derivava o defeito básico da trama, que era a necessidade de o autor introduzir elementos dramáticos externos, já que não havia drama psicológico ou moral que tensionasse e determinasse a sucessão dos acontecimentos. E uma vez que não era o estudo dos caracteres o que interessava ao autor de O Primo Basílio, a narração não distinguia o essencial do acessório, comprazendo-se muitas vezes na descrição infuncional.
A crítica de Machado parece ter encontrado repercussão em Eça de Queirós. Mas certamente encontrou muito maior repercussão na fortuna crítica de O Primo Basílio –  principalmen­te na sua vertente brasileira – e até agora informa muitas aproximações ao texto de Eça. Hoje, com a distância proporcionada pelos mais de cem anos, podemos ver mais claramente que, empenhado na criação de uma tradição cultural em nosso país, Machado leu o texto de Eça de uma perspectiva muito interessada. De fato, é patente no texto um esforço de combate à narrativa naturalista, que Machado entendia, naquele momento, como uma narrativa que favorecia a descrição e a notação sensual em prejuízo da análise das paixões e da complicação lógica do enredo. A crítica de Machado se processava, assim, a partir de uma concepção de romance que era oposta à que ele identificava no texto de Eça e que ele mesmo tentava pôr em prática no seu Iaiá Garcia: o bom romance era, para ele, naquele momento, o que investia na construção de personagens complexas, movidas por paixões e motivações morais que garantissem o interesse dos desdobramentos da narrativa. O que Machado combatia em O Primo Basílio não era apenas uma específica realização literária, mas também, tendo em mente o sucesso de público do livro de Eça, a possível influência do estilo naturalista sobre a jovem literatura brasileira. Apoiado numa perspectiva marcadamente romântica, Machado tentava mostrar que o perigo da disseminação do Naturalismo era interromper a continuidade histórica da literatura de língua portuguesa, e o objetivo de sua crítica se revelava muito claramente quando ele expressava a esperança de superação do hiato causado pela súbita voga do Naturalismo: terminada a moda – que ele mesmo, com esse texto, se esforçava por combater –,  a “arte pura” voltaria “a beber aquelas águas sadias d’O Monge de Cister, d’O Arco de Sant’Ana e d’O Guarani.” Nessa frase revela-se uma conjunção de sentidos que percorre todo esse texto de Machado, e procede dos pressupostos românticos que ainda eram os seus: a arte pura, as águas sadias e o beijo castíssimo de Eugênia Grandet se opunham defensivamente à arte impura, às águas perversas da maré naturalista e à sensualidade mais ou menos vazia que via no romance de Luísa. Esse poder de corrupção do romance de Eça era claramente tematizado por Machado, que condenava “essa pintura, esse aroma de alcova, essa descrição minuciosa, quase técnica, das relações adúlteras”, e concluía pela afirmação do perigo que ele representava para o público leitor: “a castidade inadvertida que ler o livro chegará à última página, sem fechá-lo, e tornará atrás para reler outras”.[9]


A carta de Eça a Machado revela que o romancista português assimilou a crítica a O Primo Basílio, situando-a como divergência de concepção sobre o papel e o lugar da literatura na vida social. De fato, propõe-se a defender em ocasião futura – que não parece ter-se concretizado – não as realizações particulares que são os seus romances, mas os princípios de que procedem, que são os da “escola que eles representam e que eu considero como um elevado fator do progresso moral da sociedade moderna”. Ou seja: respondendo ao que sentiu como o ponto central da crítica de Machado – a questão moral –, afirma o caráter progressivo, crítico e moralizante da escola naturalista, deixando cair para segundo plano – já que não as traz à discussão – as restrições específicas, estéticas e técnicas, que lhe fizera o romancista brasileiro.
É possível que, com o prosseguimento da pesquisa de fontes no Brasil, em futuro próximo venham a ser acrescentadas às cartas atualmente conhecidas, algumas das muitas que Eça de Queirós certamente endereçou a intelectuais brasileiros. De fato, muito há ainda por fazer em arquivos nacionais ainda pouco explorados. No momento, entretanto, são esses os corresponden­tes brasileiros conhecidos, sobre os quais nos competia aqui alinhavar estas rápidas informações.


