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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Tudo é falso - livro de Ricardo Lima


O nome do último livro de Ricardo Lima é "Tudo é falso". É uma daquelas frases aporéticas. Se é verdade que tudo é falso, o livro também é falso. Mas se o livro não é falso, então o título é falso, pois há pelo menos alguma coisa verdadeira: o livro. Em termos lógicos, a frase é insustentável, mas vale notar que, como título, ela tem um estatuto escorregadio, pois títulos não fazem asserções no sentido pleno. "A Moveable Feast" não afirma que Paris tem o estatuto da Páscoa ou do Pentecostes. Em “Breakfast at Tiffany's”, Holly Golightly nunca toma café da manhã na Tiffany's. “Lavoura Arcaica” não é um romance regionalista, nem rural, nem sequer a lavoura existe de fato nele. Ou seja, o livro não está submetido ao seu próprio título como uma proposição está submetida às suas condições de verdade. A aporia talvez nem se forme de fato. Mas a aporia, no caso do livro de Ricardo Lima, está lá, e temos de lidar com ela. Sucede que em termos poéticos, a aporia funciona – ia quase dizendo que tem valor de verdade, mas recuei a tempo. É que, ao dizer que tudo é falso, o poeta faz um duplo movimento: aponta para um momento em que não só as “fake News” são evidentemente fake (embora possam determinar até mesmo a economia e os rumos de uma nação), mas o jogo inteiro parece uma manipulação, como no filme “Matrix”. A metáfora da Matrix já está bastante domesticada pela cultura pop, e o livro seria pobre se fosse por esse caminho. Ele não vai, embora a analogia possa talvez ser feita num sentido amplo: assim como além da Matrix há, por um lado as máquinas e por outro os remanescentes humanos em guerra permanente, no livro também deve haver algum combate real, do qual emerge o poeta como ponte entre os dois universos, denunciando a falsa realidade da matriz. A questão é que esse gesto excede o que a metáfora já sabe sobre si mesma. O título produz um excesso, e é nesse excesso que a poesia se firma. Porque tudo que vira imagem em poesia passa a existir. Tudo que é nomeado ganha, em algum nível, existência. Se eu afirmo perante uma plateia que não há, de forma alguma, um minúsculo cavalo verde sobre a minha mesa, ele passa a existir como imagem mental. Posso atribuir-lhe ações na sequência: o cavalo galopa de um canto a outro, recebe nas crinas o vento do ar-condicionado, se ergue nas patas traseiras para me cumprimentar com intimidade, abaixa o focinho em cumprimento respeitoso à plateia. É um cavalinho simpático, como todos podem ver. A poesia em grande parte consiste em dar existência ao inexistente e ao impossível na experiência comum. É por isso que o título "Tudo é falso" não precisa ser resolvido nem desmentido. Ele fica é suspenso, é apenas indicativo, é como o cavalinho verde ou o “Cavalo de todas as cores” da revista ideada por João Cabral. Nessa suspensão, o livro passa a existir como espaço próprio, com suas próprias leis. A poesia, portanto, absorve a aporia lógica, consegue habitá-la e transformá-la em modo de existência. Por isso pode ser falsa e ao mesmo tempo dotada de sentido e realidade interior. No caso de Ricardo Lima, o que vemos é um momento de poesia, se posso usar esse termo, violentada pela realidade. Acontece que tenho acompanhado a produção de Ricardo há muitos anos. Tenho lido e tenho escrito, em privado ou em público, as minhas impressões. A impressão acima se deve à novidade deste livro. O poeta, nos livros anteriores, era de uma espécie complicada: um temperamento lírico, ao mesmo tempo ensimesmado e atento ao miúdo da vida, evitando o discurso e o derramamento. Um poeta que podava o poema até deixar só o osso e as articulações, sem se preocupar se o leitor, dali, retiraria vida ou apenas a visão desse esforço de verdade íntima. Era em geral uma poesia que evitava, porém, a determinação: verbos no infinitivo, substantivos nus, sem artigos definidos ou indefinidos, eu sensível apenas como sujeito a organizar a forma e o ponto de vista sobre o recortado do rosto do cotidiano. Um trajeto de evolução linear em direção ao descarnamento. Agora, não. Esse poeta do mínimo ainda aparece, mas aqui e ali os últimos anos brasileiros, a pandemia, a ascensão da barbárie e do totalitarismo pelo mundo afora, tudo isso emerge com força, violentando (como disse) a forma e o ponto de vista. Para alguns, essa cedência representará um ganho. Para outros, será – para usar um título de livro anterior do poeta – a irrupção do absurdo e do falso da vida cotidiana no “pequeno palco” dos poemas enfeixados em mais um belo livro da Ateliê Editorial. Como leitor contumaz, confesso que estranhei o rumo e o novo tom de vários poemas deste livro. Mas, como habitante deste país, neste tempo, entendi perfeitamente o enredo da peça, e vi o esforço novo e os temas novos forçarem por dentro o estilo que antes vestia os livros anteriores como – para usar mais uma vez uma analogia pop – o Hulk emerge das roupas do Dr . Bruce Banner.

