sexta-feira, 10 de abril de 2026

Memórias de Marta - uma questão

10/2/26

Preparei, para a Ateliê Editorial, uma edição do romance Memórias de Marta, de Júlia Lopes de Almeida.

Segui, como é praxe nesse tipo de trabalho, a última vontade da autora.

Esse romance, que é o primeiro da escritora, teve três versões.
A primeira saiu em jornal, em 1888; as duas seguintes saíram em livro: uma em 1889, por uma editora de Sorocaba, e outra, por volta de 1930, por uma editora francesa.

A edição de 1889 retoma o texto do jornal, com alterações significativas. A mais importante talvez seja a supressão dos cinco parágrafos finais. Neles, a autobiografia de Marta chegava até o momento da escrita, revelando ao leitor que ela tivera uma filha dois anos após a morte da mãe. Nesse trecho, Marta esclarecia também que a narrativa fora escrita para a pequena Cecília, como forma de celebrar e preservar a memória da avó.

Essa destinação explícita levantava uma questão relevante: seriam o enfoque dos fatos narrados e o tom geral da obra adequados à destinatária? Com a supressão do final, desapareceu esse enquadramento da narrativa. (Incluí, no entanto, o texto cortado na apresentação da minha edição, para que o leitor possa compreender melhor a estrutura e a evolução do romance.)

Perto do fim da vida, já autora consagrada, com muitos livros de sucesso de crítica e de público, JLA voltou ao seu romance de estreia e o reformulou.

Essa revisão final, realizada em algum momento da década de 1920, contém diversas modificações importantes, que não vale a pena detalhar aqui.

Ocorre que a Fuvest, ao divulgar a lista de obras de autoria feminina para o vestibular, indicou desta forma o romance: “Memórias de Martha (1899)”. Essa data, no entanto, não corresponde à primeira edição em livro (1889), mas ao que parece ser uma reimpressão.

Ao menos duas editoras republicaram o texto de 1889/1899. Outras, como a Penguin e a Ateliê, seguiram a melhor prática editorial, que é adotar a última edição revista pelo autor. No caso, a publicada sem data, por volta de 1930.

A indicação confusa da Fuvest cria, assim, um problema adicional para os estudantes: devem ler a edição intermediária de 1899 ou a definitiva, revista pela autora? Ou ambas, analisando as diferenças? Porque há diferenças que podem ser decisivas para algum nível interpretativo. A maior delas é a forma da morte do pai.

Para mim, não há dúvida: o romance deve ser lido tal como definido pela autora em sua última edição.

A aparente opção da Fuvest por uma versão intermediária acabou por criar sério ruído.

Por conta disso, para que o leitor pudesse ter uma ideia das principais diferenças entre as versões, tratei de as expor na apresentação.

Gostei de realizar esse trabalho comparativo, mas não deixei de pensar, enquanto o fazia, na confusão que a maneira como a Fuvest indicou o livro a ser lido poderia causar aos vestibulandos, na hora de decidir qual versão escolher. Isso se as questões realmente versassem sobre o texto do livro.

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