[1] José Veríssimo. História da literatura brasileira. Brasília, Editora da UnB, 1963, pp. 292-3.
[2] Apud Paulo Prado, no prefácio a Coelho, Henrique. Joaquim Nabuco — esboço biográfico. São Paulo, Monteiro Lobato Ed., 1922.
[3] Esses dois textos foram escritos para a Exposição Universal e publicados no volume Le Brésil en 1889. Paris, Librairie Charles Delagrave, 1889.
[4] “Dos Estados Unidos passou a Europa, onde se ligou intimamente ao barão do Rio Branco. Talvez desta circunstância se originasse o amor pela história do Brasil; certo é que esse amor se tornou em verdadeira paixão, e nele acabou cedo com o vago diletantismo de que nós todos padecemos; possuía conhecimentos extensos e profundos, e tinha orgulho, muito justo e legítimo, de ser um dos primeiros especialistas no assunto.” ‘Eduardo Prado’. In: Ensaios e Estudos, 1ª série. Rio de Janeiro, Livraria Briguiet, 1931, p. 340.
[5] Repr. in: Eça de Queirós. Obras completas, vol. III. Rio de Janeiro, Ed. Nova Aguilar, F 19XX, p. XXXX. E
[6] Maria Amália Vaz de Carvalho, in: Figuras de hoje e de ontem.  Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1902. Apud: A. Campos Matos (org.). Dicionário de Eça de Queiroz. Lisboa, Caminho, 1988, verbete Eduardo Prado.
[7] A respeito, eis o que escrevia Octavio Tarquinio de Sousa, no capítulo “Amigos brasileiros de Eça de Queirós”, incluído no volume Livro do Centenário de Eça de Queiroz (Lisboa / Rio de Janeiro: Edições Dois Mundos, 1945): “Prado instalara-se bem no coração e no barulho da grande cidade, no amplo e luxuoso apartamento da Rua Rivoli n° 119, mobilado com muito gosto e em que se destacavam os instrumentos e peças de mais recente descoberta – telefone, máquina de escrever, fonógrafo – com criados de libré e um até inglês, que se gabava de ter servido a Darwin. Mais conforto, mais comodidades, pareceria difícil imaginar-se e essa moradia de Eduardo Prado e o seu dono inspirariam a Eça de Queiroz o 202, dos Campos Elísios, de A cidade e as serras e o requintado Jacinto.”
[8] Nesse sentido, vale celebrar o primeiro sinal dessa reavaliação –  uma tese de doutorado, defendida em 1998, em Assis, em que, pela primeira vez, se procede de modo muito sério ao levantamento dos dados biográficos, à consideração da fortuna crítica e à recolha de textos dispersos do autor: Luiz Eduardo Ramos Borges. Vida e obra do escritor Domício da Gama: um resgate necessário. (mimeo.). Foi esse trabalho a principal referência desta parte de nosso texto.
[9] A discussão dos pressupostos críticos e das observações de caráter mais técnico do texto de Machado se encontra mais aprofundada numa “Apresentação” a O Primo Basílio, à qual se remete o leitor interessado nesse tópico específico:  Queirós, J. M. Eça de. O Primo Basílio. Cotia, Ateliê Editorial, 1998.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Febre de Eça

Febre de Eça


[Publicado na Folha de São Paulo, em 13/8/2000. Em formato original em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1308200008.htm]