 

domingo, 24 de junho de 2012

Carta a Ricardo Lima




[O texto desta carta foi publicado no site Germina, em 2007.
Refere-se ao quinto livro de poemas de Ricardo Lima, Pétala de lamparina
que foi publicado pela Ateliê Editorial em 2010.]



Campinas, 26 de dezembro de 2006

Ricardo, caro,

Li e reli o Pétala de lamparina. Creio que é um belo livro, que faz uma espécie de balanço da obra anterior e anuncia o que talvez seja uma maneira ou caminho novo. Na primeira parte, deparei com o título do seu último livro, inserido no poema VII. Na página final, deparo com o título dos dois outros. Não encontrei o do primeiro. Se estiver em algum lugar, perdi-o.
Mas não é só isso que me dá idéia de balanço, ponto de mutação. Alguma coisa se move aqui que não me parecia mover-se nos livros anteriores. Ou melhor, não parecia ao menos mover-se com essa pressão que localizo agora sob as palavras, entre uma e outra, ao longo da sucessão dos poemas. Não sei bem o que é. Talvez seja um ultrapassar do laconismo dos livros anteriores que, mesmo sendo inerente ao projeto, acabava por ser muito de época, por solidarizar-se ostensivamente com a poética contemporânea brasileira dos círculos que buscam no Cabral lido pelos concretos o marco zero da poesia moderna.
Temos problemas, no Brasil, com o discursivo. E uma legião de poetas se formou e vicejou apenas por conta dessa recusa do discursivo, eu creio. Ficou fácil, em certo sentido, fazer poesia: dizer nada ou quase nada numa sintaxe indecisa, valorizando a paranomásia e alguma referência erudita ou meramente culta. Um oráculo de coisa alguma. Normalmente, um oráculo meio gago.
Nos seus livros anteriores, eu creio que é clara a força construtiva de um discurso próprio. Ao mesmo tempo, o resultado final precisava do livro – da ordenação do conjunto e da leitura conjunta dos poemas – para ser apreensível como projeto. Quero dizer, isolado, cada poema sofria mais com o peso da linguagem comum do tempo. Juntos, os poemas mostravam o projeto, que redimensionava os traços comuns, dando-lhes uma justificativa e um peso novo (de autenticidade, se a palavra ainda puder ser usada hoje em dia), por conta do desenho geral.
Neste livro, o que mais me chamou a atenção é que o discurso se individualiza. Muitos dos poemas podem ser lidos isolados, sem perder a marca que, nos anteriores, só advinha do conjunto. Foi o que tentei descrever com a imagem de uma pressão constante sob a superfície conhecida.
Quanto ao livro em si, tenho poucos comentários, neste momento. Li-o duas vezes de uma ponta a outra e reli trechos várias vezes. Ainda não tenho uma visão muito articulada, porém.
O que pensei foi que a estrutura do livro parece materialização de um desejo de ordem. Vinte poemas seguidos de outros vinte. O acordar e o final do dia. O preparar-se e o recolher-se.[1] O que ocorre entre um e outro momento apenas comparece como possibilidade, recolha ou sinal indecifrado.
A voz lírica apresenta momentos de preparação, alude a memórias que surgem tão fragmentárias que não se tornam presentes, celebra às vezes algum momento breve de epifania ameaçada, contempla os restos da luta quotidiana pela ordem.
