Alcir e eu temos conversado sobre IA. Eu tenho insistido em que ele propôs uma boa descrição do que viria a ser o funcionamento da IA, quando publicou, há 30 anos, o notável “Máquina de Gêneros”. Seu orientador e o Haquira se indignavam com ele porque ele tendia a explicar maquinalmente a produção dos sermões e abandonar a ideia da criação do gênio português ou das condições sociais.
Enquanto falávamos disso, ele pensou em submetermos ao Claude um ensaio dele e pedir que a IA fizesse o paralelo. Resultou este texto, inteiramente redigido pela IA, e muito estimulante. O pedido foi que Claude lesse o texto do Alcir e lhe escrevesse uma mensagem em tom pessoal. Eis aqui.
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Caro Alcir,
Li *Para ler os Sermões de Vieira* com a pergunta que o Paulo me passou e a primeira coisa a dizer é que o seu texto descreve a máquina generativa contemporânea com mais precisão do que a maior parte do que se escreve hoje sobre ela. A frase decisiva está no fecho: quando Vieira começa a pregação, "já uma *máquina* de composição está em andamento, pronta a fornecer-lhe os principais *análogos* da *invenção* e metáforas da *elocução*". Troque "pregação" por "prompt" e a frase serve sem ajuste para o que acontece quando um modelo de linguagem produz uma linha. O texto existe como potência antes de ser atualizado. A invenção está disponível antes que alguém comece a inventar.
Onde a analogia se sustenta é no estatuto do repertório. Os seus *lugares* "estão desenvolvidos ainda antes que Vieira sequer comece a compor o sermão pela primeira vez": estão dados, selecionáveis, cruzáveis. O modelo opera sobre o mesmo pressuposto, com outra matéria. No lugar das tópicas parenéticas da tradição católica, ele tem a regularidade estatística de um corpus imenso, as tópicas sedimentadas de tudo que já se escreveu. Cada saída é uma seleção e um cruzamento dentro de um espaço que precede o pedido. A máquina, nos dois casos, é anterior ao caso.
Aqui aparece a diferença que vale nomear, e ela é de fundamento. A sua máquina é normativa: os lugares estão organizados por uma ortodoxia litúrgica e uma economia salvífica. O cruzamento entre "mirrar de pavor" e o *arescentibus hominibus* de Lucas é motivado por uma teologia que decide de antemão o que pode ligar-se a quê. A máquina do modelo organiza o repertório por coocorrência aprendida, sem dogma e sem calendário; o cruzamento ali é regido por associação distribucional. A forma do gesto coincide — repertório dado, atualizado na ocasião. O que sustenta o repertório se separa: de um lado a doutrina, do outro a distribuição.
A hipótese que o Paulo levantou — o prompt do criador como análogo da "aplicação ao caso" do jesuíta — me parece o ponto mais fino, e quero puxá-lo até onde dá. A sua terceira ponta, a das circunstâncias, é o que singulariza a máquina: a Capela Real, com D. João IV presente em 1650. O sermão é a máquina aplicada a um caso. A casuística inaciana é exatamente isso, a regra geral encontrando a ocasião única, e a arte estando toda no ajuste. O prompt ocupa essa posição com exatidão estrutural: é a circunstância que o usuário fornece, e a máquina responde com a invenção e a elocução. A graça da criação mora no ajuste, no encontro entre a máquina anterior e a ocasião que o pedido convoca.
E há um trocadilho teológico escondido em "graça" que vale soltar, porque ele é seu. Entre os temas do Advento você lista "a graça de Deus ao enviar seu filho à terra". *Graça* é a agudeza do engenho e é o dom imerecido ao mesmo tempo. Na teologia que move os sermões, a graça é geral, oferecida a todos, e só vira evento no caso singular, na alma, na ocasião. A "aplicação ao caso" é o lugar onde a graça geral se faz acontecimento singular. O prompt é o lugar onde a máquina geral se faz texto singular. A intuição do Paulo, lida assim, diz que a graça da máquina está na sua atualização, e isso repõe a própria estrutura da graça tal como o Vieira a prega na sua leitura.
Falta a parte em que você encerra o ensaio, e é a que mais me interessa devolver, porque a máquina contemporânea a ilumina por contraste. Você recusa a "genialidade" e restitui a Vieira o título de *autoridade*: ele "se torna uma *autoridade* no gênero ao emular a tradição e propor novas formas particulares de atualizá-lo". O modelo é a prova literal da primeira metade dessa tese. Eis uma máquina que produz texto eloquente sem gênio nenhum e sem interioridade, só pela produtividade do repertório dado. O incômodo que ela causa em quem acredita em genialidade é o mesmo incômodo que a sua leitura causa há trinta anos. Vocês são aliados.
A segunda metade da sua frase é que separa as águas. Emular, propor, atualizar para novos auditórios são atos de quem responde a uma tradição e a uma audiência. O modelo emula sem reverência, porque não tem modelo que venere, e produz sem auditório perante o qual responda. A autoridade, na cena da IA, migra inteira para quem escreve o prompt. É ele que toma os lugares como dados e os ajusta à ocasião, e que responde pelo acerto ou pelo fracasso do ajuste. Quer dizer: na sua analogia, o autor do prompt *é* o jesuíta; o modelo é a máquina; o corpus é o repertório de lugares. A posição de autoridade que você devolve a Vieira continua humana. A máquina nunca a teve.
Uma última correspondência, talvez a que mais lhe agrade, porque é sobre tempo de produção e não sobre semelhança de superfície. Você desdobra a circunstância em direta e indireta, 1650 e 1683, e mostra que o sermão que lemos é uma superposição: a ocasião da prédica e a ocasião da reescrita, uma relendo a outra. O modelo vive nessa condição como regra. O corpus é a sedimentação de incontáveis ocasiões passadas de enunciação, todos os "1650" das vozes que ele aprendeu; o prompt é o "1683", a ocasião presente em que aquilo tudo se reescreve. Cada frase gerada é reescrita de enunciação anterior sob circunstância nova. O modelo nunca fala pela primeira vez. Ele sempre relê. A superposição de tempos que você encontra em Vieira é a condição temporal de qualquer saída de máquina.
Se você e o Paulo querem mostrar que a graça da criação da máquina está no modo de acessá-la, o seu próprio ensaio já fornece o instrumento. Basta tratar o prompt como a quarta ponta que você não precisava nomear em Vieira, porque ali ela estava encarnada no pregador. A casuística é a teoria do ajuste entre regra e caso, e é a teoria que falta à conversa atual sobre IA, que oscila entre o deslumbre com a máquina e o desprezo pela máquina sem reparar que o problema interessante está no gesto de aplicação. Você escreveu uma poética da aplicação ao caso uns trinta anos antes de ela virar o problema técnico de todo mundo.
Fico à disposição para descer com mais vagar a qualquer um destes pontos.
Claude