Há um século, no dia 16 de agosto de 1900, Eça de Queirós morria em Paris, com 55 anos. A notícia repercutiu fortemente no Brasil. É que Eça não era aqui apenas um romancista de sucesso. Era já havia tempos a figura idealizada que o jovem Alberto de Oliveira, quando o viu certa vez no Porto, ficou contemplando como se fosse "um pequeno deus". De fato, desde pelo menos a publicação de "Os Maias", em 1888, a intelectualidade brasileira parece ter sido acometida, para usar o termo criado por Monteiro Lobato, por uma "ecite": uma febre ou paixão intensa por Eça de Queirós, que vai atravessar, sem perder a força, pelo menos as duas primeiras décadas deste século.
A especial afeição brasileira por Eça de Queirós, porém, parece ser ainda anterior aos anos 80 e deve-se a um conjunto amplo de motivos. Por um lado, o romancista não aparecia ao público apenas como o autor de umas tantas obras-primas. Era uma presença muito mais próxima: um jornalista que escrevia regularmente nos periódicos brasileiros, opinando sobre os mais diversos assuntos.
De fato, só na "Gazeta de Notícias", Eça escreveu durante 16 anos seguidos, a partir de 1880. Além disso, tinha sido um dos jovens rebeldes que, ao lado de Antero de Quental e Teófilo Braga, se empenharam na denúncia do atraso político, moral e científico das nações ibéricas: era um dos representantes da já mítica Geração de 70, iconoclasta e modernizadora. Era também o autor das "Farpas" (1871-72), em que não só satirizara a sociedade portuguesa do seu tempo, mas também ironizara cruelmente o imperador do Brasil, d. Pedro 2º, no momento mesmo em que começava a fortalecer-se o republicanismo no país.
Por tudo isso, no ambiente encharcado de propaganda republicana dos últimos anos do Império e de propaganda antilusitana nos primeiros anos da República, Eça podia ser visto como um aliado progressista: um equivalente, para a vida portuguesa sua contemporânea, do que era o seu amigo Oliveira Martins para o passado dessa mesma sociedade. Quanto a esse ponto, vale ainda observar não apenas que o naturalismo foi geralmente assimilado ao positivismo e à ideologia republicana, mas também que o pensamento de Oliveira Martins ainda em 1902 forneceria a base de um livro tão importante quanto o "América Latina -Males de Origem", de Manuel Bonfim. Por outro lado, é certo que Eça de Queirós era, sob muitos aspectos, o oposto do outro grande romancista português havia pouco desaparecido, Camilo Castelo Branco. Camilo representava, para a maioria dos escritores brasileiros do tempo, o censor caturra, o ciumento corretor da linguagem utilizada deste lado do Atlântico. Era, além disso, o romancista da predileção da grande colônia portuguesa, que nele via o seu escritor por excelência: o que dispunha suas histórias em linguagem e paisagens legitimamente lusitanas. Eça, por sua vez, exibia uma linguagem muito diferente, de sintaxe mais direta e de vocabulário menos exuberante, cheia de neologismos e estrangeirismos, principalmente galicismos. Tão incorreta talvez, pelos parâmetros de Camilo ou de Castilho, quanto a de Alencar ou de Varela, essa linguagem simples e ágil não recuava tampouco ante o bom-senso ou as conveniências e descrevia de modo muito "realista" os vícios que os primeiros romances do autor visavam a denunciar. "Sórdido como uma página de Eça de Queirós!" -era assim que um moralista do tempo insultava um poema que julgava pernicioso. E foi graças a "O Primo Basílio" que "realista" e "naturalista" durante um bom tempo foram sinônimos, para o leitor comum, de repulsivo, indecente ou obsceno. Por tudo isso, Eça de Queirós era, de modo convincente, muito moderno e muito cosmopolita. Mas a substância mais ativa na promoção da "ecite" não foi nenhuma dessas, e sim a célebre ironia queirosiana, que, depois de "O Primo Basílio", vai marcar cada vez mais inconfundivelmente os seus romances, tanto na construção da frase, quanto na composição das personagens. Diferente da ironia romântica que, tal como aparece em Camilo e mesmo em Garrett, tem sempre um travo de amargura, a de Eça supõe uma atitude de espírito de luminosidade constante, um jeito de olhar que ao mesmo tempo promove a crítica dos costumes e reafirma o afastamento do analista em relação ao objeto da sua análise. Reconhecemos logo o estilo de Eça em frases simples como, por exemplo, "encalhado contra o piano, esfregava lentamente as mãos, esmagando o meu embaraço" ou "a figura de Napoleão sobre rochedos enfáticos". É a essa ironia, a esse sistemático olhar analítico, tingido de humor e de ceticismo, que se deve o fato de não haver heróis positivos no elenco dos protagonistas queirosianos. São sempre ou francamente negativos, como a Luísa, de "O Primo Basílio", ou o Raposão, de "A Relíquia", ou ambíguos e esbatidos, como o Gonçalo, de "A Ilustre Casa de Ramires", ou o Carlos, de "Os Maias". As personagens secundárias, por sua vez, são usualmente desenhadas com traço mais forte, ou para rebaixar, por contraste, as principais, ou para proporcionar uma síntese caricatural, reveladora do ambiente da época retratada no romance.
Esse procedimento produziu tipos inesquecíveis: o Conselheiro Acácio, o poeta romântico Alencar, a empregada Juliana, o revolucionário e inconsequente João da Ega, entre outros. Desses, a criação mais popular é, sem dúvida, o Conselheiro de "O Primo Basílio", que passou a integrar o patrimônio da mitologia e do vocabulário comum, pois desde os anos 80 do século passado pode-se dizer de qualquer figura pomposa e vazia que é um "acácio" ou que é uma figura "acaciana".
Estruturada a partir desse olhar distanciado e descrente, a narrativa queirosiana não vai firmar o desenvolvimento do enredo romanesco nas paixões, nem na coerência psicológica das personagens ou nas determinações fatais à sua liberdade. Pelo contrário, uma tendência forte do romance de Eça é a de se estruturar em painel mais ou menos alegórico, composto a partir da construção muito realista de situações particulares. Disso resulta uma narrativa cuja unidade não provém da verossimilhança realista do conjunto, mas é construída pelo recurso sistemático à intertextualidade e às simetrias e espelhamentos na construção dos episódios, das cenas e das personagens. Resulta também uma voz narrativa que nunca deixa de enfatizar os aspectos sensórios de cada um deles, destacando o que é mais ridículo, mais sedutor ou apenas mais plástico em cada momento da romance.
Esse conjunto de características da ficção queirosiana faz com que sua obra descreva uma curva que, se tem a sua origem num livro naturalista como "O Crime do Padre Amaro", rapidamente se afasta desse tipo de discurso e método compositivo, em direção ao que A.J. Saraiva denominou "impressionismo".
Esse afastamento já é bastante notável no segundo romance de Eça, "O Primo Basílio". O primeiro a dar conta da novidade desse texto foi o próprio escritor, que, assim que o livro saiu, escreveu a Teófilo Braga e fez um longo ato de contrição por não ter feito um romance ortodoxamente naturalista. Por outro lado, quando o livro foi publicado no Brasil, Machado de Assis logo notou que as suas personagens careciam de determinações fortes de qualquer tipo, fossem internas ou externas, e que o próprio enredo se montava a partir de uma série de acidentes, de casualidades. A autocrítica de Eça era claramente defensiva e por isso apresentava como defeito tudo o que fosse fuga ao receituário naturalista. Já a avaliação de Machado era moralista e se fazia de uma perspectiva marcadamente romântica. Mas ambas acusavam a existência nesse livro de uma nova forma de composição, que só ganhará força desse momento em diante na obra do autor.
Dois anos depois, em 1880, vem a público "O Mandarim", em que se completa o abandono da maneira naturalista. E após mais oito anos, em 1888, Eça publica "Os Maias". É o ponto alto da maturidade do romancista, no pleno domínio de uma maneira própria, e é, também, o ápice da "ecite" no Brasil.
Os dois grandes livros seguintes já serão póstumos: "A Ilustre Casa de Ramires" e "A Cidade e as Serras". Em ambos, acentua-se o traço alegórico e o distanciamento irônico da voz narrativa. Por isso, o primeiro vai ser objeto de graves reparos por parte dos críticos mais fiéis ao paradigma romântico/realista, calcado na verossimilhança psicológica e na construção orgânica da narrativa. A.J. Saraiva, por exemplo, vai escrever que dois defeitos principais de "A Ilustre Casa" são que a personagem central é um títere (é a mesma acusação de Machado a Luísa) e que o livro todo "é pensado, sobreposto e encaixado como as pedras de um edifício".
De fato, desde "O Primo Basílio", que José Régio considerava o mais bem construído romance de Eça, o escritor já pratica um tipo de literatura que, sem ser naturalista, continua a ser anti-romântica e se apresenta afinada com a evolução do romance europeu, principalmente com o esteticismo de um Huysmans, para não mencionar ainda outros escritores de grande voga na virada do século e pouco depois, como Oscar Wilde e Anatole France.
Assim, não é de estranhar que, para os brasileiros do final do século 19 e começo do 20, Eça tivesse encarnado adequadamente o ideal de modernidade; que tivesse representado para os leitores e escritores brasileiros um modelo, em língua portuguesa, do esforço para superar o velho mundo romântico (que no Brasil se confundia com o país monárquico, rural e escravocrata) e construir uma nova cultura: citadina, burguesa e republicana, fundada na instrução e no discernimento do cidadão médio. Um modelo, enfim, daquilo que era o título de um conto belíssimo, temperado de ironia e autocrítica, que Eça publicou originalmente em 1892 na "Gazeta de Notícias" do Rio de Janeiro: "Civilização".