É uma voz crepuscular a que me surgiu na leitura do livro. Uma voz que fala nos crepúsculos, nos intervalos entre o dia pleno e o sono, com um olhar atento às ameaças que não aparecem senão por meio da metonímia da roupa, do escritório, das cartas do banco, da rua que é espaço de crime. Índices da cidade que aparece pouco e quase sempre como lugar hostil, de lixo, perigo e compromissos. Mas não há espaço para o sono ou o sonho. Esse me parece um ponto alto. Não há anseio escapista. Somente uma espécie de prolongamento da vigília, mais ou menos inútil, com o perpetuar das ameaças lembradas ou pressentidas, no correr da noite.
Há algo de defensivo nessa estrutura e nessa voz. Mas da mesma forma que as ameaças são reduzidas a índices comuns, muitos deles até banais, do ponto de vista imagético (o que não quer dizer que não sejam próprios e funcionem), o espaço a preservar também o é. Daí que também não fique claro o que há para preservar, o que seria a epifania rala das manhãs e noites e do intervalo entre umas e outras.
O livro assim caminha na corda-bamba. Navega entre Cila-lugar-comum-da-felicidade da reclusão doméstica e Caribdes-lugar-comum-da-inabitabilidade do universo público. Ao mesmo tempo, a natureza não é idílica no livro. E a cidade não é totalmente demonizada.
O recolhimento possível é um lugar de vigília e as duas sombras que o perpassam são uma louca e uma suicida, duas mulheres, uma delas aludida apenas por meio da casa e dos afetos deixados para trás. A tarefa da observação e da escrita não tem atalho, nem simpatia, como se lê logo depois de uma dessas alusões. E o desamparo físico não é redimido pela sobrevivência do escrito ao escritor, como sugere a outra.
O título do livro, nesse quadro, é uma nota estranha e nostálgica. Talvez a única nesse conjunto ordenado de poemas meio descarnados, que flertam com a desordem, mas se contêm todos a tempo.
Pensando bem, há talvez uma vítima explícita no livro. Preciso refletir mais um pouco sobre isso, mas agora penso que talvez o tom de réquiem se deva à morte da nostalgia. Isso poderia explicar um pouco o que me pareceu o toque novo do livro. Mas não estou seguro.
Na nota final, de apresentação, o poeta não repetiu que vive em um lugar e sobrevive em outro. Talvez não tenha dito assim para não repetir o achado. Ou talvez por outra razão. Vive entre um lugar e outro. Mesmo para quem não conhece nem um nem outro, a afirmação é curiosa. Ainda mais num livro que se estrutura para apresentar uma voz intervalar e com a estrutura e os temas que este tem. Vive entre, vive em ambos, ou de um para outro.
É uma observação banal, mas pode fazer pender a interpretação para o lado da perda da ilusão da vida plena, da idealização de um espaço de vida verdadeira, contra um fundo de degradação. Seria talvez esse o sentido do balanço da obra pregressa.
A lamparina continua a brilhar, solitária, no título. Mas já é uma pista enganosa. O rural e o pré-industrial aparecem aqui corroídos. E de alguma forma desgastados, exauridos no seu potencial imagético ou redentor. E o efeito é interessante, quanto a mim. É novo.
Haveria algumas observações ainda mais miúdas a fazer. Há versos que penso que poderiam ser objeto de alguma intervenção. Há um ou outro poema também.
Mas queria logo lhe mandar estas impressões desordenadas, escritas para começar a conversa.


[1] A primeira parte se chama Caro Acordar; a segunda, Tarde Noite.