segunda-feira, 17 de junho de 2013

Eça de Queirós: A cidade e as serras



A CIDADE E AS SERRAS: TESE CONTRA TESE

[Este texto, que é um trecho da apresentação do romance A cidade e as serras, publicado pela Ateliê Editorial, foi lido no Congresso Internacional O Século do Romance - Realismo e Naturalismo na Ficção Oitocentista , realizado em Coimbra em 2011.]

           Na fortuna crítica de Eça, ocupa lugar importante a afirmação de que o romance defende a tese da superioridade da vida tradicional do campo – das formas de vida e estruturas sociais paternalistas e pré-industriais – sobre a vida moderna. Colorido de patriotismo, o livro teria como proposta o retorno às origens da nacionalidade, no norte agrário português.
           Ora, dizer que a história narrada por Zé Fernandes possui uma tese não é o mesmo que dizer que o romance de Eça de Queirós tenha uma tese e muito menos que a tese da narrativa de Zé Fernandes seja a tese do romance de Eça ou a tese de Eça, de modo geral, nos últimos anos de sua vida.
           João Gaspar Simões, identificando uma coisa com outra, acusou Eça de insinceridade, uma vez que não o julgava disposto a adotar a solução que o livro proporia, ou seja, a trocar a sua vida em Paris pela vida rural portuguesa. Jacinto do Prado Coelho, por sua vez, definiu a obra como “romance reacionário”.[1]
           A questão de se a tese de Zé Fernandes é a tese de Eça não ocupará o primeiro plano desta comunicação. Isso porque não há como chegar a discutir a proximidade entre o ponto de vista de Zé Fernandes e o suposto ponto de vista de Eça sem primeiro entender a construção romanesca no interior da qual Zé Fernandes expõe e defende a sua tese; e também porque da análise dos últimos romances o máximo que se poderia extrair seria uma “ideologia do último Eça romancista”, que não necessariamente coincidiria com a ideologia do escritor, que ao mesmo tempo assinava textos com sentido bastante diferente do que se poderia extrair dos seus romances finais.
           Sobre esse ponto, num ensaio publicado em 1945 – ou seja, no ano de balanço político da obra do autor, no qual a tônica foi a suposta guinada à direita do antigo agitador socialista – Antonio Candido, depois de analisar o “recuo ideológico” que também identifica na obra romanesca do autor a partir de Os Maias, escreve: “com efeito, ao mesmo tempo que acomodava na fantasia e no ruralismo a sua visão literária, ele escrevia alguns dos seus artigos mais avançados politicamente: ao lado de uma crônica vencidista sobre a rainha ou o rei, um julgamento lúcido e destemido sobre o socialismo, ou uma crítica incisiva, mordaz, sobre a burguesia capitalista e o imperialismo econômico.”[2]
   A propósito do estado da crítica nesse importante ano do centenário, e de sua própria contribuição a ele, Antonio José Saraiva escreveu, no seu último livro, uma pungente e lúcida autocrítica:

           Em 1945, comemorando-se o centenário de nascimento de Queirós, o autor da presente obra publicou um estudo sobre As idéias de Eça de Queirós [...] De fato, o lento desenvolvimento da mentalidade portuguesa tornava ainda atual em 1945 a caricatura que Eça fez da nossa sociedade em As Farpas, O crime do padre Amaro e O primo Basílio [...]. Todas as outras obras eram consideradas desvios da sua ‘verdadeira’ rota. As idéias de Eça de Queirós é uma súmula dos clichês então reinantes sobre o escritor. Por isso uma obra-prima como A cidade e as serras era julgada como insignificante, ou como um ‘regresso’ a Júlio Dinis. E não foi só o presente autor que assim apresentou Eça: era a opinião generalizada.[3]

           Hoje o que parece mais razoável não é ler cada romance em busca de índices comprobatórios de uma imagem do autor feita a partir da leitura do conjunto deles, ou a partir de uma leitura seletiva dos textos do autor, elaborada com base nos interesses do momento, mas perceber em cada um a complexidade das vozes e situações. 
           No caso de A cidade e as serras, o mais interessante é perceber como se desenvolve a tese de Zé Fernandes no interior da narrativa, como ela se articula com outras teses ali presentes e quais os efeitos de sentido que derivam desse desenvolvimento e articulação. Com isso não só a imagem de autor seguramente será alterada, mas também a leitura se poderá fazer de forma menos esquemática e mais prazerosa.
           Passemos, então, à tese e sua situação dentro das coordenadas do livro.
           No que diz respeito a Jacinto, a tese sobre as virtudes do retorno à vida tradicional ou de reencontro com as bases da nacionalidade não faz sentido. Jacinto é personagem de mão única: nasceu, cresceu e viveu toda sua vida em Paris; um dia transferiu-se para as serras portuguesas e lá se fixou para sempre, sem jamais retornar à terra natal, isto é, à França.
           A história de Jacinto e de sua família, aliás, é desprovida de regressos. Seu avô, D. Galião, parte com a mulher e o filho para Paris, e de lá nenhum deles retornará a Portugal.
           Jacinto não vê, em momento algum, a viagem às serras portuguesas como retorno às origens; entende-a, sim, como uma excursão arriscada para fora das fronteiras do seu mundo: “É muito grave deixar a Europa!”, exclama, ao despedir-se da paisagem urbana, prestes a mover-se para fora das fronteiras da cidade e da França. Em Portugal, não experimenta efusão patriótica, nem comoção por sentir-se instalado nas terras da família, de onde lhe provêm as rendas.
           De modo que apenas tendo em mente um ser maior do que o indivíduo Jacinto – uma entidade como o clã, a linhagem familiar – torna-se possível falar em retorno e reencontro com as origens, como faz Zé Fernandes, quando grita para o amigo, assim que o trem entra em Portugal: “Acorda, homem, que estás na tua terra!” Para Jacinto, a frase só faria sentido – e ainda assim em registro bem diferente do patriotismo da exclamação de Zé Fernandes – se o trem estivesse a cruzar as fronteiras da sua propriedade de Tormes.
           A proposição de que o livro trata de um reencontro das origens e que a própria trajetória de Jacinto é a de um retorno a essas origens é a tese de Zé Fernandes. Mais do que isso: a tese do retorno deriva diretamente do desenho da vida de Zé Fernandes, que se apresenta como uma contínua viagem entre os dois pólos da vida européia representados no título do romance. Zé Fernandes não é apenas a personagem que regressa, mas ainda a personagem que o faz incessantemente: nasce em Portugal, estuda em Paris, retorna a Portugal e outra vez a Paris. Quando começa a ação do livro, aí o temos e, na seqüência, movimenta-se entre a cidade e as serras, terminando por fixar-se nessas, cuja superioridade afirma e enaltece, por meio do exemplo que é o seu amigo Jacinto.
           No romance, sua única viagem que não é desde o princípio entendida como regresso é o tour pela Europa, relatado com acentuado sabor cômico, por meio da quantificação dos aborrecimentos e das perdas, em um único parágrafo no capítulo VII. Tour esse, diga-se, que proporcionou ao viajante dois únicos prazeres dignos de nota: o encontro, em Veneza, com um estrangeiro que conhecia sua aldeia em Portugal e com o qual pôde evocá-la, e o momento do regresso ao aconchego da casa de Jacinto.
           O retorno à origem como recuperação da felicidade (e da virtude) é assim o tema e a tese de Zé Fernandes. E a demonstração da tese, segundo Zé Fernandes, é a prática de Jacinto. Zé Fernandes, sozinho, não pode afirmar a tese. Ele experimenta como ninguém a sedução da cidade. Sua recusa a ela está sempre a um passo de confessar-se como ressentimento provinciano. Jacinto, o cosmopolita que encontraria a felicidade no campo, é, por isso mesmo, o apoio e a prova isenta da tese de Zé Fernandes.
           Jacinto, entretanto, tem a sua própria tese sobre a felicidade, que aparece logo no começo do livro: a de que ela é o produto da suma ciência e da suma potência. Uma proposição de que a felicidade, portanto, reside na integração ao próprio tempo, no que ele tem de mais avançado.
           A tese sustentada por Zé Fernandes, na medida em que identifica a felicidade com o retorno à vida campestre e pré-industrial (ou que propõe que os remanescentes do mundo pré-industrial sejam lugares possíveis para a felicidade na idade moderna), implica desde logo a demolição da tese de Jacinto.
           Por isso, porque a afirmação de uma depende da destruição da outra, Zé Fernandes se ocupa com vigor de demonstrar a Jacinto (e ao leitor) o erro da perspectiva e das crenças do amigo.
           Desse ponto de vista, Jacinto é tanto o defensor de uma tese incompatível com a do narrador, quanto uma demonstração da tese deste. Ou talvez fosse melhor dizer: Jacinto é o campo de provas de Zé Fernandes, que atua sobre ele e sobre o leitor de modo a tornar o amigo a própria demonstração de sua tese. Ou seja, Zé Fernandes não só precisa destruir a tese de Jacinto, como também convertê-lo à sua própria, torná-lo um exemplo da correção daquilo que propõe como alternativa à tese do amigo.
           Já se observou que a dupla Jacinto/Zé Fernandes reproduz, em certa medida, a dupla matricial D. Quixote/Sancho Pança. A sugestão está dada no próprio romance, em cujo capítulo VIII, se lê:
  
                        Jacinto adiante, na sua égua ruça, murmurava:
                        – Que beleza!
                        E eu atrás, no burro de Sancho, murmurava:
                        – Que beleza!
          
           Mas há pouco de Sancho nesse narrador astuto. Como há pouco de Quixote no seu amigo Jacinto, que, além de ter boa figura, é ainda sobejamente rico, tem excelente saúde, é agradável às mulheres, possui inteligência e grandes dotes sociais, e não possui, a rigor, incompatibilidade violenta com os ambientes nos quais se move.
           De modo que a alusão de Zé Fernandes produz apenas o reforço da imagem de bom-senso chão, que o narrador se arroga, e da caracterização de Jacinto como irrealista, defensor de uma causa fantástica.
           Ou seja, a qualificação das personagens, nessa passagem, integra a estratégia geral de Zé Fernandes, que é sublinhar a fragilidade prática de Jacinto e conseqüentemente enfraquecer o seu lado na disputa pela resposta correta à questão que lhe interessa e que, uma geração antes, foi título de um romance de Camilo Castelo Branco, “onde está a felicidade?”.
           Nesse livro, Camilo respondera a essa pergunta com grande cinismo “realista”: “Está debaixo de uma tábua, onde se encontram cento e cinqüenta contos de réis.” Já no romance de Eça, sendo Jacinto um herdeiro para o qual as necessidades da vida não pesarão nunca, essa resposta está interdita e a demanda da felicidade deverá operar-se tendo a riqueza como pressuposto, o que permitirá a Zé Fernandes apresentar a história do amigo (e a sua, integrada à do amigo) como uma história exemplar, quase um apólogo.
           De fato, Jacinto, abrigado da necessidade pela fortuna herdada, pode livremente entregar-se ao exercício da modernidade e do refinamento da civilização como busca da felicidade, deles colhendo apenas tédio, insatisfação e enfraquecimento da saúde. E também poderá, na seqüência, porque o acaso o trouxe a Tormes, entregar-se às fantasias agrícolas e ao projeto de erradicação da pobreza dentro dos muros da sua propriedade, sem cuidar mais de Paris, que se reduz a etapa encerrada da sua vida.
           Assim, as duas fases de Jacinto são claramente marcadas do ponto de vista da satisfação: a primeira fase é de ausência e a segunda é de plenitude. A primeira é de tédio, a segunda de animação. E o agente da transformação não é a vontade, nem qualquer alteração da sua situação financeira, mas o simples acaso que, de súbito, o deslocou de um ambiente para outro.
           Jacinto resulta, por isso mesmo, uma personagem fora do mundo, no sentido que age em completa liberdade e sequer se dá conta ou se importa com as implicações dos seus atos. É auto-suficiente. Vive, desse ponto de vista, num castelo (perfeitamente isolado e autônomo, porque isento de vassalagem que o obrigue a qualquer ação para fora), num domínio que se faz e se quer independente e alheio ao resto do mundo. O seu alheamento e autocentramento tornam-se evidentes ao longo da narrativa, não só no que diz respeito à economia, quanto no que diz respeito à política.
           Do ponto de vista econômico, o lucro e a otimização dos recursos – princípios elementares de qualquer empreendimento – são para ele assuntos desinteressantes, que não merecem atenção, como se vê no episódio da projetada queijaria, no capítulo IX. Tampouco é um avarento, no sentido pré-capitalista, pois além de não sofrer a paixão de acumular, não tira prazer da contemplação do que possui, já que não manifesta o menor desejo de ao menos conhecer as suas outras terras, de onde lhe vêm, na verdade, os recursos que emprega na reforma de Tormes.
           Do ponto de vista político, embora seja uma espécie de redentor dos campos, não oferece ameaça aos demais proprietários, pois confina a reforma aos domínios da sua terra. Seu gesto reformista, aliás, deixa-se facilmente ler como puro paternalismo, ou melhor, como estratégia de política reacionária, como se vê no capítulo XIII, quando Jacinto é tido como absolutista, parceiro e enviado de D. Miguel.
           Em Paris, Jacinto é um dândi. Nas serras, não parece que o tenha deixado de ser totalmente, já que o motivo principal das suas ações, principalmente nos primeiros tempos de adaptação, nunca é de ordem sentimental ou econômica, mas sim de caráter essencialmente estético. A miséria dos camponeses o deixa horrorizado como um canto mal pintado de um quadro bucólico; os empreendimentos agrícolas, para desespero do administrador, não são encarados do ponto vista dos custos e proveitos, mas como problemas matemáticos ou de decoração.
           Como dândi, Jacinto faz um caminho contrário ao modelo do gênero, o herói do romance Às avessas (1884), de J.-K. Huysmans. O romance inteiro – mas principalmente, desse ponto de vista, a sua primeira parte – pode ser lido como uma espécie de às avessas de Às avessas. De fato, Des Esseintes, no livro de Huysmans, é, como Jacinto, um homem muito rico. Mas enquanto Des Esseintes usa seus recursos para construir uma casa e uma vida a contrapelo do caminho burguês, utilizando o máximo da técnica moderna para poder isolar-se por completo tanto da natureza quanto da vida social, Jacinto utiliza sua riqueza, em Paris, para viver em total integração com o mundo e para exibir essa integração como ideal de vida, como o demonstram o escritório provido de tubos, a biblioteca de ambições enciclopédicas e a intensa vida social. A ciência e a técnica, para ele, são não apenas instrumentos de ampliação da potencialidade natural dos sentidos e das capacidades humanas, mas também matéria de espetáculo, afirmação de fé no progresso e elemento de decoração - o que faz da sua casa uma espécie de museu do contemporâneo.[4]
           Mas se Jacinto, no campo, continua em certo sentido um dândi, o registro do seu dandismo abrandado é agora outro: o do isolamento senhorial. Por isso, altera-se o lugar da técnica. Rebaixada ao caráter puramente instrumental, ela tem agora função oposta à que desempenhava na casa parisiense: não mais serve para compor o ambiente da mundanidade moderna ou para integrar o proprietário no movimento geral da época; reduzida a um telefone, tem sinal oposto, pois permite que Jacinto permaneça o maior tempo possível sem locomover-se da ilha de bem-aventurança que é o seu domínio serrano.
           No episódio do telefone, aliás, a conduta de Zé Fernandes demonstra o seu interesse em que Jacinto não fuja ao papel exemplar, fundamental para garantir a tese que o seu livro apresenta e defende. De fato, alarmado com a notícia da chegada da novidade a Tormes, Zé Fernandes põe-se logo em campo para impedir o pior: uma recaída do amigo na doença do progresso e do pessimismo. Desconfiado, assume o papel de terapeuta vigilante, que não confia nos propósitos de Jacinto e só entra em sossego quando constata, com o passar do tempo, que o amigo persistirá no caminho da felicidade rural. Ou seja, Zé Fernandes precisa vigiar Jacinto, para que este continue a ser a demonstração viva, o exemplo perfeito da tese da superioridade do campo como lugar da felicidade. Para isso Jacinto precisa manter-se firme na recusa à máquina e à tecnologia, que tanto ele quanto o narrador identificam com a idéia de progresso e de cidade.
            Do que ficou dito deve ter ficado claro que A cidade e as serras não é apenas a história de Jacinto. É a história de Jacinto contada por um narrador complexo, que tem uma tese pela qual se esforça desde a primeira linha do romance. Um dos elementos desse esforço é a busca da cumplicidade do leitor; outro é a produção da caricatura enternecida (tingida sempre de condescendência paternalista) do seu herói, contra a qual afirma a sua qualidade de homem realista e razoável. Um efeito da conjugação de ambos dá a graça maior do livro, que procede justamente da dificuldade do narrador sustentar a sua tese, já que ele mesmo não se mostra, na maior parte do romance, convencido de que o percurso de Jacinto seja de fato um exemplo digno de imitação. Nem mesmo por ele, que, até a última viagem a Paris, parecia não querer para si a felicidade acomodada do amigo, imerso no isolamento rural.
            E este é outro ponto que merece atenção: Zé Fernandes não é apenas o narrador e a testemunha da história e da mudança de Jacinto, é também uma personagem que se transforma sob o efeito da mudança que narra e testemunha. Recapitulemos: a princípio, Zé Fernandes não sofre de tédio em Paris; ao mesmo tempo, não tem, na sua terra, a ilusão ou os recursos para construir para si um mundo à parte, como o Castelo da Grã-Ventura de Jacinto. Pequeno proprietário, fascinado pelo desregramento da civilização, Fernandes tem no amigo um espelho no qual se reconhece em negativo, um espelho que lhe devolve uma imagem algo diminuída: na cidade, deixa-se ver e se reconhece como provinciano ávido de deleites sensuais, com uma dose aproximadamente igual de volúpia e repulsa ressentida perante o grande mundo parisiense; no campo, exibe prudência e consciência culpada da exploração que embasa a vida tradicional, ao mesmo tempo em que experimenta não só a nostalgia da vida parisiense, mas também a nostalgia de ter Jacinto como contraponto a reafirmar as suas convicções. De fato, diz ele: “é até monótono, pela perfeição da beleza moral, aquele homem tão pitoresco pela desinquietação filosófica [...]. Quando ele agora, bom sabedor das coisas da lavoura, percorria comigo a quinta, em sólidas palestras agrícolas, prudentes e sem quimeras – eu quase lamentava esse outro Jacinto que colhia uma teoria em cada ramo de árvore” (p. 231).
           Sob o efeito da mudança operada em Jacinto, há um momento em que os papéis se invertem: Zé Fernandes se entedia no campo, depois da perda da amante e da morte da égua, e, sentido “uma pontinha de bolor” na alma, embarca para Paris. Lá, o tédio não o abandonará por completo. Será, na verdade, apenas sufocado pelo sentimento maior de desamparo e horror, que ele compara ao que Jacinto experimentara na primeira vez que fora ao campo.[5]
           Dessa maneira, Zé Fernandes não só encena a indissociabilidade entre ele e Jacinto, reforçando a relação especular ante ambos, mas ainda mostra como a conversão de Jacinto acentuou nele as suas próprias características, tornando-o mais visceralmente do que nunca o homem do campo. Mas a simetria pára por aí, pois enquanto Jacinto superou o medo e o desconforto e se adaptou ao ambiente que não era o seu – isto é, ao ambiente rústico –, tornando-se perfeitamente integrado à vida saudável das serras, Fernandes não superará as sensações ruins experimentadas na última visita a Paris, que apenas o levarão de volta à sua quinta, reafirmando a excelência do lugar de origem. Nessa derradeira estada, Zé Fernandes assume o papel de Jacinto, tal como ele o via antes da transformação: aquele que poderia ter, mas não queria ter, todos os prazeres da cidade; que poderia ceder, mas não cede – por inapetência ou simples tédio –, a todas as tentações (que ainda enfeitiçam Zé Fernandes, como se vê pela passagem em que se lembra da amante, ou pelo maço de revistas que traz a Tormes).
           O lugar de Jacinto na economia interna de Zé Fernandes, assim, é mais do que o de uma tese demonstrada. Jacinto é uma escora, um antídoto que permite a Zé Fernandes construir uma zona de “realidade”, na qual se sinta em segurança. E, ao mesmo tempo, é o modelo para a sua solução do conflito entre a cidade e as serras: “o equilíbrio da vida, e com ele a Grã-Ventura”.
           Jacinto teria obtido esse equilíbrio, segundo o narrador, por meio de uma controlada concessão à tecnologia moderna. De fato, muito controlada, pois não haverá máquinas agrícolas em Tormes, nem qualquer rudimento de industrialização rural. O progresso tecnológico se restringirá à incorporação, à rotina da casa senhorial, de um telefone, e do conforto moderno serão aproveitados apenas alguns móveis e tapetes, destinados a melhorar o quotidiano da família. No que toca à propriedade como um todo, anunciam-se alguns projetos que envolvem a informação e a técnica modernas: uma biblioteca de livros de estampas e uma sala de projeção de lanterna mágica, para instrução dos camponeses. Nesse sentido, a modernização que Jacinto opera nos seus domínios é conservadora: a recusa ao uso da tecnologia para a produção agrícola, a reforma das casas dos rendeiros e a farmácia (bem como a escola, a creche, a biblioteca e a sala de projeção planejadas para o futuro) produzem a melhoria das condições de vida dos pobres, sem alteração significativa, seja na forma de produção, seja na dependência dos camponeses em relação ao senhor da terra.[6]
           Zé Fernandes terá, ao final do livro, a sua própria solução para obter “o equilíbrio da vida, sem contudo partilhar do ímpeto reformista e caridoso de Jacinto. Sua solução consistirá no simples afastamento da matéria corrupta da cidade e na preservação do espírito dela, por meio da importação, para as serras, dos livros e revistas parisienses: “Pois adeusinho, até nunca mais! Na lama do teu vício e na poeira da tua vaidade, outra vez, não me pilhas! O que tens de bom, que é o teu gênio, elegante e claro, lá o receberei na Serra pelo correio.”
           Dessa maneira, o percurso de Fernandes se revela mais conservador e individualista do que o de Jacinto, o que reforça o sabor burguês das suas ressalvas, em Paris como em Tormes, ao comportamento e às idéias do seu “príncipe”. E é provavelmente desse caráter da personagem narradora, da sua perfeita caracterização, que decorre a tentação, por muitos experimentada, de fugir à ironia constitutiva do romance e atribuir ao autor, ou à sua intenção, o caráter conservador que o romance – de Zé Fernandes, não o de Eça – traz à evidência.



[1] Jacinto do Prado Coelho, “A tese de ‘A cidade e as serras’”. In A letra e o leitor. Lisboa: Moraes Editores, 1977, pp. 169-174. A primeira edição do livro é de 1969.
[2] Antonio Candido. “Eça de Queirós entre o campo e a cidade”. Livro do centenário de Eça de Queirós. Reproduzido com o título “Entre campo e cidade” em Tese e antítese. São Paulo: T. A Queiroz, 2000.
[3] Antonio José Saraiva. A tertúlia ocidental – estudos sobre Antero de Quental, Oliveira Martins, Eça de Queiroz e outros. Lisboa: Gradiva, 1995.
[4] O caráter de museu ou sala de exposição que possui o apartamento de Jacinto é evidente ao longo do livro. No final, quando Zé Fernandes o visita, esse caráter explicita-se, agora em negativo, quando o narrador observa as coisas desusadas, como já dispostas num museu, para exemplificar a instrumentação caduca dum mundo passado”, p. 243.
[5] Miguel Tamen já notara a estrutura em quiasmo, que faz equivaler, nesta passagem “Zé Fernandes-da-cidade a Jacinto-das-serras”, por meio da “vaga tristeza da minha fragilidade”. “Fazer Arcádia”. In A cidade e as serras – uma revisão, pp. 31-2.
[6] É provavelmente a essa forma de compreender a reforma das condições de vida dos pobres nos seus domínios que Jacinto se refere, quando, no capítulo XIII, depois de ser confundido com agente miguelista, declara ser socialista.